
o Pai-Nosso aberto a crentes e a não-crentes»
José Tolentino Mendonça
ed. Paulinas, Lisboa 2012 (6ª edição), 165 págs.
Colecção ‘Poéticas do Viver Crente’
PVP: 12,00 euros
«Há uma canção de Jacques Prévert que diz: ‘Pai nosso que estais nos céus, conserva-te aí, que nós também nos deixaremos ficar cá por baixo’. Onde está Deus? Onde estamos nós? A ironia é, por vezes, a frágil forma que temos para ocultar esta espécie de lugar nenhum em que a vida se torna, entre fogo e cinza, desamparo e presença, entre o grito e a prece. Mas acontece também que o impasse devolve não só a medida da distância, mas, misteriosamente, nos revela o imprevisto da proximidade. A terra, esta terra quotidianamente amassada com convulsão e desejo, é o que nos separa ou o que nos avizinha de Deus?»
(…)
«A oração do Pai-nosso devia sobressaltar-nos. Habituámo-nos tanto a conviver com o Pai-nosso, que corremos o risco de lhe atenuar o sentido. Como lembrava Oscar Wilde, a repetição pode ser uma coisa muito anti-espiritual. Mas os primeiros que ouviram Jesus dizer ‘Abbá’ sentiram o oposto disso, pois reconheceram-se diante de um facto singular: havia Alguém que chamava ‘Pai’ a Deus. Outros ouvintes terão certamente julgado isso escandaloso, um modo inaceitável de rezar. Porquê? Por que é mais fácil ver Deus a partir de fora. Deus grande, transcendente, poderoso, libertador, mas sempre observado a partir da exterioridade.
A viragem que Jesus de Nazaré introduz é considerar Deus a partir de dentro. Jesus apresenta-se como o Filho de Deus. E a relação que mantém com Deus é uma relação filial. Isto é, Jesus vem dizer que Deus o impregna profundamente a ponto de Ele ser Filho e se descobrir como tal (…)
Não é apenas um conhecimento especial que Jesus fornece de Deus. Ele não é um profeta, um legislador, um intermediário. É outra coisa: Deus é a sua imago, a fonte extraordinária e íntima que plasma e ilumina a criatividade messiânica das suas palavras e dos seus gestos… De certa maneira, o programa de Jesus é esta filiação, este entrosamento filial. Tal como muitas vezes fizemos coisas e não sabemos bem porquê – é por causa da imagem do pai que trazemos dentro de nós e com a qual estamos a dialogar.
Ora, Jesus faz isto com o próprio Deus. Tudo nele era marcado por esta consciência da sua filiação. Ele podia realmente chamar a Deus ‘Abbá’, recuperando o tratamento que uma criança dá ao seu pai, tratando-o por ‘papá’, por ‘paizinho’. Não por uma dependência infantil, mas por um exercício amadurecido e provado de relação filial.
Quando Jesus diz ‘Pai nosso’, ‘Abbá nosso’, Jesus quer dizer que Deus é o Deus de todas as horas, Aquele em quem se pode confiar, como uma criança confia no pai sem qualquer tipo de reservas, sem qualquer escondimento, de uma maneira absoluta e total. Deus é Aquele a quem podemos pedir ‘Preciso da tua mão’, ‘Dá-me a tua mão’ e saber que Ele a estende, que Ele cuida, acompanha, protege, fez-se tudo para nós.»
Apresentação (de Enzo Bianchi) | Prólogo | 1. O grito | 2. Deus está em Paris? | 3. A evaporação do pai | 4. Um Pai que se torna nosso | 5. Onde estás? | 6. Dar um nome sem que o indizível se perca | 7. Aprender a viver do desejo de Deus | 8. Trazemos por viver ainda uma infância | 9. É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam | 10. Deus tem fé em nós | 11. Uma decisão unilateral de amor | 12. A quarta tentação | 13. A ferida é fecunda | Ousamos dizer… versões do Pai-Nosso
Obras de Tolentino Mendonça | Colecção ‘Poéticas do Viver Crente’ | Espiritualidade | edições Paulinas
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