Fundamentos

Domingo II do Tempo Pascal

«Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles.

Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas». (Lucas 24, 35-48)

Imediatamente nos recordamos da passagem de Mt 14,22-33 (curiosamente, não presente em Lucas que eu saiba), no qual os discípulos confundem com um fantasma o Senhor que caminha sobre as águas – e um fantasma não pode segurar a mão de Pedro quando este sente o medo por causa da violência do vento. E diante desta experiência os discípulos reconhecem-n’O e fazem a sua profissão de fé. Recordamo-nos também do mandamento do Senhor a não nos inquetarmos quanto à nossa vida, a aprendermos a contentar-nos com as ocupações e problemas de cada dia, entregando as do dia seguinte à confiança no Deus que conhece melhor do que ninguém as nossas necessidades (Mt 6,25-34). Ou a ordem que o Senhor dá aos seus discípulos diante do horizonte, quase do espectro, da prisão: «Não se perturbe o vosso coração: crede em Deus, crede também em mim» (Jo 14,1-2).

Em tudo, a confiança nasce da relação com uma Pessoa, e no reconhecermos quem é essa Pessoa. Porque ter mãos para tocar, pés para caminhar é o que nos torna pessoas. Graças a Deus não somos puros espíritos. Graças a Deus, gostamos de chegar a casa e perguntar: »Que tendes aí que se coma?» Graças a Deus somos assim. E graças a Deus, o Ressuscitado também é assim.

A Ressurreição de Jesus não é a sua ausência para um mundo espiritual e celeste: é a sua soberania sobre a Criação, é a sua presença no meio de um Reino que já está entre nós. Uma Soberania que, felizmente, não é como a dos senhores deste mundo. É uma Soberania que permite e alimenta a confiança. Uma soberania que permite arriscar nos caminhos do seu Seguimento. Porque não temos outra linguagem, não temos outro alfabeto, nem sequer uma lingua enigmática ou de iniciados, para falar da Presença do Ressuscitado: temos a nossa linguagem, o nosso alfabeto de cada dia: «Tendes aí alguma coisa para comer?» O Ressuscitado não deixa de ser Aquele que Ascendeu. Mas por isso, também não deixa de ser o Presente. É o início de uma nova Proximidade.

E, se me permitem e porque os Evangelhos também lêem Sexta-Feira Santa e a Paixão à luz da experiência do Ressuscitado, um canto em Árabe da Igreja Ortodoxa sobre a Descida da Cruz: (a tradução em inglês pode ser vista aqui). Um bom Domingo de Páscoa! A Fundamentos regressa segunda-feira, para o Dia Internacional do Livro. (A imagem, «Ceia em Emaús» de Caravaggio, séc. XVI).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=6K-u6UYSjpY]

Deixe um comentário

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed