Carlo M. Martini, «Tomados de Assombro»: as últimas e inéditas homilias proferidas pelo cardeal italiano Carlo Maria Martini (1927-2012), antigo arcebispo de Milão.

Tomados de Assombro
Carlo M. Martini, Paulinas 2013, 174 págs. PVP: 12,00 euros
Texto do Secretariado de Pastoral da Cultura:
Na introdução à edição portuguesa, o frei Bento Domingues destaca as principais características das intervenções proferidas na igreja da comunidade Aloisianum, dos Jesuítas, em Gallarate, Varese, Lombardia. «São breves, sem serem aforísticas; o biblista, sem pose académica, situa o tempo e o género literário do trecho evangélico e, também, com muita clareza, faz a ponte com o tempo que estamos, hoje, a viver.» (…)
Oferecemos uma das homilias, baseada no evangelho segundo São Lucas (8, 22-25): «Certo dia, Jesus subiu com os seus discípulos para um barco e disse-lhes: “Passemos à outra margem do lago.” E fizeram-se ao largo. Enquanto navegavam, adormeceu. Um turbilhão de vento caiu sobre o lago, e eles ficaram inundados e em perigo. Aproximaram-se dele e, despertando-o, disseram: “Mestre, Mestre, estamos perdidos!” E Ele, levantando-se, ameaçou o vento e as águas, que se acalmaram; e veio a bonança. Disse-lhes depois: “Onde está a vossa fé?” Cheios de medo e admirados, diziam entre eles: “Quem é este homem, que até manda nos ventos e nas águas, e eles obedecem-lhe?”
«Tempestades coletivas e tempestades ideológicas
Duas perguntas emergem do Evangelho de hoje, no qual se fala de Jesus a dormir no barco, durante a tempestade, do grito desesperado dos Apóstolos – «Mestre, Mestres, estamos perdidos» – e, por fim, da intervenção de Jesus para acalmar os ventos e as ondas.
A primeira pergunta é aquela que se entende principalmente pelo evangelista, e diz respeito a Jesus. Quem é Este, que até agora parecia sujeito à ordem da natureza, como qualquer outro homem, e de repente dá uma ordem e os ventos e as ondas obedecem-lhe? Esta pergunta sobre quem é verdadeiramente Jesus atravessa todo o Evangelho de Lucas, chegando até ao reconhecimento do Filho de Deus presente no crucificado.
Há, porém, outra pergunta neste relato, uma pergunta que nos toca de perto e que nos envolve: onde está a nossa fé? Somos verdadeiramente crentes, temos confiança em Jesus, mesmo quando Ele parece adormecido, enquanto um turbilhão de vento se abate sobre a nossa vida e nós nos sentimos em perigo? Como reagimos nesses casos?
Além disso, em primeiro lugar, quais são as tempestades da nossa vida? Pensamos imediatamente nas dificuldades existenciais pessoais: maus humores, insucessos, fracassos, doenças, negócios falhados. São tantas as situações de cada um de nós, que fazem brotar esta pergunta e que, ao mesmo tempo, nos incentivam a ter fé em Jesus, a estar sossegados, porque se Jesus está no barco connosco, nenhum mal nos poderá atingir.
Além dessas dificuldades pessoais, também há, na nossa história, algumas tempestades que poderíamos definir como «coletivas» e outras que poderíamos chamar de «ideológicas». As primeiras são aquelas realidades em que transgredir e violar a lei se toma demasiado fácil, sendo por vezes quase imposto pelas circunstâncias. São as chamadas «estruturas de pecado», situações em que é muito difícil não pecar, porque o ambiente, a maneira comum de pensar das pessoas, os costumes comuns nos levam a deixar andar. São tempestades terríveis da vida, nas quais não entramos apenas como indivíduos, mas como grupo, como povo. E, nesses momentos de obscuridade da própria época, é muito importante sabermos manter a fé em Jesus, proclamar em voz alta as grandes verdades da salvação, certos de que Jesus, mesmo que não se deixe ver, ainda está no barco e pode despertar a qualquer momento, e dizer ao vento e às ondas ameaçadoras: «Basta, deixai de atormentar o meu povo!»
Mas há ainda uma terceira situação de tempestade, menos visível e palpável e, por isso, ainda mais perigosa: aquela a que chamámos «tempestade ideológica». Trata-se daquelas circunstâncias em que já nem sequer se tem consciência de fazer mal, porque foi perpetrada a ofuscação dos valores orientadores. Um filósofo moderno, Karl Jaspers, descreveu num seu livro, de há mais de trinta anos, a situação espiritual do nosso tempo, como a de um enorme automóvel que ninguém conduz. A sociedade subdivide-se em muitos segmentos independentes, em áreas estranhas umas às outras, e não há um valor reconhecido, nem acima do conjunto nem no interior do mesmo, mas apenas regras que não encerram qualquer conteúdo ético, sendo simples «instruções para uso». Há uma ofuscação da orientação do caminho do homem, ninguém sabe ao certo para onde estamos a caminhar, porque os valores éticos fundamentais e as grandes verdades de referência foram colocados entre parêntesis. Estamos, então, como pessoas em debandada, que não sabem fazer a mínima escolha, a não ser a de se divertirem e de passarem o tempo seja lá como for.
Na medida em que aceitemos fazer parte da massa, ser conformistas e dirigidos do exterior – ou seja, deixarmo-nos dirigir por um persuasor oculto (como a televisão, por exemplo) -, nessa medida aumenta o número de pessoas conformistas e em debandada. Se nessa situação também se nega o valor religioso, verifica-se como que uma alienação do divino e a negação da ideia de pecado: Deus, portanto, aparece fora do interesse do homem, e o homem deixa de ser reconhecido na sua perpétua dignidade.
Então, a aceitação deste mundo já não é a aceitação da vontade de Deus, mas e busca de um equilíbrio em conformidade com os próprios interesses particulares ou de grupo. Se pusermos entre parêntesis as grandes verdades sobre Deus e sobre o homem, se desistirmos de aceitar o mundo como aquele que Deus escolheu («seja feita a tua vontade, assim na Terra como no Céu»), então tudo se confunde e tudo parece lícito, desde que seja útil para mim.
Esta parábola, portanto, convida-nos a interrogarmo-nos profundamente, não só sobre as nossas próprias inquietações pessoais ou sobre aquelas que provêm de hábitos sociais, mas, mais a fundo, sobre aqueles erros de visão que determinam as escolhas de vida. Devemos envidar todos os esforços para corrigir, primeiro que tudo, em nós, o modo de ver e de sentir, para trazer à luz a verdade das coisas e negar toda a visão puramente terrena do mundo.
O Senhor Jesus, no barco, não interveio de repente, mas deixou que os Apóstolos fizessem a sua parte contra o vento e a tempestade. Assim, Jesus espera de nós que nos debatamos com coragem e confiança. E, agora, interroguemo-nos se temos verdadeiramente confiança – ou seja, se acreditamos que o Senhor está presente, mesmo que não esteja fisicamente visível, e que nos pode transmitir orientação e valores – e tentemos, com todas as nossas forças, tomar as coisas a sério e pelo seu justo valor.
O Senhor não nos faltará nesta nossa empresa e compensar-nos-á com a paz do coração e da mente. Então, já não estaremos à mercê das circunstâncias mutáveis do tempo nem das trevas da nossa época, sendo antes capazes de encontrar o caminho para seguir o Senhor na senda evangélica.»
Fonte: Secretariado de Pastoral da Cultura http://www.snpcultura.org/tomados_de_assombro_as_ultimas_homilias_ineditas_cardeal_carlo_maria_martini.html
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