Fundamentos

Sobre Deus…

E já estão previstas, para o mês de Abril, quatro edições em Portugal de obras de J. Bergoglio. Os títulos, juntamente com mais um excerto… sobre Deus:

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As obras referidas são publicações do tempo de Bergoglio como bispo de Buenos Aires (curiosamente, obras que nem em Espanha se encontravam disponíveis aquando da eleição: apenas na Argentina). «Conversas com J. Bergoglio», de S. Rubin e F. Ambrogetti, é um conjunto de entrevistas concedidas aos dois jornalistas italianos;  «Só o Amor nos Salvará» reúne uma série de discursos e homilias, enquanto «O Verdadeiro Poder é Servir» reproduz um conjunto de exercícios espirituais orientados a leigos de Buenos Aires. Finalmente, «Sobre o Céu e a Terra» é uma obra a quatro mãos de J. Bergoglio com o rabi de Buenos Aires Abraham Skorka. A sua publicação está prevista até ao final de Abril (e só é pena a falta de originalidade das editoras, tendo todas escolhido para capa fotos de Bergoglio na noite da sua eleição em S. Pedro – será difícil distinguir os livros). Enquanto aguardamos, aqui fica mais um excerto (por enquanto da versão castelhana, disponível na Fundamentos) de «Sobre o Céu e a Terra», sobre o tema de… Deus.

«J. Bergoglio: Quão boa é a palavra caminho! Na experiência pessoal de Deus não posso prescindir do caminho. Diria que a Deus se encontra caminhando, andando, procurando-o e deixando-se procurar por Ele. São dois caminhos que se encontram. Por um lado, o nosso de quem procura, impulsionado por um instinto que brota do coração. E depois, quando nos  encontramos, damo-nos conta de que Ele nos procurava desde antes, antecedeu-nos. A experiência religiosa inicial é a do caminho: Caminha para a terra que te vou dar (Gen 12,1). É uma promessa que Deus faz a Abraão. E nessa promessa, nesse caminho, estabelece-se uma aliança que se vai consolidando nos séculos. Por isso digo que a minha experiência com Deus dá-se no caminho, na procura, no deixar-me buscar. Poderá ser por diversos caminhos, o da dor, o da alegria, o da luz, o da obscuridade.

A. Skorka: O que diz recorda-me diversos versículos bíblicos. Por exemplo, quando Deus diz a Abraão: Caminha diante de mim e sê integro (Gen 17,1). Ou quando o profeta Miqueas quer explicar ao povo de Israel o que Deus espera dele, e por isso diz-lhe: Praticar a justiça, amar a piedade e caminhar com humildade junto do teu Deus (Miq 6,8). Sem dúvida, a experiência de Deus é dinâmica, para utilizar uma palavra que ambos aprendemos nas nossas comuns ciências exactas (A. Skorka é doutorado em química e J. Bergoglio é técnico quimico). Mas, o que crê que poderíamos dizer ao homem nestes tempos quando o conceito de Deus se vê tão degradado, tão mal usado?

J. Bergoglio: O fundamental é dizer a todo o homem para entrar dentro de si. A dispersão é um quebra no interior, nunca o deixará encontrar-se consigo próprio, impede esse momento de olhar para o espelho do seu coração. Aí está a semente: encontrar-se consigo próprio. Aí começa o diálogo. Por vezes acreditamos ter o necessário, mas não é assim. Ao homem de hoje diria-lhe que faça a experiência de entrar na intimidade para conhecer a experiência, o rosto de Deus. Por isso gosto muito do que diz Job depois da sua dura experiência e dos diálogos que não o ajudaram em nada: Antes conhecia-te de ouvir falar, agora os meus olhos viram-te (Job 42,5). Ao homem digo-lhe que não conheça a Deus de ouvir falar. O Deus vivo é aquele que verá com os próprios olhos, dentro do seu coração.»

 

A. Skorka, J. Bergoglio, «Sobre el Cielo y la Tierra». Madrid 2013 (orig. 2010), pág. 19 (na imagem: Bergoglio e Skorka)

 

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