Fundamentos

Carlos Maria Antunes

Fizemos o convite, e foi aceite! Hoje, uma entrevista com Carlos Maria Antunes, presbítero, monge e autor de «Atravessar a própria solidão» e «Só o pobre se faz pão». O que segue é seu. Obrigado!

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«Associamos facilmente o jejum a uma prática característica do tempo quaresmal. Importa ampliar esta visão.» O jejum torna-se um símbolo do mais essencial no Evangelho: o seguimento solidário e livre de Jesus?

Creio que o jejum pode ser revalorizado na espiritualidade cristã como adesão a um estilo de vida mais sóbrio, mais concorde com a proposta evangélica. Não está em causa o lugar que ocupa no itinerário quaresmal, embora seja necessário redescobri-lo para não reduzirmos esta ferramenta da vida espiritual a uma caricatura. Do que vivo? – é a questão que a prática do jejum pretende agudizar. Precisamos de voltar às fontes da salvação e não nos deixarmos sufocar pela lógica da acumulação. O jejum cria um espaço vazio que nos possibilita um encontro com a própria vida que, para o crente, só faz sentido como desejo de encontro com Deus. Possibilita um ir à raiz de si mesmo. E esta é, sem dúvida, a viagem mais importante para cada um de nós. Viagem que não tem fim à vista, pois aponta para o infinito; viagem onde nos refazemos constantemente no abandono à surpresa de Deus. Quando este encontro é o que há de mais decisivo na vida, o sentido da oblatividade ganha relevo em detrimento do lugar que ocupam as nossas necessidades (reais ou imaginárias). Um pessoal processo de libertação e um viver mais solidário são coordenadas que se fecundam reciprocamente num autêntico caminho espiritual.

«Há uma utopia que o Evangelho suscita»… Pode-se falar do projecto de uma sociedade da «sobriedade partilhada», como refere o jesuíta González Faus?

A imagem bíblica do banquete aberto a todos os povos, a começar pelos que habitualmente não contam, é o horizonte desta utopia. O banquete é o dom de Deus que convoca a nossa gratidão e a partilha. Só quando Deus está no centro é que o pão pode ser para todos. A prática do jejum tem também uma leitura política (no seu sentido mais amplo). A viabilidade da vida em comum, na pequena comunidade ou a nível global, passa necessariamente pela autolimitação voluntária no consumo. É sobejamente sabido que o estilo de vida nas sociedades de “bem-estar” põe em risco a vida de muitos seres humanos e do próprio planeta. Infelizmente, não basta ter acesso a esta informação para que alguma transformação aconteça. A prática do jejum, como experiência de privação sentida no próprio corpo, conduz-nos ao reconhecimento da nossa absoluta dependência do dom. Esta consciência pode abrir-nos a níveis mais profundos e comprometidos de solidariedade. Sem o encontro com a nossa própria pobreza (tão diversa nas suas expressões), os nossos olhos nunca se abrirão diante do pobre. Quem jejua expõe-se à sua própria indigência, permite olhar-se nos olhos, sem adornos nem fugas. O “sucesso” das sociedades de consumo está intimamente relacionado com a dificuldade que cada um de nós tem de se encontrar consigo mesmo. Quando não somos capazes de atribuir nome às nossas carências mais fundas, multiplicam-se as necessidades como uma forma de compensação. O jejum assume aqui uma função libertadora. A proclamação conciliar do destino universal dos bens da terra não tem concretização possível através de nenhuma conceção ideológica, mas somente através da conversão do coração. A fraternidade – que inclui necessariamente a partilha dos bens – é um dom do Espírito.

Ao mesmo tempo, no jejum temos um apelo a libertar a experiência cristã de todo o moralismo, «água misturada ao vinho» na expressão de António Couto…

Não há espiritualidade cristã sem a assunção consciente do que somos. O moralismo não lida nada bem com a revelação de Deus que está inscrita nas nossas histórias pessoais, pois na sua origem está uma dissimulada desconfiança na ação do Espírito no coração humano. Utilizando a linguagem de S. Paulo, podemos dizer que o moralismo se situa no âmbito da lei e que desconhece a liberdade do Espírito. É-lhe próprio impor uma leitura, um olhar condicionado, um modelo ou um comportamento padrão. Move-se na superfície. Ao contrário, o movimento que está associado ao jejum permite abrir-nos ao inesperado que cada um de nós transporta. Remove proteções, desbrava caminhos, conduz-nos, em suma, à nossa própria terra. Move-se em águas profundas.

Naturalmente associado à alimentação, não poderá a prática do jejum alargar-se a outro tipo de «necessidades» criadas por nós ou para nós (meios de comunicação e entretenimento, modas, etc.)?

É estonteante a forma como se multiplicam as nossas necessidades! Acompanha-nos uma voragem da posse que, ainda que nem sempre conscientes, associamos à felicidade. E é assim, apesar da vida de tantos dos nossos contemporâneos provar a falência deste mito, que está na base das sociedades de consumo. O jejum tem uma relação primeira e irrenunciável com a comida, mas não exclusiva. Cada um de nós necessita de jejuar naquilo que sente que lhe retira a liberdade. E podem ser tantas coisas!

Em tempo de «entrada em férias», é um convite a vivermos o essencial, por exemplo, nas nossas relações?

O jejum, enquanto ampliação do nosso “espaço interior”, redimensiona a nossa capacidade de acolhimento do outro. A nossa relação com a comida e com o consumo de outros bens é uma importante chave de leitura da forma como nos relacionamos com o outro. Tantas vezes é a voracidade que também está presente no modo como vivemos a relação. O jejum é um instrumento ao serviço da comunhão, da partilha, da festa para todos. Mais descentrados das nossas necessidades, poderemos estar mais atentos à descoberta da beleza que há em nós, em cada ser humano, na natureza, em tantas expressões da vida… Em férias ou não, o que mais nos descansa é um olhar “inocente”, fruto da Graça, que nos permite descobrir que vale sempre a pena nascer de novo.

Entre nós, cristãos, não será ainda longo o caminho para uma maior interioridade (pessoal e comunitária), nomeadamente nas práticas pastorais?

Sem esquecer que vivemos numa realidade eclesial muito diversa, vejo alguns sinais que indicam a crescente valorização de uma experiência crente onde a fé se vai inscrevendo num nível mais profundo da biografia pessoal. Já não é sustentável, e sê-lo-á cada vez menos, que a experiência cristã, a começar pela iniciação à fé, não abra portas para a descoberta de Deus como Presença que nos habita. Presença que convoca para uma relação pessoal. Muitas vezes opomos interioridade a exterioridade, como se o interesse por um caminho interior se traduzisse num menosprezo pela vida do mundo. Esta falsa oposição lembra outra, próxima desta, que é a que habitualmente se estabelece entre ação e contemplação. Numa genuína espiritualidade cristã verificamos que quanto mais descobrimos a vastidão da nossa “morada interior” mais cresce a nossa sensibilidade e a nossa capacidade de implicação com tudo o que está ao nosso redor. A interioridade não se opõe à exterioridade, opõe-se, sim, à banalidade, à superficialidade e à indiferença.

Em «Só o Pobre se faz Pão», como já antes em «Atravessar a própria solidão»), com atenção podemos ver traços do caminho pessoal de um cristão e presbítero. O que é ser monge em Santa Maria de Sobrado, Galiza?

O monge aprende a viver devagar; uma lentidão aberta à hospitalidade de si, do seu irmão, de Deus (realidades inseparáveis). Não ter pressa no olhar, no escutar, no tocar… Aprender a não fugir e a deixar-se afetar pela vida tal como é. Receber tudo como uma revelação. Permitir que aquilo que tantas vezes é experimentado como fragmentação seja reconduzido, pelo Espírito, à unidade. Gosto de dizer que a vida monástica é um lento e longo processo na aprendizagem do amor. Já os primeiros autores cistercienses (entre os mais conhecidos está Bernardo de Claraval) chamavam ao mosteiro escola de caridade. Todos somos discípulos nesta escola. Há uma urgência de viver que nos traz ao mosteiro. Aqui aprendemos: a amar a Deus, a amar os irmãos e amar-nos a nós mesmos. Tudo isto vai acontecendo na relação fraterna e na solidão, na oração comunitária e individual, no trabalho manual e na lectio divina, sem nunca desesperar da misericórdia de Deus – como nos exorta São Bento na sua Regra.

3 Comments

  1. catarina ramos
    Julho 22, 2013

    parabéns
    excelente entrevista
    catarina

  2. Teresa Paula
    Julho 14, 2013

    Parabéns pelo seu testemunho de vida.
    Que Deus o continue a abençoar.
    Apesar de longe não esqueço os anos que trabalhamos juntos na Pastoral.
    Bem haja pela tua opção de vida, pelo SIM generoso dado a Deus.
    Unida em oração.
    Teresa Paula

  3. HV
    Julho 13, 2013

    Interessante iniciativa que resultou numa também interessante entrevista

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