Tinha-me prometido não apresentar este livro – porque, ao chegar à Livraria, já estava reservado para um Presbítero que mo havia pedido logo nos primeiros dias de abertura, e trata-se de um livro completamente esgotado no âmbito das Editoras. Mas precisamente por isso, depois de o ler, percebi que o deveria apresentar – até talvez se consiga convencer algum responsável editorial a re-publicá-lo, o que faria todo o sentido no momento em que celebramos os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II, a fonte que sem dúvida inspirou o nascimento do livro.
Trata-se de «Imaginar a Igreja», de Maria de Lurdes Pintassilgo, da editora Multinova, publicado em 1980. O livro está dividido em 3 partes: «Uma fé que se interroga e se diz», «Uma Igreja que se contesta e se procura», «Um cristianismo que se radicaliza e se compromete»; a origem do livro é explicada pela própria autora: «Os textos incluídos na presente colectânea foram escritos entre 1966 e 1975 (…) originalmente destinados a servir de introdução a uma publicação periódica do Graal – o Boletim Igreja-em-Diálogo».
A autora é conhecida o bastante: primeira ministra entre 1979 e 1980 e engenheira quimica de formação, Maria de Lurdes Pintassilgo foi também, com Teresa Clara Gomes, fundadora em 1954 do movimento Graal e representou o movimento, nomeadamente, no III Congresso Mundial do Apostolado dos Leigos em 1967, e simultaneamente foi designada, pelo Papa Paulo VI, representante da Igreja Católica num grupo de ligação ecuménica com o Conselho Mundial das Igrejas (1966-1970). Neste movimento participou activamente pela causa da igualdade social entre o homem e a mulher.
«Imaginar a Igreja»: para a autora, não é uma mera responsabilidade dos pastores da Igreja, através de formas e práticas pastorais, como procura de soluções; também o é. Mas é sobretudo uma missão de toda a Igreja entendida como Povo, pertence à sua própria natureza ser ‘imaginada’. Eis um longo excerto:
«Imaginar a Igreja. Não haverá heresia nesta frase? Ou presunção? Ou idealismo? Pelo contrário, se somos parte da Igreja hoje, somos chamados a ‘imaginá-la’. Para podermos compreender o que é ‘imaginar a Igreja’, precisamos de ir às fontes e de a re-situar no Mistério de Jesus Cristo. A Igreja está simultaneamente ‘feita’ e a ‘fazer-se’; é, ao mesmo tempo, ‘dado’ e ‘devir’; é, dialecticamente, fruto inalienável da Revelação e projecto de futuro, antecipação da realidade escatológica. Em todos os tempos, a Igreja viveu a dupla dimensão de memorial e antecipação. Como memorial, o que é dado em Jesus Cristo atravessa os tempos numa constância de valores e de culto que suporta, sem dificuldade, as renovações que a história e as culturas necessariamente lhe trazem. Como antecipação, a Igreja tem de ser em cada época reinventada. Mas não será trair a história dizer que, em virtude da sua própria dimensão missionária, a Igreja, excepção feita da comunidade primitiva, apareceu mais ao mundo e a si própria como ‘guardiã’ do que como ‘inovadora’.
Hoje, duas redescobertas levam a pôr com insistência a necessidade de ‘imaginar’ a Igreja. Trata-se, por um lado, do reconhecimento no homem de uma capacidade criadora, inventiva, que o define como ser consciente, responsável e, portanto, criador de cultura. O homem da sociedade ‘democrática’ não pode ser um mero beneficiário de direitos. Só pode libertar-se de uma sociedade de chã uniformidade se assumir, como dever, a exigência de criar, de inventar, de imaginar. Por outro lado, o próprio dinamismo interno da Igreja postula uma condição de criatividade e imaginação, tanto ao plano teológico como pastoral. Na verdade, se a Igreja é o Povo de Deus, ela está tanto mais presente e é tanto mais real quanto mais os cristãos forem fenomenologicamente um Povo. Ora um Povo, se vive de tradições e raízes comuns, actualiza-se sobretudo nos acontecimentos – acontecimentos que dão sentido às tradições e revelam em que chão se criaram as raízes. Nesta perspectiva, os cristãos são tanto mais Povo quanto mais viverem o acontecimento de Jesus Cristo não na repetição monótona de formas, ritos e normas, mas na perene ‘novidade do Espírito’. Essa ‘novidade’ é dom do Espírito aos que pelo Espírito e do Espírito vivem. É fruto, pois, da liberdade interior e do esforço de libertação colectiva. O ‘imaginar da Igreja’ radica assim teologicamente naquilo que é genuinamente cristão» (p.53).
Relacionado com este tema está o da liberdade do crente, uma liberdade que Maria de Lurdes Pintassilgo define deste modo: «A liberdade que me distingue como pessoa não é a capacidade de decidir isto ou aquilo (que sei eu dos determinismos, para mim inconscientes, de cada um dos termos de escolha?) mas a capacidade de me reconhecer, me aceitar e me situar. Tal liberdade não é um instrumento a utilizar apenas em circunstâncias especiais da vida – ela é o tecido da minha própria existência. Por isso ela é sinónimo de responsabilidade. Cada acto, cada gesto, cada palavra determinam-me a mim mesmo, aceitam-me ou recusam-me, permitem que eu viva ou que deixe de existir embora ‘sendo’… Posso estar perante um ‘beco sem saída’ e, no entanto, ser aí soberanamente livre se fizer minha, responsavelmente minha, a situação em que me encontro. Neste universo de uma liberdade co-extensiva a toda a realidade humana, mudam de perspectiva todos os problemas de condicionamento. Ao descobrir-se a si próprio, o homem tem de reconhecer que é fruto de tal época, tal cidade, tais amigos, tais acontecimentos. A liberdade é o desenrolar, no anónimo quotidiano, das várias fases dessa penosa descoberta. A liberdade é a conquista, um a um, como que retrospectivamente, de cada condicionamento, sabendo que o oiro traz consigo à superfície uma indiscriminada ganga (só no fim dos tempos o trigo será separado do joio…) A liberdade é a possibilidade de, com a ganga e o oiro nas mãos, formar novos ‘materiais’ e com eles construir a vida» (p.20ss).
Bom, mas qual será, talvez, o tema central que percorre este conjunto de pequenos artigos? Talvez não um tema, mas vários: o compromisso cristão no mundo, que muitas páginas preencheu nos anos 60 e 70, e a actualidade da fé cristã, seriam os que realçava. A autora procura ‘explicar’ a fé em termos de motivação e finalidade: em ambos, Jesus Cristo, «Cristo nosso princípio; Cristo nossa vida e nosso guia; Cristo nossa esperança e nosso fim», nas palavras de Paulo VI. Eis um excerto do livro:
«A fé pode ser ‘explicada’ em termos de uma motivação. Por causa de Cristo, o cristão age como homem e leva tão longe quanto possível o seu empenhamento no mundo. Esta motivação situa-se ao nível muito profundo do centro afectivo da pessoa – como o encontro com alguém que amamos e nos ama transforma, no segredo dos nossos corações, o gosto pelo que fazemos e a maneira como o fazemos… Mas, ao longo do duro caminho da vida, solidário no trabalho e na luta com outros homens, o cristão sente que a motivação se dilui na distância de uma ‘conversão’ remota ou na profundidade escondida do seu ‘eu’. Há um desgaste tal no quotidiano que a motivação, mesmo ‘apaixonada’ um dia, não pode manter-se e colorir tudo de modo diferente. Para que o ‘por causa de Cristo e do seu Reino’ faça realmente diferença, é necessário que a motivação se situe a um nível de intensidade afectiva capaz de moldar decisivamente o pensar e o agir. É neste contexto que pode dizer-se que a fé não é basicamente um sistema de valores – não o é porque os transcende a todos nessa relação afectiva capaz de permear a vida inteira.
A fé pode também ser ‘explicada’ em termos de finalidade. Se Cristo está na origem do querer e do fazer, ele está também no termo de tudo. O cristão ao contribuir para o progresso do mundo, encara esse progresso como meta a atingir. Mas sabe que essa meta não é um fim em si mesmo. A realidade profana, ainda quando atinge a sua máxima autonomia – e sobretudo aí, como o vemos na técnica, realidade secular por excelência – revela uma ambivalência fundamental. Ninguém está certo de que o míssil atinja a lua, de que a fábrica funcione sem interrupção, de que o candidato político não seja morto. O cristão sabe que através dessa ambiguidade está preparando, embora de forma misteriosa, a ‘matéria’ do Reino que há-de vir. Porque se o processo pelo qual se faz evoluir o mundo e as estruturas sociais é um processo autónomo com as suas leis próprias, isso não significa separação entre o mundo e o Reino. Um dia este mundo que hoje trabalhamos renascerá, de forma bem diferente, no Reino que não tem fim. Tudo o que nele tivermos feito vem assim marcado com um sinal orientado, como um vector, para o termo da História. Ser cristão é reconhecer essa finalidade, é acreditar que tudo o que hoje se constrói é não só um esboço de ‘paraíso terrestre’ mas uma pedra na cidade celeste.» (pág. 16ss)
Outros excertos poderíamos aqui incluir – fica de novo a esperança de que alguma editora possa trazer de novo a publico esta ‘pérola’. Termino apenas com as palavras que abrem este conjunto de reflexões, palavras que, mais de 30 anos depois, continuam a constituir um apelo para todo este Povo – palavra que o Concílio deixou como herança para a Igreja (LG 9) – um Povo que precisa, sempre, de redescobrir e ‘imaginar’ a sua Fé e a sua Igreja.
«Que diferença faz ser cristão? É salutar experimentar a vergastada desta interrogação. Para poder ser verdadeira e actuante, criadora do Homem Novo pelo qual se opera a transformação do mundo, a fé precisa de ser contestada em cada momento do devir histórico. Tal contestação, por dolorosa que seja, é necessária. Porque a fé não se acomoda hoje a uma tranquilidade estabelecida, herdada e aceite, num universo feito de permanência: vive-se numa situação de mobilidade – que o mesmo é dizer de procura, de inquietação, de descobertas momentâneas e limitadas. A fé não parece ‘aguentar-se’ mais dentro de um esquema basicamente simples: vive-se numa textura de complexidade – que o mesmo é dizer de expansão e contracção de ideias, de sobreposição de experiências por vezes contraditórias, de intuições com foros de doutrina e de doutrinas com energia interna de normas. Que fazer? Agarrar uns quantos marcos da fé que já vivemos e preservá-los a todo o custo da erosão que as questões levantadas provocam? – Mas a preservação, ainda que tenaz, só poderá conduzir à atrofia…» (p.15).
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