Fundamentos

As Cartas de Etty Hillesum

 

A nossa experiência cristã tende a transportar um sentido moralista, uma água que dilui o sabor e a força do vinho novo da Graça (a imagem é de António Couto). Somos diferentes, somos a diferença no que fazemos, ou no que não podemos fazer? Será a diferença, a qualidade da nossa presença, dependente de ações e atitudes que tomamos, iniciativas, objetivos, programas e virtudes? Ou não seremos chamados a fazer a diferença, a sermos diferentes, diante das situações que nos ultrapassam, dos limites que nos são impostos, das fraquezas e debilidades que transportamos? Como refere o filósofo italiano Giorgio Agamben (uma frase de que gosto muito), «a arte de viver é a capacidade de nos mantermos numa relação harmoniosa com aquilo que nos escapa».

A figura de Etty Hillesum é já conhecida entre nós: judia holandesa, iniciou em 1941 uma aventura espiritual testemunhada pelo seu Diário que a conduzirá até ao contexto da desumanização mais profunda de um campo de concentração. No Diário encontramos passagens notáveis de uma confiança em Deus no seio da violência da história, da capacidade de encontrar os sinais do Divino e da liberdade que em nós habita nos símbolos de uma flor que desponta no deserto, do céu que se contempla por entre as grades, do enamoramento alimentado pelos poetas, pelos profetas bíblicos, pelos evangelhos.

Já as suas Cartas – publicadas também entre nós – não encontraram o mesmo eco. Talvez o motivo esteja na sua linguagem mais unida aos acontecimentos e vivências que Etty atravessou entre a sua cidade, Amesterdão (já com as políticas restritivas aplicadas aos judeus), e o campo de Westerbrok, ponto de transição para os “transportes” (termo muito utilizado por Etty) em direção aos campos de extermínio no leste. E neste registo de Etty (entre os anos de 41 e 43) encontramos o modo como a política alemã de eliminação dos judeus ganhou a forma de um sistema perfeitamente organizado, burocratizado, onde os próprios judeus colaboravam nas estruturas dos campos – tudo para criar nas pessoas o sentimento de impotência.

A Maria Tuinzing, companheira de habitação e amiga íntima de Etty (seria Maria Tuinzing a responsável pela herança dos diários de Etty após a morte desta), escreveu Etty:

«Muitos sentem o seu amor pela humanidade definhar neste lugar, por não receber alimento. Dizem que as pessoas aqui não nos dão muitos motivos para as amarmos. ‘A massa é um monstro horrendo; os indivíduos são deploráveis’, afirmou alguém. Contudo, a minha experiência mostra-me cada vez mais que não existe relação de causa e efeito entre o comportamento dos seres humanos e o amor que se sente por eles. O amor pelo nosso semelhante é como um brilho elementar que nos sustenta. O nosso semelhante por si só quase não tem nada a ver com isso. Oh, Maria, o amor aqui é escasso, e eu própria sinto-me imensamente rica; não posso explica-lo».

Etty não procurou as dificuldades, nem escolheu morrer num estúpido sistema de eliminação de um povo. É verdade que terá recusado a possibilidade de entrar na clandestinidade, e quis abraçar a condição do seu povo servindo voluntariamente no campo de Westerbrok, antes de se tornar aí habitante residente. Não poderemos imaginar o quão diferente seria a vida de Etty se não tivesse iniciado, um ano antes, um caminho espiritual orientado pelo psicólogo Julius Spier. A sua diferença está no modo como não se deixa cair no desespero, ou numa resignação pragmática. Tendemos a construir mentalmente o nosso caminho espiritual e o nosso modo de viver num contexto idealizado, perfeito, que não existe; e a realidade?

«Vou tentar filosofar a altas horas da noite, com os olhos a teimar em fechar com sono.

Por vezes, as pessoas dizem: ‘Consegues tirar o melhor partido de tudo’. Acho esta expressão desmoralizante. Em todo o lado, tudo está perfeito e, ao mesmo tempo, péssimo. Ambos estão em equilíbrio, em todo o lado e sempre. Nunca sinto que tenho de tirar o melhor partido; tudo está perfeito como está. Qualquer situação, por muito miserável que seja, é absoluta e contém em si o bem e o mal.

Só queria mesmo dizer isto: para mim, a expressão ‘tirar o melhor partido’ é realmente horrível, tal como ‘ver o lado positivo em todas as situações’, gostaria de explicar melhor porquê…».

O caminho de Etty atravessa a debilidade, a fragilidade, a mais radical experiência de impotência: como agir perante um sistema quase infalível, perfeitamente organizado, no qual não se encontram quaisquer brechas ou rotas de fuga? A qualidade da sua diferença – cuja herança e riqueza espiritual continuam a inspirar a tantas pessoas, 74 anos depois da sua morte – não brota de uma positividade, de uma motivação, de um propósito espiritual de crescimento, da busca de uma perfeição moral; brota, sim, do encontro, do discernimento, da atenção à presença do Mistério de Bondade no seio da morte e do caos humano.

«Deus meu, fizeste-me tão rica, deixa-me, por favor, partilhar generosamente essa riqueza. A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto Contigo, meu Deus, um grande diálogo. Quando estou em algum canto do campo, de pés plantados na Tua terra, os olhos levantados para o Teu céu, há alturas em que me correm lágrimas pelas faces, brotadas de uma comoção e gratidão interiores, que procuram uma saída. Do mesmo modo, à noite, quando estou deitada e descanso em Ti, meu Deus, as lágrimas de gratidão correm-me, por vezes, pelo rosto, e isso é, também, a minha prece.

Há já alguns dias que me sinto muito cansada, mas esse cansaço também há-de passar, tudo é regido por um ritmo interno próprio e é necessário ensinar as pessoas a escutá-lo; isso é o que de mais importante se pode aprender nesta vida.

Não me revolto contra Ti, meu Deus, a minha vida é um diálogo ininterrupto Contigo. Talvez nunca venha a tornar-me a grande artista que, na verdade, gostaria de ser, mas já estou demasiado protegida em Ti, meu Deus. Por vezes, gostaria de registar pequenas sabedorias e relatos vibrantes, mas volto sempre à mesma palavra – Deus – que compreende tudo, pelo que nada mais necessito de dizer. E toda a minha força criativa se converte em diálogos interiores Contigo, o bater do meu coração tornou-se aqui mais amplo e agitado e tranquilo ao mesmo tempo, e é como se a minha riqueza interior crescesse cada vez mais…».

 

Para aprofundar:

  • Etty Hillesum, Cartas. Ed. Assírio&Alvim, Lisboa 2009

 

Texto publicado aqui: http://www.imissio.net/artigos/59/844/magazine-imissio-n-4-fazer-a-diferenca-hoje/

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