Fundamentos

As Parábolas (II)

“A parábola apela a viver com aquilo que está escondido.Não é feita para dar explicações,não é um procedimento pedagógico,não é uma comparação:ela não põe em destaque,ela introduz o mistério no meio das evidências do mundo.”

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Eis o que anunciam as parábolas: o reino do secreto, disseminado. Tudo é expansão imprevista, do grão de mostarda à árvore. O reino é desconhecido dos homens, embora habite a sua vida. O reino de Deus é literalmente “como um homem que lançou a semente à terra”. É isso que não compreendemos. A alternância dos tempos da vida humana – a noite, o dia, o sono, a vigília – recobrem misteriosamente o tempo do reino de Deus. Este tempo caracteriza-se por um ritmo de sementeira, de crescimento, de frutificação, de recolha – etapas em que se manifesta um desejo em acto que subentende os gestos do semeador e a sua espera pela colheita. A terra e a semente realizam a sua obra de modo inexorável, na totalidade do tempo, enquanto o homem se afasta durante o crescimento e tudo se passa fora do seu poder: “ele não sabe como”. Se o reino de Deus noa habita e em nós desenvolve a sua obra não somos nós que reinamos. O Evangelho atesta e proclama a obra de Deus no meio de nós, mas distinta de nós. Há um tempo e um lugar escondidos na história de cada um.

A segunda parábola começa por uma interrogação. Como apresentar o Reino de Deus? Nesta segunda parábola, é ainda questão de semear e de crescimento duma planta, mas a atenção incide sobre a divisão entre o tamanho do grão, ínfimo, pequena quantidade perdida na terra, e o tamanho imponente da planta adulta. Este grão de mostarda, chegado à maturidade, é a maior planta do jardim. Esta planta imensa dá uma sombra que permite aos pássaros aninhar-se nos seus múltiplos ramos. A parábola põe em relação o mais pequeno que está na origem, escondido, e o maior que ocupa o espaço e se impõe.

A parábola ensina que há realidades que não são o fruto do que o homem semeia e que vêm ocupar com o seu ruído o espaço aberto pelo reino de Deus. É, pois, um convite a modificar o nosso olhar sobre o que aparece na terra, sobre as nossas construções: elas testemunham sem o saber, de uma semente minúscula e perdida, que escapa ao olhar e à apreensão. A parábola apela a viver com aquilo que está escondido. Não é feita para dar explicações, não é um procedimento pedagógico, não é uma comparação: ela não põe em destaque, ela introduz o mistério no meio das evidências do mundo. Orienta-nos para essa presença de um mistério no meio de nós. A palavra é uma potência, uma energia, combustível. Quando a Palavra se introduz nas palavras tritura-as, deforma-as. A palavra é o Verbo: são os seus gestos, é toda a sua vida.

As parábolas falam do mistério do reino de Deus. Há um “mistério” a conhecer mas que nos é dado em linguagem parabólica. A semente deitada à terra segue o seu caminho, solitária, pode aquele que a deitou à terra “dormir”, ir à sua vida, ocupar-se de outra coisa. A semente é a palavra-semente. É uma parábola libertadora que situa bem a parte que cabe ao auditor, a nós que ouvimos. Na parábola do semeador os pássaros tinham um carácter negativo e assumiam a figura de Satã, que arrancava a palavra àqueles que a tinham acolhido apenas à superfície. Podemos perguntar se os demónios que devoram a palavra não são convertíveis quando deixamos à palavra o tempo de crescer e a possibilidade de frutificar.

Que o Espírito nos esteja presente ao mistério do que em nós se vai modelando e nos torne como o cedro, um espaço de abrigo para os dias de chuva ou de calor.

José A. Mourao, “Quem Vigia o Vento não Semeia”, Lisboa 2012

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