Fundamentos

A.Marto, G.Ravasi, I.Rupnik, «O Evangelho da Beleza: Entre Bíblia e Teologia»

É possível falar de Experiência Cristã e de Beleza ao mesmo tempo? E de Teologia e Beleza? E de Bíblia e Beleza? É a estas perguntas que os autores, o bispo António Marto, o cardeal Gianfranco Ravasi e o padre Ivan Rupnik procuram responder, com artigos reunidos agora em livro pela editorial Paulinas. «A Aspiração à plenitude da felicidade é inerente ao ser humano no seu desejo de harmonia e bem-aventurança. Prova-o a história das culturas e das religiões, na diversidade de interpretações que revestiram aqueles conceitos, nos modos como influenciaram a vida dos povos e das sociedades, e plasmaram as linguagens das artes e do culto religioso», refere Amília Nadal no prefácio à obra.

Porque a experiência cristã e a linguagem teológica continuam, muitas vezes, a ter pouca beleza, a testemunhar o Mistério de Deus com pouca beleza e encanto. A teologia, como ciência, pode limitar-se a uma linguagem que despreze a experiência do ser humano, das suas expressões, das suas artes. E assim, deixam de testemunhar que a Beleza é muito mais, pode ser muito mais, do que beleza física, cosmética, passageira  – embora não a negue.

Como refere António Marto, «Não se trata pois da beleza como uma propriedade formal e exterior, mas do modo de ser próprio de Deus a que aludem os termos bíblicos ‘glória, esplendor, fascínio’, isto é, manifestação da sua santidade, da sua misericórdia, do amor entranhado, da graça vivificante, do poder ressuscitador. É isso que provoca fascínio e atrai, suscita surpresa agradável e gratificante, dedicação fervorosa, enamoramento, entusiasmo, assombro. É tudo o que o amor descobre na pessoa amada. A Beleza é, pois, o Amor crucificado, entregue até à morte, revelação do coração divino que ama, com o seu amor de misericórdia e a sua ternura fiel» (pág. 19).

G. Ravasi faz um percurso sobre como a Beleza é referida e tratada na história bíblica. E nesta, é o próprio Deus quem começa por reconhecer a Beleza, neste caso a Beleza da Criação. O Cãntico dos Cânticos é todo um poema/diálogo dedicado à Beleza do Amor conjugal. Mas é a própria Beleza de Deus que ultrapassa as nossas categorias, porque esta Beleza revela-se em Jesus de Nazaré, o Homem Novo, mas também o Crucificado; por isso, o Belo não é o belo si fechado, mas o Belo que se dá por Amor, mesmo que fique desfigurado.

Diz G. Ravasi: «Tanto o Antigo como o Novo Testamento, embora tendo sentido da beleza da Criação, que celebram, elaboram sobretudo um conceito de beleza associado à história – como vida de Aliança – recuperam a beleza como luz, mas na novidade radical constituída pela manifestação e pela realização da beleza na assunção do lado trágico da vida. O kalon, belo e bom, realiza-se, de facto como destruição do pecado, oposto à boa obra, e tal destruição tem lugar mediante um sacrifício amoroso onde, embora o mal desfigure, deforme, defeite, também se realiza um kairos (…) Pelo Novo Testamento, torna-se evidente que o amor e a beleza são inseparáveis. Eles encontram-se não num objecto a contemplar, mas num acontecimento a viver, seguindo uma vocação, respondendo a uma chamada, vivendo uma história de relações. A glória de Deus não é a grandiosidade de um esplendor divino autoconcluído, mas beleza do amor que torna o pecado amável, reconciliando.» (pág. 55).

Por fim, o padre jesuíta e teólogo Ivan Rupnik, de origem eslovena e residente em Roma, faz outro percurso, mas na história do cristianismo. Conhecido pelos seus mosaicos (nomeadamente o da Igreja da Ssma. Trindade em Fátima), o autor refere como a tradição cristã, embora com excepções, tendeu a elaborar sempre rostos e figuras de Cristo não marcados por uma beleza física significativa – inspirando-se em Isaías 53, o canto do Servo. Porque a experiência humana é marcada pela imperfeição, também. Declara o autor: «A Beleza, mais do que qualquer outro termo, exprime a globalidade e a integridade da visão de Deus, da criação e da redenção, precisamente, porque só se pode falar dela na medida em que se fala de unidade do ideal e do palpável, dos sentidos espirituais e corpóreos, do pensamento e do sentimento, do existente e do devir, da história, da liberdade, do trágico e do cumprimento. A beleza é uma realidade orgânica, dinâmica, viva, por ser precisamente relacional, livre, de amor. A beleza é uma unidade realizada de modo pessoal, até à revelação do esplendor do Rosto» (pág. 119).

Na experiência da Igreja, torna-se fundamental tornar o anúncio do Evangelho mais Belo, no sentido de tocar a pessoa na sua globalidade, e não apenas nas suas ideias ou nos seus comportamentos: porque o Evangelho é mais do que preceitos morais e fórmulas de fé. Conclui I. Rupnik: «É forte a referência à liturgia e à pastoral. A liturgia é, de facto, o eixo da relação beleza/teologia, sendo o lugar de celebração da unidade da vida que conduz à unidade de pensamento, mediante a liberdade da reflexão, conferindo os critérios e o gosto desta unidade (…) (também) a pastoral, que é a comunicação da fé, o cuidado das pessoas, o anúncio da salvação, que só será credível e verdadeiro, precisamente se for belo» (pág. 122).

A. Marto, G. Ravasi e I. Rupnik, «O Evangelho da Beleza: Entre Bíblia e Teologia», ed. Paulinas, Prior Velho 2012, 126 págs.

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