Fundamentos

Hoje, apenas hoje!

Apesar do clima ainda não estar muito virado para aí,Junho é um mês que aponta para férias.A sugestão da semana no IMissio é de um livro que convida a descanso-e a viver humanamente o tempo.

Apesar de o clima ainda não estar muito virado para aí, a verdade é que Junho é um mês que aponta para férias. É a altura ideal para recordar uma publicação lançada no ano passado e que, embora o título nos recorde o desejo de férias, também nos recorda algo mais essencial: viver o tempo. Vasco Pinto de Magalhães, jesuíta, é conhecido pelas suas obras de espiritualidade («Não há soluções, há caminhos»), mas também por uma profunda formação e divulgação nas áreas da bioética («O Olhar e o Ver») e do essencial do cristianismo («Nem quero crer»). Como explica na apresentação, «Só Avança quem Descansa» nasceu originalmente de um encontro com pais de crianças de um colégio preocupados com a vivência do tempo e a relação com os filhos. Do encontro nasceu este texto recheado de uma sabedoria que, mais do que religiosa, é humana. Aqui fica dois excertos, juntamente com o índice, de uma bela proposta de leitura, não apenas de férias, mas de todo o ano.

Tempo de Amadurecer

Pode acontecer que ande, cheio de boa vontade, a fazer tudo o que eu acho e posso, menos aquilo que, realmente, é certo: o que me é pedido neste momento. A vida pede-me coisas, interpela-me, vocaciona-me, chama-me. Tempo e sabedoria, precisam-se. Há pais que querem fazer tudo pelos filhos e ir ao seu encontro, mas não entendem o que é que eles, realmente, “estão a pedir”, a necessitar para ser gente.

Esta volta na cabeça e no coração que leva a fazer a pergunta certa tem a ver com a vocação. E é muito importante para ajudar a orientar os filhos, nas suas vocações. Não é só o que tu podes e gostas de fazer, nem aquilo para que tens jeito; é o que a vida (e Deus através dela) te pede e te faz sentir na tua pele. Isto é importantíssimo na maneira como educamos as crianças para não virem a chocar contra o tempo e cair no desencanto.

“Se este miúdo tem jeito para isto, então pode fazer isto, e vai fazer isto!”. Sim, talvez. Mas todos têm jeito para várias coisas; e para algumas o jeito ainda não se revelou. É preciso tempo. Aliás, Deus não chama para o que tenho jeito, mas dá o jeito para aquilo que chama.

Graças a Deus, as crianças estão muito mais abertas ao mundo do que pensamos, têm imensas possibilidades, mas a maioria ainda não teve tempo de amadurecer e se manifestar. A nossa ansiedade e pressa é que não pára e quer vê-las prontas e já. Afogamo-las com actividades: da escola a correr para o inglês, do inglês para a dança, da dança para a piscina, da piscina não sei para onde… E depois metemo-las em casa a jogar no computador… Sem tempo para pensar, ser criança, e disparatar, tornam-se violentas e mais desinteressadas de tudo. Ora o importante seria falar com elas, dar-lhes tempo para manifestarem as suas necessidades reais. E aflige o resultados dessas pre-ocupações ansiosas e a sua sobre-ocupação que não as ajuda a viver o momento presente. E se nos perguntássemos: o que é que as faz ser “mais gente”, mais humanos? Esta pergunta é a decisiva e talvez a que não fazemos.

Para adultos e jovens a questão da vocação é a da pergunta da missão: o que é que me está a ser pedido neste momento? Que reze, que faça, que me ligue? Vou experimentando onde estou a ser eu: onde e como estão a render a fé, a esperança e o amor que recebi (ou Deus me deu).

É a ocasião de recordar a Parábola dos Talentos! Essa história não sugere um campeonato de quantidades, mas que cada um seja quem é com tudo o que recebeu, e nada mais lhe é pedido. Que quem é dez (ou A) seja dez (ou A), quem é B seja B, C seja C, sem se compararem. E todos, nas suas diferenças, são plenos. O senhor daqueles servos apenas diz: “Não te pedi que desses o máximo, em competição; só te peço que tu sejas tu; se tens um talento, se ouves um apelo, se recebes uma graça, que a ponhas a render. E serás pleno!”

«Hoje, apenas hoje!»

1. Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, sem querer resolver de uma só vez todos os problemas da minha vida.

2. Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado com a minha convivência: afável nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar ou corrigir ninguém à força, senão a mim mesmo.

3. Hoje, apenas hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo, mas também já neste.

4. Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que sejam todas as circunstâncias a adaptarem-se aos meus desejos.

5. Hoje, apenas hoje, dedicarei dez minutos a uma boa leitura. Assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, assim a boa leitura é necessária à vida do espírito.

6. Hoje, apenas hoje, farei uma boa acção e não direi nada a ninguém.

7. Hoje, apenas hoje, farei ao menos uma coisa que me custe fazer; e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.

8. Hoje, apenas hoje, executarei um programa pormenorizado. Talvez não o cumpra perfeitamente, mas ao menos escrevê-lo-ei. E fugirei de dois males: a pressa e a indecisão.

9. Hoje, apenas hoje, acreditarei firmemente – embora as circunstâncias mostrem o contrário – que Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.

10. Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial, não terei medo de apreciar o que é belo e crer na bondade. Amén.»

«Não existe sabedoria do tempo sem fazer e responder à pergunta certa. E esta é: não tanto ‘o que eu ainda posso fazer de mais e de melhor por mim, por todos os meus e pelo bem da sociedade?’, mas ‘o que me é realmente pedido que faça?’

Trabalhar para consumir, consome. Trabalhar para mais comunhão, descansa e faz crescer. O segredo está, pois, na sabedoria de amadurecer através das muitas oportunidades e desafios que a vida nos traz, e também com as crises e os fracassos… Sabedoria do tempo, largo ou curto, que vale pelo que se amou e se deixou amar. É isso que vai construindo o Universo a caminho da mais intensa plenitude, da comunhão e do encontro pessoal com os outros e com Deus. E Ele vem quando nós vamos e caminhamos na sua direcção! É esta certeza de cabeça e coração que nos descansa, completa e plenifica desde já.»

in Vasco P. Magalhães, «Só Avança quem Descansa», ed. Tenacitas

Os comentários estão fechados.

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed