A Editora Temas e Debates publicou, em Novembro de 2009 e Outubro de 2010, duas obras muito semelhantes que constituem dois belos contributos para a literatura em português relacionada com a experiência religiosa e, particularmente, a experiência cristã. Em «Cartas a Deus», Philippe Capelle reúne textos e poemas de oração de autores cristãos desde o século I d. C. até à actualidade. Já em «O que Dizemos aos Deuses» são recolhidas, por diversos autores, textos de oração das várias tradições religiosas, desde o próprio cristianismo até ao islamismo e ao budismo, passando pelo judaísmo e o hinduísmo. Duas propostas interessantes para entrar um pouco neste mundo que constitui, sem dúvida, um dos patrimónios mais universais, tanto no espaço como no tempo, da Humanidade. Partilhamos um texto de Al-Hallâj, mulçumano do séc. IX d.C.:
«Aqui estou, aqui estou! Ó meu segredo e minha confiança! Aqui estou, aqui estou! Ó meu fim e meu sentido! Chamo-te… não, és Tu que me chamas a mim! Como Te teria invocado ‘és Tu’ (Alcorão, I, 4), se Tu não me tivesses sussurrado ‘sou Eu’?
Ó essência da essência da minha vida, ó termo do meu desígnio, ó Tu minha elocução, e minhas enunciações, e meus balbucios! Ó todo do meu todo, ó meu ouvido e minha vista, ó minha totalidade, minha composição e minhas partes! Ó todo do meu todo, mas o todo de um todo é um enigma, e é o todo do meu todo que torno obscuro ao querer expressá-lo!
Ó tu em quem se suspendera o meu espirito, já morrendo de êxtase, eis-Te transformado em seu penhor na minha aflição! Choro o meu desgosto, separado da minha pátria por obediência, e os meus inimigos participam nas minhas lamentações. Se me aproximo, eis que o meu medo me afasta, e tremo com um desejo que prende ao fundo as minhas entranhas.
Que farei, com este Amante por quem estou apaixonado, meu Senhor! A minha doença cansou os meus médicos. Dizem-me ‘Cura-te por meio d’Ele? Mas eu digo: ‘As pessoas curam-se de um mal por meio desse mal?’ O meu amor pelo meu Senhor minou-me e consumiu-me, como me queixaria ao meu Senhor do meu Senhor?
É verdade, entrevejo-o, e o meu coração conhece-O, mas nada saberia expressá-lo a não ser as minhas piscadelas de olhos. Ah! Infeliz o meu espírito por causa do meu espírito, ai de mim por causa de mim, sou a própria origem do meu infortúnio! Como um náufrago, que apenas tem os dedos fora de água, pode pedir socorro no alto mar?
Ninguém sabe o que me aconteceu, a não ser aquele que mergulhou no meu coração. Esse sabe bem que mal me atingiu, e do Seu querer depende que eu morra e reviva. Ó supremo pedido, e esperança, ó meu Anfitrião, ó vida do meu espírito, ó minha vida e minha parte de aqui em baixo! Diz-me: ‘Resgatei-te’, ó meu ouvido, ó minha vista! Até onde tanta demora, no meu afastamento, tão longe? Embora te escondas dos meus olhos no invisível, o meu coração observa o Teu levantar, à distância, de longe» («O que dizemos aos Deuses», págs. 270-271).
VV.AA., «O que Dizemos aos Deuses», Lisboa 2010, 446 págs. PVP: 19,90 euros | P. Capelle, «Cartas a Deus», Lisboa 2009, 384 págs. PVP: 19,90 euros
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