A partir de uma imagem de Anselm Jappe: «se ninguém lhe propuser, a criança nunca pedirá mais nada a não ser o doce e o salgado, que possuem muito poucos matizes».

Há uns meses, aquando da sua passagem por Portugal, recebi na Fundamentos alguns livros do economista francês Anselm Jappe. Num dos livro, «Sobre a Balsa de Medusa», Jappe refere as relações entre a Cultura, a Arte e a economia de mercado, e desenvolve uma imagem muito interessante sobre os hábitos de «consumo» de cultura. Partilho esse excerto:
«Podemos explicar isto com um caso particularmente interessante e que, aliás, não procede da psicanálise, mas da cozinha. Existem quatro sabores fundamentais no sentido do paladar: o doce, o salgado, o ácido e o amargo. Porém, o palato humano é capaz de sentir uma décima milésima parte de uma gota amarga dissolvida num copo de água, ao passo que, dos outros sabores, precisa de uma gota inteira para que esta seja perceptível. Por conseguinte, nenhum outro sabor é tão capaz de diferenciação e de uma multiplicidade quase infinita de sensações gustativas como o amargo. As culturas do vinho, do chá e do queijo, essas grandes fontes de prazer da existência humana, baseiam-se nestes inúmeros tipos e gradações do amargo.
No entanto, a criança recusa espontaneamente o amargo e não aceita senão o doce, e depois o salgado. Tem de ser educada para apreciar o amargo, ultrapassando uma resistência inicial. Como recompensa, desenvolverá uma capacidade de fruição neste domínio que, de outra forma, lhe estaria vedada. Mas, se ninguém lhe propuser, a criança nunca pedirá mais nada a não ser o doce e o salgado, que possuem muito poucos matizes, podendo apenas ser mais ou menos fortes. E é assim que nasce o consumidor de fast food – que, como é sabido, se baseia unicamente no doce e no salgado -, incapaz de gostar de sabores diferentes. E o que não se aprende na infância já não se aprende depois: se uma criança que cresceu à custa de hambúrgueres e de Coca-Cola se tornar um novo rico e quiser ostentar cultura e requinte, bem poderá consumir vinhos caros e queijos de qualidade, que nunca os saberá verdadeiramente apreciar.»
O autor aplica a imagem aos hábitos «iniciais» de consumo; mas pergunto-me se a mesma imagem não poderá ser aplicada também em algumas práticas pastorais – a escolha entre uma pastoral de iniciação, que pedagogicamente conduza através dos caminhos da fé cristã (entre a exigência e o fascínio), e uma pastoral de manutenção, de «dar às pessoas o que elas querem», sejam elas senhoras idosas ou jovens universitários.
Anselm Jappe, «Sobre a Balsa de Medusa», Antígona 2012
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