Fundamentos

Maria, uma mulher judia

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«Maria, uma mulher judia:

Feliz és tu que acreditaste!»

Ed. UCE | Lisboa 2006 | 156 págs. | PVP: 16,65 euros

«A beleza duma mãe é indescritível. Ela nasce do amor como a luz surge do sol. Para celebrar a beleza de Maria, não é necessário recorrer ao romantismo nem à piedade sentimental. Basta situar Maria no seu verdadeiro contexto, o da Galileia do século I. Nada de fantástico ou esmagador na vida desta jovem de Nazaré.

No início os Evangelhos proclamavam a morte e ressurreição de Jesus, sem dar uma grande importância à sua mãe. Só quando alguns milagres foram acrescentados a este núcleo primitivo, é que a figura de Maria apareceu aqui e acolá. Nos evangelhos da infância, que constituem a terceira etapa da redacção dos Evangelhos, o seu retrato torna-se mais nítido. A luz da Páscoa não deformou a realidade histórica. Numa floresta, ao entardecer, quando o sol desce sobre o horizonte e os seus raios oblíquos se abatem sobre os troncos das árvores, as alamedas sombrias iluminam-se. Então avista-se muito ao longe na floresta. Na realidade nada mudou, mas tudo ficou iluminado. Também a luz pascal não alterou a vida de Maria, mas revelou-nos o seu sentido interior.

O evangelista São Lucas escreve que ela guardava todos estes acontecimentos no seu coração. Memória viva, foi-o Maria no momento do nascimento de Jesus. Ela foi-o ainda com mais verdade, quando do nascimento da Igreja (…) Um retrato realista de Maria, mulher judia, não pode alhear-se do estudo do seu contexto religioso, politico e social. Longe de ser uma figura mítica ou distante, Maria, torna-se então próxima da condição humana.»

«A escassez de dados sobre a vida de Maria proveniente das primeiras gerações cristãs é compensada pela sua qualidade e pela sua riqueza teológica. A perspectiva de Paulo e dos evangelistas é totalmente cristológica e não se interessa por Maria a não ser com o feliz anúncio de seu filho. Universal é a água viva no seu brotar mas única é a fonte donde ela jorra: a existência histórica de Jesus de Nazaré. ‘O Cristo universal de São Paulo, escreve o padre Teilhard de Chardin, só poderá ter sentido e valor aos nossos olhos como manifestação de Cristo nascido de Maria’.

O primeiro escritor cristão é Paulo. Os Evangelhos que existiam já eram transmitidos por via oral. O único texto onde Paulo fala de Maria é a carta aos Gálatas. ‘Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da lei, para resgatar os que estavam sujeitos à lei’ (Gal 4,4).

Paulo não se preocupa com a forma como o Filho de Deus nasceu. Ele recorreu à antigo fórmula semítica transmitida por Mateus: ‘Entre os filhos dos homens, não surgiu ninguém maior do que João Baptista’ (Mt 11,11). Esta expressão define o homem na sua debilidade. Jesus pertence à humanidade no destino e na pobreza comuns a todos os homens.

Assim como a pregação apostólica não explora o tema de Maria no kerigma primitivo, Paulo não fixa o seu olhar sobre Maria. Para ele a mãe de Jesus pertence ao quadro histórico que liga o Mestre à história e à Humanidade na sua pobreza. É um facto que a primeira geração cristã medita pouco sobre Maria. Ela também pouco mais diz sobre a vida terrestre de Jesus. Os evangelhos da infância são os textos mais recentes da tradição evangélica. É permitido perguntar-se porquê.

Certamente, o anúncio do kerigma constitui o essencial da mensagem evangélica. Além disso, no antigo Oriente, é dificilmente concebível que uma mulher possa dar testemunho num debate público. Só conta o testemunho dos homens. Mas outros motivos explicam este silêncio. Os evangelistas dirigem-se num primeiro momento a pessoas que conhecem ainda Jesus e Maria. Talvez Maria tenha vivido até perto do fim do século I. Uma forma de discrição sensata impunha-se da parte dos evangelistas. Na verdade, o discípulo amado ao qual Jesus confiou a sua mãe dá de Maria um retrato espiritual com conteúdo teológico muito profundo. Este testemunho só será posto por escrito no final do século I.

Por fim, o silêncio da primeira geração sobre Maria poderá explicar-se por uma outra razão. O kérigma afirmava que Jesus morto e ressuscitado, que chamava à conversão, era o Messias, o filho de David. Ora, no pensamento judeu, ele só podia ser filho de David por parte do pai. Os apócrifos tentaram uma solução afirmando que Maria era ela também da linhagem de David. O silêncio primitivo sobre a concepção virginal poderá explicar-se em parte deste modo».

Índice

1. Maria, uma mulher judia | 2. Observa o dia de sábado para o santificar | 3. Nascido de uma mulher | 4. O anúncio a Maria | 5. José, não temas tomar Maria em tua casa | 6. Como ele tinha prometido a nossos pais, a favor de Abraão e da sua descendência para sempre | 7. Ela pôs no mundo o seu filho primogénito, envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura | 8. O ancião pegava o menino nos braços | 9. Jesus, novo Samuel, no Templo, com a idade de doze anos | 10. Um povo de peregrinos | 11. A Páscoa em Jerusalém | 12. Os seus irmãos não estão entre nós? | 13. A mãe de Jesus em Caná | 14. Quatro mulheres sobre a cruz | 15. A mulher do Apocalipse | 16. Maria nos relatos apócrifos | 17. Reflexão teológica | 18. Vaticano II | 19. O Islão e Maria | 20. Maria no diálogo inter-religioso | 21. Saudação à Virgem Maria | Apêndice: O sacerdócio da mulher ou Maria, ícone da Igreja

Veja também:

Obras de Fréderic Manns | Maria de Nazaré | Edições UCE

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