27 de Janeiro 2014
A morte é dom, é dádiva, é dívida ____
Penso com Derrida, o de Donner la mort (a que desde já altero o título para Se donner la mort) ____
É notória a dificuldade de compreender e aceitar a morte livre na civilização técnica, porque esta ‘desconhece o eu singular’. O seu individualismo é o de um papel a desempenhar, o da função, mas não da pessoa. E só a pessoa, no mistério insondável da sua singularidade, é passível de morte livre. Dar-se a morte (a morte como um dom) é um gesto de extrema responsabilidade. Somos responsáveis. E é a ‘alma’, o recesso mais íntimo do foro interior, que tem de saber assumir essa responsabilidade, no momento de preparar a morte que a libertará do corpo. ‘A alma acede, pela passagem que é a morte, à sua própria liberdade’.
A minha morte – aquela que, ‘sendo’, só pode ser a minha, je der meine, na fórmula heideggeriana – é insubstituível. Concluo daqui: como tal, e porque ninguém dela se pode apropriar, eu sou, com ela própria, o único detentor do seu destino. A minha morte é a minha liberdade.
A morte não se toma (de alguém) nem se dá (a alguém): só podemos dar-nos a morte, tomando-a como nossa. Dar-se-a a morte, assumir a resposta e a responsabilidade desse dom, dessa dádiva, dessa dívida para connosco próprios, é assumirmo-nos na nossa totalidade de ser.
(…)
“Escrever um diário com a Morte – melhor: com a ideia livre da morte livre – no horizonte, não é sinal de desistência da vida, mas de busca de um saber-outro da morte, de confronto antecipado com o não-ser que é parte integrante do ser, e corolário necessário da vida.”
in João Barrento, Como um hiato na respiração: diário do dia seguinte, ed. Averno, Lisboa 2015, p. 39
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