Fundamentos

Carlo M. Martini, Falar com o Coração

Com o título “Falar com o Coração”, é agora publicado em Portugal (numa edição AO) as perguntas e respostas mantidas pelo cardeal Carlo Maria Martini no jornal Corriere della Sera.Aqui fica um excerto e índice.

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Falar com o Coração

Carlo Maria Martini, AO 2014, 135 págs. PVP: 10,00 euros

Nos últimos anos da sua vida, o cardeal Carlo Maria Martini manteve, mensalmente, uma coluna no importante (e laico) jornal italiano Corriere della Sera, na qual respondia brevemente a cartas enviadas por leitores. Esta prática (actualmente mantida pelo cardeal Gianfranco Ravasi, e infelizmente não muito conhecida em Portugal, mesmo em jornais diocesanos), permitia aos leitores enviar as suas dúvidas e perguntas, partilhando por exemplo experiências de sofrimento. As respostas do cardeal (muito abalado também pela debilidade física) destacam-se pela sua linguagem não-dogmática, próxima da experiência pessoal. Partilho um excerto de uma dessas respostas, numa bela edição que reúne as perguntas e respostas publicadas durante três anos no jornal.

“Juntei estas três cartas porque me parece que tratam de temas semelhantes, apesar da diversidade de situações, como o medo da morte e ao mesmo tempo o desejo de morrer, o que nos espera depois da morte e a debilidade da nossa fé. Sobretudo a morte: ela é dolorosa para todos. Mas acontece frequentemente que quem é atingido duramente por grande dor chegue a dizer: Como poderei continuar a sofrer assim? É melhor partir! Não é pecado pensar assim, mas devemos estar atentos a que não leve a um verdadeiro suicídio. Manifestar simplesmente a Deus o nosso desejo de que Ele nos leve depressa é lícito. Devemos, porém, habituar-nos a ter em conta tudo aquilo que é positivo. No caso da senhora que escreve a primeira carta, entrevejo muitas coisas positivas. Mas ela própria deve dar-se conta disso. O marido morreu de cancro e certamente ela serviu-o com muito amor. O mesmo fez no seu longo serviço de enfermeira. Mesmo no incómodo causado pela doença de Parkinson é possível participar em pequenas iniciativas de caridade, que alargam o coração e enchem de esperança.

No que diz respeito, pelo contrário, ao medo da morte, do qual nos fala o segundo testemunho, não existem soluções fáceis, não basta, por exemplo, impor a si mesmo não pensar nisso. Não conheço um método melhor do que aquele de se concentrar no presente. Assim se pode actualizar também o modo como Cristo venceu a morte, oferecendo-Se todo a Deus Pai. Mesmo morrendo de uma morte injusta e cruel, disse: “Pai, nas tuas mãos, entrego o meu Espírito”. Este é o segredo! Se não nos confiamos a Deus como crianças, deixando que Ele providencie o nosso futuro, nunca chegaremos a cumprir aquele gesto de total abandono de si mesmo, que constitui o núcleo da fé. Certamente, iremos rever aqueles que amámos. Também aqueles que amaram mesmo não tendo conhecido a Jesus. Como escreve Dante, “a bondade divina tem uns braços tão grandes que toma aquilo que a ela se dirige”.

Mas de onde vem uma fé assim dócil? O último interlocutor responde: é um dom de Deus. Mas isso não significa que não somos chamados a fazer tudo o que está ao nosso alcance para receber este dom. Que a ausência prolongada de uma pessoa muito querida gere solidão, isso é algo que deve ser entendido e respeitado. Não é difícil na nossa vida experimentar momentos dramáticos, por ocasião da morte de um parente próximo ou de um amigo querido. Não vale de nada olhar o defunto esperando perceber nele algum sinal de ressurreição. A sua alma, como diz o pensamento hindu, ‘deixou o corpo’ e é inútil encontrar nele os sinais de uma vida nova.

Quanto à observação: ‘Gostaria de ter a sua certeza sobre a existência de Deus; mas infelizmente não é assim’, devo dizer que sinto muito a fragilidade desta minha fé e o perigo de a perder. Por isso peço muito ao Senhor e entrego-Lhe a minha vida, a minha morte e todos aqueles que chegam ao momento da morte com pouca confiança no poder de Deus.”

Índice

1. O homem diante da morte | 2. O mal no mundo e o sentido da dor | 3. Cristo e o símbolo da Cruz | 4. A existência de Deus como problema não resolvido | 5. Valores humanos e valores de fé | 6. As novas gerações e a fé | 7. As palavras da fé | 8. A Igreja num mundo em mudança | 9. Deus na história

http://www.fundamentos.pt/encomendas/

 

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