O que podem um presbítero de 89 anos e um cardeal de 82 ensinar-nos?Talvez a urgência de retomar o programa do Vaticano II,repensar a Igreja em si e na sua relação com o mundo.

Estamos todos na mesma Barca
Carlo M. Martini, Luigi M. Verzé. Gráfica de Coimbra 2009
«Não sei se estou acordado ou se estou a sonhar. Sei que me encontro completamente às escuras, enquanto um lento baloiçar me faz crer que estou numa barca que desliza sobre a água.
Procuro, às apalpadelas, identificar melhor o lugar onde me encontro e apercebo-me de que junto a mim está um mastro, talvez o mastro grande da embarcação. A pouco e pouco me aproximo, de forma a poder agarrar-me a ele com as mãos, para ter um pouco de segurança e estabilidade nos cada vez mais frequentes movimentos da barca sobre as ondas.
Nesta tentativa, encontro algo que me parece a mão de um homem. Talvez seja outro passageiro que está também ele a procurar apoiar-se no mastro grande. Não sei quem seja, como também não sei como eu próprio me encontrei nesta barca. Mas o toque daquela mão incute-me confiança: avanço, para poder apertá-la e exprimir a minha solidariedade com alguém, naquela escuridão que causa arrepios.
Quero ainda tentar dizer alguma coisa, mesmo não sabendo se o meu companheiro de barca entende o italiano. Mas, entretanto, ele começa a fazer-me algumas breves perguntas, às quais me apraz responder. Trata-se de uma pessoa que eu não conhecia, mas da qual ouvira falar. Admirava-me o seu interesse por mim naquele momento difícil, em que cada um preferiria pensar apenas em si próprio. Dialogando assim na noite profunda, naquele momento de incerteza e mesmo de perigo, a pouco e pouco se viram despontar as primeiras luzes da aurora. Reconhecido o lugar em que me encontrava, estávamos só nós dois na barca. E, usando alguns remos que encontrámos no fundo da mesma, começámos a remar em direcção à margem, parando de vez em quando para saborear a tranquilidade do lago.
Dissemo-nos muitas coisas naquelas horas. Durante a discussão, veio claramente a lume que éramos muito diferentes um do outro. Mas respeitávamo-nos como pessoas e amávamo-nos como filhos de Deus. Também o facto de nos encontrarmos na mesma barca nos permitia compreender-nos e acolhermo-nos como éramos.» (Carlo M. Martini)
91 págs. PVP: 11,00 euros
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed