É possível encontrar no Alcorão e na literatura islâmica antiga numerosos ‘ditos’ de Jesus: essa presença revela a mútua influência e encontro que se deu entre as duas religiões durante os séculos VII e VIII.
Entre 1916 e 1926 o historiador e especialista em cultura árabe Asín Palacios publicou, em Espanha, um conjunto de 233 ditos de Jesus presentes no Alcorão e na literatura árabe medieval. A colectânea foi publicada em árabe e latim, e foi posteriormente traduzida para castelhano e outras línguas europeias.
O que é um “dito”? Um “dito” (do grego a-grapha, não-escrito) é uma citação, transmitida oralmente, de alguém. Nos Evangelhos encontramos numerosos “ditos” de Jesus (“em verdade, em verdade vos digo”…), que se assemelham a citações, máximas, etc. Tais “ditos” constituem um meio fundamental de transmissão, em culturas onde a escrita era reservada apenas a alguns – pelo seu custo económico e pela necessidade de formação. Foi um género muito comum nos primeiros séculos da cultura europeia e do médio-oriente. Tais “ditos” seriam transmitidos e re-interpretados pelas diversas gerações. (Temos editado, em Portugal, um bom exemplar deste género literário: os «Ditos e Feitos dos Padres do Deserto»).
Jesus, filho de Maria, é reconhecido no Alcorão como um dos maiores profetas da história, predecessor de Maomé. Maria é a única figura feminina que surge no Alcorão sem ser ligada a uma correspondente figura masculina (um marido, por exemplo). Nos primeiros séculos da história islâmica (séculos VII a XII da nossa área), numerosos escritores árabes re-elaboraram ditos de Jesus a partir dos Evangelhos e das Escrituras judaicas, inserindo-o na espiritualidade islâmica e projectando na sua figura o primeiro exemplo que encontraram dos cristãos: os monges cristãos que viviam nos desertos do Médio Oriente (Arábia, Iraque, Egipto, Síria), sozinhos ou em comunidades. Este encontro de Maomé e seus seguidores com os monges cristãos viria a influenciar um pouco a própria espiritualidade islâmica. Depois viriam os cruzados, da Europa, com as suas armas.
Partilho alguns destes «ditos» de Jesus, tal como foram reunidos por Asín Palacios. Sigo a edição castelhana dos mesmos, publicada em 2009. Para quem desejar conhecer melhor, aqui fica a referência: «Hechos y Dichos de Jesús en la literatura ascética musulmana». Do que eu conheço, não existe nenhuma edição correspondente em Portugal (algo de parecido serão as traduções de poesia árabe organizadas por Adalberto Alves). Na imagem: a «Oração do Senhor» (o Pai-Nosso), em árabe.
(…)
«Disseram a Jesus (a paz esteja com ele): ‘Indica-nos o que devemos fazer para entrar no paraíso’. Jesus respondeu: ‘Permanecei sempre no silêncio’. Disseram-lhe: ‘Não podemos fazer isso’. Respondeu Jesus: ‘Então nada digais a não ser o bem’. (cf. Mt 4,2-4).
«Passava Jesus, o filho de Maria (Deus o bendiga e o salve) próximo de alguns judeus, que o maldisseram. Mas Jesus abençoou-os. Disseram a Jesus (os discípulos): ‘Eles te maldizem e tu os abençoas!’ Jesus respondeu: ‘Cada um de nós oferece aquilo que tem.» (cf. 1Pe 3,9; Mt 12,34-35).
«Disse Jesus (a paz esteja com ele): ‘Não tomeis o mundo como senhor, porque o mundo vos tomará como servos. Depositai o vosso tesouro diante daquele que não o deitará a perder, pois o dono do tesouro do mundo teme que lhe provoquem danos ao seu tesouro, e o dono do tesouro de Deus não teme que lhe façam dano’. E disse Jesus (que a paz e a maior das bênçãos estejam com ele): ‘Discípulos! Eu venci o mundo por vós; não o restaureis depois de mim porque quem se humilha diante do mundo desobedece a Deus nesta vida, e quem se humilha diante do mundo certamente não alcançará a vida futura, a menos que rejeite o mundo.» (cf. Mt 6,19-20).
«Disse Jesus (a paz esteja com ele): ‘Discípulos, saciai os humildes do mundo com a paz da religião, tal como as pessoas do mundo contentam aos humildes da religião com a paz do mundo». (cf. Mt 10,39).
«Se quiseres, imita ao Espírito e ao Verbo, Jesus, filho de Maria (a paz esteja com ele), que dizia: ‘O meu alimento é a fome; a minha divisa, o temor [de Deus]; o meu vestido, a lã; a minha roupa de inverno, o esplendor do sol; a minha lãmpada, a lua; a minha sela, os pés; a minha comida e a minha fruta, o que a terra produz. Anoitece, e nada tenho; amanhace, e nada tenho; e não há alguém sobre a terra mais rico do que eu».
«Disse Jesus (a bênção de Deus e a paz estejam com ele): ‘Das riquezas derivam três males: são tomadas de maneira ilícita, e diz-se que foram tomadas de maneira lícita; não se fundam num direito e diz-se que se fundam num direito; e distraem da presença do Deus Altíssimo».
«Disse Jesus (a paz esteja com ele): ‘Pedi aquilo que não pode ser consumido pelo fogo’. Perguntaram-lhe: ‘O que não pode ser consumido pelo fogo?’. Respondeu Jesus: ‘A caridade’.» (cf. Mt 6,19).
«João, filho de Zacarias (a paz esteja com eles), encontrou-se com o demónio em forma real e disse-lhe: ‘Demónio, diz-me quais são as pessoas a quem amas, e quais são as pessoas a quem odeias’. O demónio respondeu-lhe: ‘As pessoas a quem mais amo são os crentes avaros, e as pessoas a quem mais odeio são os pecadores generosos’. João perguntou-lhe: ‘Porquê?’. O demónio respondeu-lhe: ‘Porque o avaro satisfaz-me com a sua avareza, mas temo que ao pecador generoso Deus lhe saia ao encontro pela sua generosidade e logo o converta. Se não fosses João, não te teria revelado isto.»
«Disse Jesus Cristo (a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele): ‘No dia em que um de vós jejuar, deverá ungir a sua cabeça e a sua barba e enxugar os seus lábios, para que as pessoas não vejam que está a jejuar. E se der com a mão direita, que o oculte à sua mão esquerda. E quando orar, coloque um véu na sua porta, pois Deus lhe dará a sua recompensa do mesmo modo que lhe dá o sustento.» (cf. Mt 6,3-18).
«Disse Cristo (a paz esteja com ele): ‘Bem-aventurados os humildes do mundo; eles possuirão lugares elevados no dia da ressurreição. Bem-aventurados os que fazem a paz entre os povos do mundo; eles herdarão o paraíso no dia da ressurreição. Bem-aventurados os que são limpos de coração neste mundo; serão eles a ver o Deus Altíssimo no dia da ressurreição.» (cf. Mt 5,6-10).
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