Fundamentos

Presépio

A Fundamentos re-aberta,e como é bom regressar ao trabalho! Um poema de José A. Mourão, com os desejos de uma boa semana de Natal: porque o que é importante, é celebrado com tempo e calma…

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«Que um arcanjo ilumine o nosso caminho | ao menos uma vez! Que o arcanjo que velava à cabeceira da Criança | nos ensine a força da fraqueza, | a doçura irresístivel dos não violentos, | a lei do perdão

Que a Criança nos ensine | que o amor de adoração é sempre partilhado, | comunicativo

Que o arcanjo ilumine o que nos faz | sempre partir: um rosto, a sede de justiça, o choro | ou a fome, a cegueira dos olhos | ou do coração, | Deus que nos moves para a adoração | e o louvor neste fim de tarde | e que alumias o mundo»

«Que vemos, vendo o outro? Um presépio? Marcas, brilhos, memória em processo, arquivo. O visível é o horizonte do visual. O invisto (J. L. Marion) não é visto, como o inaudito não é ouvido e o intacto não é tocado, mas o invisto, ou inaudito, ou o intacto podem ser vistos, ouvidos ou tocados. O invisível pode ser transgredido ao tornar-se visível. O invisto surge no visível através do acto criador do artista. «O que não se seria capaz de ver» se o anjo não nos disse. O mistério, o vazio e o invisível, ao esconderem-se, revelam-se. O invisível presentifica-se, mas como uma Presença alimentada de ausência.

Como nomear o que não seria capaz de ser visto? Não é o visível que procuramos, mas a fragilidade da evidência dramática, da obra, do milagre. É também por aí que passa o escândalo da Encarnação. O mistério da Encarnação é o lugar por excelência onde a arte cristã responde à questão do «tempo invisível».

“A Encarnação é o momento em que a eternidade acontece nos tempos, a imensidão na medida, o Criador na criatura, Deus no homem, a vida na morte, (…) o incorruptível no corruptível, o infigurável na figura, o inenarrável no discurso, o inexplicável na palavra, o incircunscritível na visão, o inaudível no som, (…) o impalpável no tangível, o Senhor na escravatura (…), a fonte na sede, o continente no conteúdo. O artesão entra na sua obra, o comprimento na brevidade, a largura na estreiteza, a altura na baixeza, a nobreza na ignomínia, a glória na confusão, etc.” (Bernardino de Sena).

Não podemos representar o invisível, o Mistério, senão por difracção, desvio. As Anunciações do Quatrocentos – Fra Angelico, Lorenzetti, Bellini, Caravaggio – mostram-nos que se o invisível não é representável, é ainda assim figurável. Que pedem estes pintores? Que vivamos a Presença da profundidade dos tempos, do antes da representação, para nos deixarmos tocar pela figura, mais do que olharmos para a imagem.»

José Augusto Mourão, «O Nome e a Forma: Poesia Reunida», Lisboa 2009 e «Quem Vigia o Vento não Semeia», Lisboa 2011 (na imagem: Anunciação, de Simone Martini, séc. XIV)

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@wpshower

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