«O que nos distinguirá das pessoas à nossa volta não serão as cruzes nos nossos ‘banners’, mas, pelo contrário, a prontidão em ‘assumirmos a condição de servos’».Um excerto de Tomás Halík,na revista Igreja e Missão.

Ainda antes de iniciar a leitura do livro «A Noite do Confessor», decidi ler um artigo de Tomás Halík publicado no último número da revista Igreja e Missão, com o sugestivo título ‘New Evangelization?’. O artigo aborda a relação com os não-crentes – na procura comum da verdade – , interpreta o ‘Silêncio de Deus’ como experiência fundamental para qualquer cristão («poderemos não ouvir o silêncio de Deus com as nossas repetições de verdades de fé aprendidas»); e alerta para a tentação de agir como ‘anjos do Juízo’ – «a devoção à verdade deve ir acompanhada da devoção à não-violência, ou a própria devoção à verdade constituirá uma fonte de violência».
Partilho a conclusão do artigo, arriscando uma tradução do inglês, para uma leitura mais acessível.
«É possível que na reflexão sobre a natureza da ‘nova evangelização’ – e da sua implementação – as ordens religiosas desempenhem de novo um papel importante. Entenderemos o termo ‘nova evangelização’ como uma reconquista, uma re-cristianização, uma ‘mobilização religiosa’ levada a cabo pela nostalgia de uma civilização extinta – a Cristandade? Espero que não.
Comentei uma vez ironicamente a famosa lenda que simboliza o início do ‘Cristianismo Imperial’ (Cristandade), a história do sonho do imperador Constantino. No seu sonho Costantino viu uma cruz e ouviu as palavras: ‘Conquistarás com isto’. Na manhã seguinte ele fixou cruzes nos estandartes das suas tropas e venceu a batalha. Pergunto-me como a história da Europa e a história da Igreja teriam sido diferentes se o emperador tivesse compreendido o seu sonho de um modo mais inteligente.
Hoje encontramo-nos diante da Cruz com um dilema. Será a Cruz para nós um estandarte de batalha, uma memória nostálgica do tempo em que era símbolo de triunfalismo e poder? Ou compreenderemos a mensagem kenótica da Cruz: o homem Jesus, ainda que de condição divina, esvaziou-se a si mesmo e tornou-se um entre muitos, tomando para si a forma de servo.
Se desejamos seguir a Cristo, deveremos abandonar qualquer sentimento de saudade em relação a um lugar privilegiado no mundo. Cada um de nós deve tornar-se ‘um entre muitos’, assumindo seriamente a solidariedade com as pessoas do nosso tempo, com quem a Igreja se comprometeu a si mesma nas bonitas palavras do início da constituição pastoral ‘Gaudium et Spes’.
Não deveremos temer perder-nos a nós próprios e à nossa identidade cristã no meio da multidão. O que nos distinguirá das pessoas à nossa volta (mas que ao mesmo tempo nos unirá com aqueles com quem não imaginamos formar uma aliança), não serão as cruzes nos nossos ‘banners’, mas, pelo contrário, a prontidão em ‘assumirmos a condição de servos’.
A orientação fundamental no sentido da kenosis, da entrega de si mesmo, numa civilização orientada sobretudo pelo sucesso material, constitui manifestamente uma atitude não-conformista. Aqueles que vivem deste modo podem tornar-se no escondido ‘sal da terra’ e, ao mesmo tempo, na visível ‘luz do mundo’. Aí sim, a ‘nova evangelização’ será verdadeiramente nova.»
Tomás Halík, ‘New Evangelization?’, in Igreja e Missão, n.º 225, Janeiro-Abril 2004
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