Fundamentos

As Parábolas (I)

“O reino de Deus não é um objecto que se descreve por parábolas mas um dinamismo de que só em parábolas se pode falar.A parábola não impõe uma conclusão,ela abre o auditor para algo a encontrar,a interrogar.”

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O capítulo 4 é para o leitor de Marcos o ponto mais difícil de ultrapassar. Tomamos muitas vezes o texto do Evangelho e os discursos religiosos como uma linguagem objectivante que descreve ou que define Deus, os anjos, os diabos, o céu, o inferno, etc., sem as máscaras que a linguagem intransitiva sempre veste. Foi assim que pintámos o inferno, como existente aos olhos de alguém que teria ido «ver» mas que ficaria «de fora» como se não nos dissesse respeito. O inferno descrito como um «lugar», fora de nós. Ora, o bem e o mal englobam-nos, estão em nós e estamos dentro. Não podemos exilar-nos do corpo. É no corpo que se faz o bem e o mal. Ninguém caminha fora do corpo que habita por que age, por que sofre ou jubila. Não há salvação fora do corpo.

Uma parábola é uma comparação e uma representação. O reino de Deus toma lugar na linguagem dos homens e nas imagens da sua vida. Mesmo se estas imagens e linguagem não esgotam o seu mistério: é preciso ouvir, acolher as parábolas, a sua acção e o seu trabalho em nós. Prestamos um mau serviço às parábolas se queremos torná-las claras. A linguagem metafórica permite falar do que escapa à descrição, permite falar das coisas impossíveis de dizer. O reino de Deus não é um objecto que se descreve por parábolas mas um dinamismo de que só em parábolas se pode falar. O reino de Deus mostra-se nos frutos que são perceptíveis no receptor, nas suas relações com os outros. Como a «palavra» em boa terra, só o reconhecemos vendo o que produz.

O reino de Deus só pode ser posto em linguagem falando de outras coisas. É pois uma linguagem subjectivante, capaz de me tornar responsável pelas escolhas que faço e de acreditar. É uma perda para a representação imaginária mas é um ganho para a ruminação e o entendimento que levam à transformação de si através da escuta do Outro. Não é um livro que lemos para nos instruir, é um percurso de iniciação a realidades a que ainda chegamos, um percurso de descoberta, não apenas do reino de Deus mas de si próprio. A parábola não impõe uma conclusão, ela abre o auditor para algo a encontrar, a interrogar. Mesmo depois de lermos a parábola do grão de mostarda, não podemos dizer que sabemos o que é o reino de Deus.

Fala-se daquilo de que não se pode falar em claro: o que justifica a presença de tantas parábolas. Nenhuma nos dá a chave do reino. É por isso que os quatro Evangelhos não repetem a mesma coisa. O perigo dos integrismos é acreditar que podemos retirar deles um significado integral. Como se pudéssemos colocar-nos no lugar do Outro. Devíamos saber que o lugar do Outro está sempre vazio. Ora, o mistério do Outro toca-se através de uma figura que é a linguagem. Nós recebemos a língua. Quando queremos exprimir-nos, temos de mergulhar nas fontes da linguagem que não inventamos: um vocabulário, regras, modos de se exprimir. Somos orientados para o outro de que não dispomos e sem o qual não passamos. A parábola proíbe-se de dizer tudo.

José A. Mourao, “Quem Vigia o Vento não Semeia”, Lisboa 2012

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