Foi através dos textos de Maria Gabriela Llansol que conheci pela primeira vez o movimento das Beguínas: movimento da Idade Média, de rara espiritualidade, que nos deixou poemas e passagens belíssimos.
Não é fácil conhecer o chamado movimento das Beguínas: nascido por volta do séc. XIII no território dos actuais Países Baixos, o movimento das Beguínas brotou das mesmas condições sócio-económicas e espirituais que deram origem, por exemplo, ao Franciscanismo. Formado por mulheres de todas as camadas sociais, sem qualquer modelo de organização ou regra, as beguínas dedicavam-se ao estudos das Escrituras e dos textos litúrgicos, à pregação e à caridade, num desejo de regresso às origens evangélicas. Os seus escritos foram uma fonte de inspiração para teólogos medievais como Mestre Eckhart, realçando os paradoxos de um Deus que se revela como Amor – um Amor sempre maior, e sempre para além das imagens que d’Ele podemos elaborar.
O seguinte poema pertence a Hadewijch de Amberes, que terá vivido no século XIII em Antuérpia. O termo beguína poderá ter a sua origem na palavra bag, que significa mendigar. Em Portugal não temos acesso a este período da literatura espiritual do Cristianismo: a tradução que faço é a partir do castelhano, de uma edição da Trotta (na imagem), existindo também uma edição mais completa na BAC. A tradução sofrerá das limitações inerentes. Prescindo também de comentar, ou explicar, esta literatura paradoxal, que procura tocar “na ponta do manto” do Mistério de Deus. Fica simplesmente, para leitura:
…
As suas violências são o mais doce do Amor,
o seu abismo insondável é a sua forma mais bela,
perder-se nele é alcançar a meta.
Ter fome dele é alimentar-se e deleitar-se,
a inquietude de amor é um estado seguro,
a sua ferida maior é um bálsamo soberano,
desfalecer por ele é o nosso vigor,
eclipsando-se revela-se,
se faz sofrer, salva,
se se esconde, revela-nos os seus segredos,
é retirando-se que se entrega,
não tem rima nem sentido e é poesia,
cativando-nos liberta-nos,
os seus golpes mais duros são o seu maior consolo,
que privilégio se nos toma por inteiro!
É quando parte que fica mais próximo,
o seu silêncio mais profundo é o seu canto mais alto,
a sua pior cólera é a sua maior recompensa,
a sua ameaça, a nossa calma,
e a sua tristeza consola todas as penas:
nada ter é a sua riqueza inesgotável.
Mas do Amor pode dizer-se também
que a sua segurança leva-nos ao naufrágio,
e o seu estado mais sublime afunda-nos até ao fim;
a sua opulência empobrece-nos
e os seus benefícios são a nossa desventura;
os seus consolos aumentam as nossas feridas;
o seu trato é muitas vezes mortal;
o seu alimento é fome, a sua ciência, extravio;
a sua escola ensina-nos a perder-nos,
a sua amizade é cruel e violenta;
foge-nos quando nos é fiel,
para manifestar-se esconde-se sem deixar rasto,
e os seus dons despojam-nos ainda mais.
As suas promessas são sedutoras,
o seu ornamento torna-nos nus,
a sua verdade decepciona-nos
e a sua segurança é mentira.
Este é o testemunho que eu mesma e muitas outras
Podemos manifestar,
as que vimos as maravilhas do Amor,
e recebemos o escárnio
por pensar que possuíamos
o que para si guardava.
Desde que começou a comportar-se assim comigo
e eu aprendi a conhecer os seus modos,
comporto-me de uma maneira muito distinta:
já não me enganam
nem promessas nem ameaças;
desejo-o tal como é, e pouco importa
que seja doce ou cruel.
Hadewijch de Amberes, MGD XIII
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