Num livro recentemente publicado pelas Paulinas editora, com o título «Onde diabo está Deus?» o jesuíta australiano Richard Leonard fala-nos sobre o sofrimento e a vontade de Deus. Além da sua própria reflexão, o livro é fruto do confronto do autor com o acontecimento de um acidente sofrido pela sua irmã, que a deixou quadriplégica. O que encontramos neste texto é uma verdadeira profissão de fé, que procura libertar-se de todas as imagens de trevas que temos de Deus. «Jesus nunca nos tirou nada», é o pensamento de fundo do autor, expresso em sete passos fundamentais, desenvolvidos e explicados ao longo do livro:
1. Deus não envia, diretamente, dor, sofrimento e doença. Deus não nos castiga.
2. Deus não envia acidentes para nos ensinar coisas, embora nós possamos aprender com eles.
3. Deus não quer terramotos, inundações, secas ou outros desastres naturais. A oração pede a Deus que nos mude para mudarmos o mundo.
4. A vontade de Deus manifesta-se mais na totalidade de uma situação do que nos seus detalhes.
5. Deus não precisava do sangue de Jesus. Jesus não veio apenas ‘para morrer’, mas Deus usou a sua morte para anunciar o fim da morte.
6. Deus criou o mundo que é menos que perfeito, e no qual o sofrimento, a doença e a dor são realidades; se assim não fosse, estaríamos no Céu. Alguns desses problemas somos nós que os provocamos a nós mesmos, e culpamos a Deus.
7. Deus não quer acabar connosco.
A certa altura, o autor apresenta-nos um quadro comparativo, segundo os sinais do «espírito bom» e do «espírito mau» (uma linguagem própria da tradição de Inácio de Loiola, que aponta para o discernimento pessoal). Partilho este quadro, pelo interesse que verdadeiramente tem: um livro que merece a sua leitura.
…
Sinal do espírito mau: Perda do sentido do nosso próprio valor. Estamos centrados em nós mesmos e pensamos em nós, e até falamos de nós, de formas que nunca sonharíamos falar acerca de qualquer outra pessoa.
Sinal do espírito bom: Há um sentimento real do nosso próprio valor – uma confiança renovada.
Sinal do espírito mau: A esperança fica desfeita e dissipa-se; a luz apaga-se. Sentimos que ficámos presos ou encurralados, que não temos para onde ir ou que andamos às voltas, em círculos, que estamos a descer por um grande buraco.
Sinal do espírito bom: A esperança reaviva-se; acreditamos que Jesus está connosco, aconteça o que acontecer. Temos um sentimento genuíno de movimento: As coisas não têm de ser assim. Eu quero fazer alguma coisa para mudar a situação, e posso fazê-la.
Sinal do espírito mau: Temos uma sensação de peso que invade tudo; sentimo-nos sobrecarregados. Degeneramos no cinismo (não conseguimos ver o bem em ninguém) ou na autocomiseração.
Sinal do espírito bom: Alguma coisa se eleva do nosso interior; sentimo-nos mais leves, libertos. Crescemos na compaixão e sensibilidade em relação às necessidades dos outros.
Sinal do espírito mau: Questionamento que nos cria ansiedade, acabando em confusão. Damos connosco a matutar continuamente sobre incidentes ou a centrar toda a nossa atenção na resolução de algum problema – acabando por ficar mais fragmentados e desprovidos de energia do que quando começámos.
Sinal do espírito bom: Questionamento acompanhado por clareza e convicção. Somos levados a colocar as nossas preocupações na nossa relação com Jesus, e a focarmo-nos mais nessa relação do que nos problemas em si. Dizemos-lhe (por vezes repetidamente!) como determinado problema nos afeta.
Sinal do espírito mau: Somos facilmente levados a cair em interações negativas com outras pessoas, que degeneram em recriminações mútuas e numa atitude de tipo eu tenho razão, tu não a tens. «Algumas pessoas carregam, no seu coração, os cadáveres de relações passadas, estando dependentes da mágoa como confirmação da sua identidade.»
Sinal do espírito bom: «É necessário supor que cada bom cristão está mais disposto a dar uma boa interpretação a determinada afirmação de outra pessoa do que a condená-la como sendo falsa.» (Nenhum de nós tem o monopólio da verdade). Somos levados a libertar-nos das nossas mágoas e somos capazes de rezar: «Jesus, dá-me a atitude que Tu queres que eu tenha para com aquela pessoa».
Sinal do espírito mau: Quando pensamos nos nossos pecados e nas nossas falhas, sentimo-nos mal connosco mesmos e deixamo-nos ficar por aí.
Sinal do espírito bom: A consciência de pecado está sempre marcada pela esperança e conduz-nos de volta à relação com Jesus e com os outros.
Richard Leonard, Onde diabo está Deus, ed. Paulinas, Lisboa 2015, 109 págs.
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