Fundamentos

Gregório de Narek

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A Tradição, no seu sentido Católico (universal), é muito maior do que algumas devoções barrocas. A proclamação de um monge arménio do século XI como Doutor da Igreja é disso sinal.

Não conhecia o nome de Gregório de Marek. Ao saber da notícia da sua futura proclamação como Doutor da Igreja, lancei-me na pesquisa das suas obras. Em Portugal, naturalmente, não encontrei qualquer edição; mas, facto significativo, tampouco encontrei alguma edição sua em Espanha. Apenas em França, na famosa colecção Sources Chrétiennes, é possível encontrar uma edição do seu Livro de Orações.

Não é possível datar com total fiabilidade as datas do nascimento e da morte de Gregório de Narek. De acordo com a tradição, o monge arménio terá nascido por volta do ano 944 d. C., e terá morrido por volta do ano 1010 d. C. Após a morte da esposa, o pai de Gregório, Khosrow, tornou-se bispo de Antsévatsik, na actual Turquia. Por este facto, a educação de Gregório foi entregue ao cuidado do mosteiro de Narek desde os cinco anos de idade. Gregório permaneceria neste mosteiro até à morte.

O seu Livro de Orações foi a última das suas obras escritas, sendo a data de redacção o ano de 1002 d. C. O livro tornou-se numa das obras mais importantes da literatura nacional arménia: no século XIX, a aprendizagem do alfabeto nas escolas arménias dava-se através da leitura e memorização destas orações. Trata-se de 95 orações, de extensão diversa, centradas no Mistério de Deus como Família-Trindade. Algumas destas orações são actualmente recitadas na liturgia arménia.

Transcrevo alguma destas orações, na sua edição francesa. Espero que a beleza destes textos possa transparecer para o leitor, mesmo que não esteja familiarizado com o francês. E esperamos que a proclamação de Gregório de Narek como Doutor da Igreja nos permita conhecer brevemente alguma edição sua em Portugal (acho que a Gulbenkian apoia edições de literatura arménia). Pela descoberta de uma Tradição maior, de um Património e de uma Igreja verdadeiramente Universais (no tempo e no espaço), só poderíamos sair beneficiados.

Quant à moi non seulement je L’invoque
mais avant tout je crois à sa grandeur.

Ce n’est pas pour ses présents
que je persévère dans mes supplications,
mais parce qu’Il est la Vie véritable
et la cause vraie de la respiration,
sans laquelle il n’y a ni mouvement ni progrès.

Ce n’est pas tant, en effet, par l’attache de l’espérance
que par les liens de l’amour que je suis attiré.
Ce n’est pas de dons,
mais du Donateur dont j’ai toujours la nostalgie.

Ce n’est pas la gloire à quoi j’aspire,
mais c’est le Glorifié que je veux embrasser.

Ce n’est pas par le désir de la vie,
mais par le souvenir de Celui qui donne la vie
que toujours je me consume!

Ce n’est pas après la passion des jouissances que je soupire,
mais c’est par désir de Celui qui les prépare
que du plus profond de mon coeur j’éclate en sanglots

Ce n’est pas le repos que je cherche,
mais c’est le visage de Celui qui donne le repos
que je demande en suppliant.

Ce n’est pas pour le banquet nuptial,
mais c’est du désir de l’Époux que je languis.
(12ª Oração)

J’en ai posé les fondements, je l’ai construit, je l’ai ordonné,
Je l’ai meublé, je l’ai ornementé,
J’ai amassé, j’ai acumulé,
Je l’ai dressé, je l’ai exposé;
J’ai façonné en une oeuvre magnifique, homogène,
Les compositions variées de cet écrit fructueux,
Moi, Grégoire, religieux prêtre,
Le dernier des poètes
Et le moindre des Docteurs…
(Memorial do Livro de Orações)

Non seulement Tu T’es inquiété de moi
Mais encore Tu T’es mis à ma recherche.
Non seulement Tu m’as retrouvé, ô Toi qui fais des merveilles,
Mais, par une bonté indicible de ton amour,
Tu m’as porté sur tes épaules vivificatrices,
Et Tu m’as agrégé à l’armée céleste
Dans l’héritage de ton Père.
(15ª Oração)

Tout-Puissant, Bienfaiteur, Ami des hommes, Dieu de tous,
Créateur des être visibles et invisibles,
Toi qui sauves et raffermis,
qui prends soin et pacifies,
ô Esprit puissant du Père,

nous Te supplions et prions, les bras en croix,
avec des cris et des gémissements,
et nous nous présentons ainsi à Toi,
ô Dieu redoutable.

Nous nous approchons de Toi avec grand tremblement
Et une immense crainte
Pour offrir d’abord ce sacrifice de la parole
À ta puissance inscrutable,

En tant que Tu partages le même trône, la même gloire, la même action créatice
Que le Père d’un honneur inviolable,
et en tant que Tu scrutes les profondeurs des mystères cachés
de la volonté très parfaite du Père de l’Emmanuel
qui T’a envoyé, Lui qui est Sauveur et Dispensateur de la vie,
et Créateur de tout.
(33ª Oração)

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