Fundamentos

Ascensão: O Pudor do Anúncio

ascension

Deus apaga-se. Discretamente. Porque é que Deus se apaga? Por misericórdia. Este afastamento deixa ao homem um espaço para viver. Jesus vive 30 anos no anonimato, depois anuncia o Reino, sem impor a sua autoridade, morre condenado. Eis a recusa de inscrever na vida manifesta o poder e a glória da divindade. Cristo é discreto. Não é o legislador que deixou obra.

O discipulo deve obedecer ao mandamento do Ressuscitado: ‘Ide e pregai o Evangelho a toda a criatura’. O discípulo não está acima do Mestre. O profeta não prevê o recurso à pressão do Estado, à força da lei ou à opinião maioritária da multidão para obrigar a ser discípulo. Propôs sem nada impor, mas não sem deplorar a dureza do coração (…) Mas a evangelização deslocou o acento colocado na Palavra, com vista à escuta e conversão pessoal, para um domínio institucional, cadastral, que englobava numa mesma adesão social os membros da sociedade.

Deus não se impõe, procura-se e deseja-se. A discrição de Deus manifestada no percurso de Jesus e verificada de certo modo na retirada silenciosa do Espírito pode suscitar a partir da retenção da comunidade e do pudor do seu anúncio uma outra sedução que a do consenso superficial ou social, afastada de qualquer pressão do poder e do fascínio do poder.

O pudor convida a não manipular, a manter-se retirado na proximidade. O pudor não é a retirada eremítica nem a indiferença, mas uma atitude arriscada, a reexaminar, no quadro do anúncio da Palavra, segundo as variações e os humores dos auditores potenciais. Agora é preciso acordar o desejo que dorme em cada um de nós. Deus revela-se ao contrário daquilo que imaginamos. É quando se afasta que se faz próximo.

A Ascensão prepara-nos para vivermos separados de um Cristo ainda demasiado carnal, produto dos nossos sonhos ou garante das nossas doutrinas. Ao mesmo tempo remete-nos para o mundo para dar uma imagem a Jesus. Somos a gente da Nuvem, mas somos seus testemunhos. Podemos por isso entoar o cântico da subida com todos aqueles que connosco fazem o caminho da Ascensão para Deus.

Paulo diz-nos que depois da Ascensão a nossa vida está escondida em Deus com o Cristo (Col 3,4). É a expressão das subidas do nosso coração no interior daquilo que na nossa vida mais pesa. A pedagogia das aparições ensinava-nos a ausência de Cristo. A Ascensão ensina-nos o desprendimento de Deus mesmo.

É preciso aceitar perder Jesus segundo a carne para o receber como o Dom do Espírito. É o apagamento de Jesus no dia da Ascensão que tornou possível a vida e o testemunho da Igreja desde há vinte séculos. Este Jesus está diante de nós como ausência ardente. Depois que ‘os deuses desapareceram’ do nosso mundo secularizado, os cristãos compreenderam melhor que Deus é sempre maior. O traço irrefutável da presença de Cristo encontramo-lo hoje nessas comunidades cristãs que resistem no meio da fome e da doença, no Sudão ou no Congo.

Que o Espírito nos guarde na boa tensão entre o desejo do céu e o serviço do mundo. E nos dê a graça de adivinhar o Cristo por trás da nuvem que é a face obscura da glória luminosa de Deus e do pobre. Abandonemo-nos ao movimento do divino que não separa o quotidiano do transcendente, antes o reconhece na beleza do instante, na intensidade da experiência, no efémero da fruição, na indeterminação das fronteiras. Na hora que passa e que devemos juntar ao fulgor desta festa.

José Augusto Mourão, “Quem Vigia o Vento não Semeia”, Lisboa 2011

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