Fundamentos

Hans Kung, «Existencia Cristiana»

Editado por Karl-Josef Kuschel e publicado este ano pela Editorial Trotta, «Existencia Cristiana» reúne uma série de artigos e textos de Hans Kung retirados das suas obras, formando uma colecção muito ampla de temas e reflexões, desde a Igreja ao Ecumenismo e à Etica Mundial. Textos breves e sucintos, permitem, a quem domina o castelhano, introduzir-se no pensamento deste que é sem dúvida um dos maiores téologos católicos vivos e reconhecidos internacionalmente por crentes e não-crentes. De todos os excertos, partilhamos aqui um sobre a figura de Jesus de Nazaré, com a pergunta «Quem foi Jesus?»

«O que pode impedir o seguimento de um Cristo meramente sonhado, manipulado e encenado por nós, dogmática ou piedosamente, revolucionária ou entusiastamente? Qualquer manipulação, ideologização ou mistificação de Cristo tem o seu limite na história. O Cristo do cristianismo – e nuna se insistirá demasiado nisto contra todo o sincretismo antigo ou moderno – não é simplesmente uma ideia intemporal, um princípio de validade eterna nem um mito de significado profundo.

Apenas cristãos muito ingénuos podem congratular-se de ver uma figura de Cristo no Olimpo dos deuses de um templo hindú. À condescendente inclusão do seu Cristo num panteão opuseram-se com todas as suas forças os cristãos primitivos, chegando a pagar por isso inclusive com a sua vida. Preferiram ser chamados de ateus. Na realidade, o Cristo dos cristãos é uma pessoa muito concreta, humana, histórica: o Cristo dos cristãos não é outro que Jesus de Nazaré. É por isso que o cristianismo se baseia essencialmente na história, e a fé cristã é essencialmente uma fé histórica (…)

Ainda que inumeráveis homens tenham experimentado em Jesus uma realidade suprahumana, divina, ainda que desde o princípio se lhe tenham aplicado títulos insígnes, não há dúvidas de que Jesus foi sempre para os seus contemporâneos e para a Igreja primitiva um homem real. Segundo a totalidade dos escritos do Novo Testamento, que são, aparte dos poucos e não muito proveitosos testemunhos pagãos e judeus mencionados, as únicas fontes fidedignas, Jesus é um homem real, viveu num tempo muito concreto e numa área geográfica muito determinada. Mas viveu realmente?

A existência histórica de Jesus de Nazaré, tal como a de Buda, foi várias vezes posta em causa. Grande, ainda que inecessária, foi a irritação que no século XIX provocou Bruno Bauer quando interpretou o cristianismo como uma invenção do protoevangelista e a Jesus como uma ‘ideia’ (…) Mas também as posições extremas têm algo de bom: clarificam a situação e, muitas vezes, neutralizam-se a si mesmas. Assim, desde então, a existência histórica de Jesus não voltou a ser impugnada por nenhum investigador sério. O que, evidentemente, não foi nenhum obstáculo para que escritores pouco sérios tenham continuado a escrever coisas nada sérias sobre Jesus (que Jesus é psicopata, mito astral, filho de Herodes; que estava casado em segredo e coisas semelhantes).

De Jesus de Nazaré temos incomparavelmente mais dados históricos seguros do que dos fundadores das grandes religiões asiáticas (…) Da comparação crítica resultam, com efeito, diferenças surpreendentes: as doutrinas de Buda conservaram-se em fontes que foram escritas pelo menos meio milénio depois da sua morte, quando a religião originária já tinha experimentado um amplissimo desenvolvimento (…)

Do mesmo modo se olharmos para a Europa: o manuscrito mais antigo que se conserva dos poemas de Homero procede do século XIII. O texto das tragédias de Sófocles baseia-se num único manuscrito do século VIII ou IX. Para o Novo Testamento, a distância é muito mais curta, os manuscritos conservados muito mais numerosos, a sua concordância muito maior do que em qualquer outro livro da Antiguidade. Manuscritos muito cuidados dos Evangelhos datam já dos século III e IV (…) Assim, o caminho conduziu da história ao mito e não do mito à história». (pág. 103ss)

Hans Kung nasceu na Suiça em 1928. Professor emérito de Tubinga foi perito no Concílio Vaticano II como teólogo. Após ter sido retirado a licença eclesiástica de ensino, em 1979, desenvolveu um amplo trabalho na área do Ecumenismo e da Ética Mundial, também no âmbito da ONU.

Hans Kung, «Existencia Cristiana», Madrid 2012, 316 págs. PVP: 20,00 

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