
«Esta é uma história de começos: do dia, da semana, da luz, da vida.Ausente o jardineiro, resta o jardim que a ausência permite».Um excerto, de José Augusto Mourão,sobre a Páscoa e o Corpo.
«Esta é uma história de começos: do dia, da semana, da luz, da vida. Ausente o jardineiro, resta o jardim que a ausência permite. Como se o corpo de Jesus apenas se mostrasse retirando-se de um real impossível de descrever sob a alternativa da presença e da ausência, do visível ou do invisível. Porém, é este retirar-se que desperta nos discípulos uma fé capaz de acreditar sem ver. Aquilo que se vê não é aquilo em que se acredita.
Há um modo de aparência de Jesus que vai desaparecer no túmulo. O corpo físico deixará de ser o lugar de reunião dos discípulos, o pastor deixará de reunir as suas ovelhas; ferido o pastor, as ovelhas serão dispersas. Como um perfume que se evapora, uma flor que murchou. Judas não entrega apenas um corpo a ser morto e enterrado como um cadáver. Dos Doze, há apenas traços: um que o traiu e Pedro que segue de longe. Todos os abandonaram e fugiram. Resta um jovem que o seguiu, envolto apenas num lençol. Agarraram-no mas ele, largando o lençol, fugiu nu.
De manhãzinha, acorrem as mulheres ao túmulo. Que vêem? Um jovem «sentado à direita», vestido com uma veste branca, nada normal no modo de vestir de um jovem. A Escritura não diz que é um anjo, nem o efeito que a visão provoca sobre as mulheres – o medo – faz dele um anjo. Donde vem ele? Do Getsémani: vemo-lo a correr nu. «Procurais o Crucificado? Ressuscitou, não está aqui». Não há no túmulo nada do que esperavam encontrar. A morte não está no lugar onde a conhecemos e a vida não está onde supomos que ela esteja. «Eis porque não há mortos, só há incógnitas» (M. G. Llansol).
O Mestre deixou de estar lá para reunir os discípulos. Quem guardará a palavra? Tudo parece recomeçar com o jovem vestido de branco: se a sua palavra for lembrada e escutada, vai ser ela a reunir aqueles que na Galileia constituem o seu «corpo»: o corpo que saiu do túmulo é um corpo dito e acreditado sobre a palavra, como na última ceia do «mestre» com os «Doze» (…) A palavra continua à solta, como no templo, à espera de uma nova escuta.»
José Augusto Mourão, «Quem Vigia o Vento não Semeia». Ed. Pedra Angular, Lisboa 2011, pág. 260ss (na imagem: Rembradt, «Já era de noite»)
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed