Frederico Lourenço | Ed. Cotovia 2015 | 152 páginas
A leitura da Bíblia possui uma riqueza adicional quando é feita por leitores que não vêm do âmbito da fé ou da teologia: é o caso de Frederico Lourenço, professor de literatura clássica na Universidade de Coimbra. Nesta obra, o autor parte do seu conhecimento do grego antigo (língua na qual foram escritos os livros do Novo Testamento) para fazer uma leitura pessoal de passagens bíblicas. A sua perspectiva é não-confessional: o autor assume-se como afastado de uma pertença religiosa ou eclesial. E reconhece o texto bíblico como o livro mais fascinante da história humana.
A sua leitura ajuda-nos a ‘despertar’ de uma visão ingénua da Bíblia, infelizmente muito comum entre os cristãos: a Bíblia como um livro “sagrado” num sentido mágico do termo. Tal perspectiva constitui um motivo, muitas vezes inconsciente, para não fazer uma leitura directa e regular dos textos bíblicos. O autor, com a sua visão literária, analisa os textos e põe a nu as suas incoerências: muitas passagens, nomeadamente do Antigo Testamento, apresentam-nos uma linguagem dura e violenta, pouco condizente com o Evangelho de Jesus.
É um passo importante para qualquer crente o deixar-se interrogar, colocar dúvidas e dificuldades sobre a sua fé e sobre a leitura dos textos bíblicos. Tal constitui um passo para superar uma fé infantil, meramente recebida. Os estudos bíblicos e históricos permitem-nos compreender o modo como a Bíblia nasce de um contexto cultural próprio, que não é o nosso. O leitor que se aproxima do texto bíblico (e esta obra de F. Lourenço constitui um convite nesse sentido) dá-se conta de como a Bíblia é um texto profundamente humano, marcado com todos os ingredientes presentes na nossa vida: a violência, o medo, o erro, a esperança, o grito, o choro, o amor. Não é um livro mágico, um modelo perfeito com uma moral perfeita: porque os modelos podem ser imaginados e adorados (como os ídolos); mas é com o ser humano, imperfeito e ferido, que Deus caminha e progressivamente revela o seu Rosto.
Artigo publicado na edição de Dezembro do Mensageiro de Santo António
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