
«Livra-nos, Senhor, do terrorismo da fome, | da mecânica do instinto | que percorre o seu ciclo mortal |entre a voracidade, a intolerância e o massacre
livra-nos, Senhor, das inclinações extremistas | entre a devoção e o fanatismo, | livra-nos de um mundo onde se falasse uma só língua, |a voz do estômago ou da força bruta
livra-nos, Senhor, do cativeiro da acédia, |do ócio imóvel, da cupidez estúpida
e dá à nossa vida a frugalidade dos bens |que partilhemos na alegria e nos religuem, |a misericórdia que à justiça se adianta
que respiremos a festa da tua páscoa e do teu riso, | Deus que esperamos dando-nos as mãos | na escuta dos sons de paz que te anunciam | como a aurora, o sol, o dia»
…
«livra-nos, Senhor, | da chaga da boa consciência | que é o aplauso interior da justiça à nossa medida
livra-nos da pose farisaica | dos que se acobertam ao fetiche da lei | e trancam as portas a uma palavra de vida
livra-nos do prestígio dos números | do conhecimento imaculado | da quantofrenia
e ensina à nossa vida o lacunar, o intenso | e o incerto das passagens
que o lado sensível da tua cruz | nos acorde para as manhãs imprevisíveis | do teu advento e da tua páscoa»
…
«que ousemos o entusiasmo | da luz de cada dia, | a agilidade dos vindimadores | socalco acima
mantém-nos, Deus, ao rés da terra, | e altos, de inquietos, vigilantes voos
não se esgotem as cisternas | da paciência para a vida, | nem os agapantos azuis | nos encharquem de clandestina morte
dá-nos o paladar das coisas peregrinas, | o lugar do vento que não sabe donde, | o sítio dos comboios nos apeadeiros breves
que no rodopio das horas | a tua mão nos mostre o pino do sol | e o cheiro a mosto e a pão de milho | anuncie a ceia, a mesa da justiça, do bem e da beleza»
José Augusto Mourão, « O Nome e a Forma», Lisboa 2009
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