Fundamentos

A questão aberta

Barnett Newman, "Onement I" (1948)

Barnett Newman, “Onement I” (1948)

Baptizar um filho é integrá-lo no círculo da fé que partilhamos, alargando o seu horizonte de vida a uma dimensão invisível, a uma referência que não vem deste mundo. Baptizar-se é inserir-se numa onda pré-existente. Mesmo sendo ‘capazes de Deus’, não somos a origem do movimento da grande vaga que define a Igreja como um corpo a caminho (…)

Que deixam os adultos de hoje em herança aos filhos? A esperança de um mundo aberto ou o fantasma de um mundo fechado e defendido? Os adultos de hoje converteram o desejo de segurança em obsessão e delírio securitário – já nada lhes aparece como promessa, tudo é ameaça; os adultos tornaram-se evasivos: não respondem a nada. Vivem refastelados à sombra das dramatizações cínicas, da indiferença, dos massacres. Dormem bem com o gosto da autoridade, do juízo, da repressão. Preferem a unanimidade à diversidade. Preferem duas espécies que se combatem ciclicamente numa relação de predador-presa ou tendem a eliminar-se reciprocamente quando competem a propósito de mesmo recurso. A tolerância tornou-se apenas a indiferença diante da diferença. Corrói-os o narcisismo da pequena diferença, aguçada pelo medo da desapropriação.

Aceitai a questão aberta que é cada um dos vossos filhos, alargai a roda: o mundo não é apenas a vossa eira. O cristão sabe que acredita, que espera o regresso de Cristo, contra a ideia de que tudo vale e que nada deve ser julgado conforme a verdade e a justiça, acreditando que a sua vida se situa na vida eterna. Testemunhai do invisível, da paz chegando, da esperança que é uma virtude da noite, mas que é uma virtude crítica. Alegrai-vos com os vossos filhos que são a seta que anuncia um tempo novo, imprevisível. Que os baptizados lhes abram a roda e os iniciem no mistério do Nome que nos precede a todos e continua a reunir. Deus é como um antidestino na nossa vida.

Testemunhai que tudo está mudando: sem testemunho da palavra, a criança não pode ter acesso à verdade do desejo. O Anticristo está às portas. Exortai os vossos filhos para a lucidez contra o fanatismo criminalizante que está a invadir o mundo em dois eixos e que se alimenta do sentimento de superioridade moral que as nossas sociedades liberais se autorgam em defesa duma humanidade que é uma ficção.

Quem diz humanidade quer enganar, dizia Proudhon. Testemunhai do modo como em vós se articulam a justiça e a verdade no mundo para que os vossos filhos despertam. Conservai essa aliança íntima entre a fé e a história. Cantemos como Maria o nascimento imemorial de onde vimos e o renascimento indefinido no coração da existência profana e quotidiana. O amor é inocente diante de Deus. É a partir de Deus que o homem ama. Agradecei a graça da vossa filha na vossa vida. Amparai a luz com que hoje iluminastes. Alimentai-lhe a fé em que a introduzistes. Dizei-lhe que a esperança é tudo o que nos resta.

José A. Mourão, Quem vigia o vento não semeia, Lisboa 2011

 

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