Cruzei-me com o pe. Leonel num período já debilitado da sua vida; e recebi a notícia da sua morte, esta manhã. Recordo a publicação de um livro seu, em 2013, como memória de gratidão.

Leonel Oliveira
ed. Cosmorama | Maia 2013 | 200 págs.
A Cosmorama nasce do esforço do meu amigo José Rui Teixeira, professor na Escola das Artes da Universidade Católica – Porto, uma das poucas pessoas que acredita que, apesar da (e por causa) da crise, continua a ser necessário investir na publicação de obras que ajudem a formar uma consciência humana e cristã. Em «Duma só Coisa quis Saber» são reunidas as conferências e cadernos preparados pelo padre Leonel Oliveira, presbítero da Igreja do Porto com um percurso notável na evangelização e formação de comunidades nomeadamente como responsável do Centro Catecumenal do Porto. O pensamento e a acção do pe. Leonel de Oliveira, no espírito do Vaticano II, foi sempre orientado na formação de cristãos adultos na fé e na consciência evangélica (numa Igreja portuguesa que continua a teimar em reduzir a formação catequética à infância e adolescência), rumo à construção de uma Humanidade mais fraterna. Tive oportunidade de o conhecer, já debilitado pela idade, no contexto da Capela de Fradelos/Centro Catecumenal do Porto, e a sua personalidade continua a interpelar-nos na procura desta Igreja e desta Humanidade…
«Uma outra tentação, um outro vício, que ameaça as Ordens, é o vício corporativo. Há na Igreja grande diversidade de ministérios, responsabilidades, dons e carismas, mas o Corpo é um só, o Corpo de Cristo, cabeça única da Igreja. É preciso contrariar e corrigir a tentação corporativa que ameaça a Comunhão dos Santos e que torna as Ordens estanques e lhes dá uma configuração corporativa, e com o tempo enche a Igreja de castas, o que impede a livre circulação da Graça entre os membros do Corpo de Cristo, como se as Ordens funcionassem em esferas… que aprisionam o Espírito Santo! Há um só corpo, Corpo de Cristo, e o Espírito é o mesmo!» (pág. 39)
1. Duma só coisa quis saber | 2. A atitude obediente na vida pastoral | 3. Reconciliação e Eucaristia | 4. Novas margens no Milénio da Globalização | 5. Comunicação para uma Assembleia da Comunidade | 6. Informação e formação do cristão, em-Cristo e na-Igreja | 7. A passagem | 8. O celibato dos padres seculares | 9. A quem acredita tudo é possível! | 10. Centro Catecumenal da Igreja do Porto
1. Os Cadernos apresentam-se | 2. No país do desassossego | 3. O tetagrama das nossas conjugações | 4. Ninguém quis pedir-nos perdão? | 5. Crianças felizes | 6. Dos olhos que os outros põem em nós aos olhos que nós pomos nos outros | 7. O Mar do Medo | 8. Direitos e respeitos | 9. O regresso às fontes | 10. As três virtudes unificadas | 11. Religião e região | 12. Luz da Luz | 13. Saulo-Paulo e o mistério de Cristo | 14. As religiões diante dos católicos | 15. Os impérios | 15. Pórtico | 15. Volta ao Mundo em 80 linhas
(A introduzir: «Leonel Oliveira, presbítero da Igreja» por José R. Teixeira; a concluir: «Padre Leonel Oliveira: história de um combatente» por Natália Faria).
«Desde o meu curso de Teologia que me sinto devorado pelo desejo de tudo saber, o que se passa, o que se pensa, o que se diz. Foi a Teologia que me despertou para o Mundo, e desde então abri todas as janelas que pude apesar de viver num pequeno país periférico e numa Igreja de trazer por casa, Igreja que está em Portugal e que nunca desprezei mas a que nunca me limitei, Igreja que amei com o maior amor que tenho para lhe dar, mas por quem nunca me deixei domesticar.»
«Voltando ao Seminário, pois sem ele não me consigo explicar, apesar do mal que me fez e do bem que me deu, tenho de dizer que foi ali que descobri a liberdade dos filhos de Deus e da qual depois nunca mais abdiquei por direito próprio, batismal, crismal e eucarístico, e depois, indelevemente presbiteral. O que sempre me valeu, apesar de qualquer coisa que depois aconteceu comigo e à minha volta, foi essa consciência da liberdade dos filhos de Deus e da nossa dignidade presbiteral tão maltratada, tão diminuída, tão reduzida…»
«Nunca reservei as questões difíceis para gente capaz, ainda que tivesse que partir o Pão em pedaços muito pequenos e até de os mastigar primeiro na minha boca como as mães fazem com os filhos pequenos. Apesar da minha admiração por tantas bocas de ouro cujas leituras me deliciam nos meus noturnos, só tenho um modelo para a minha forma de ensinar: Jesus, o modo de todos os presbíteros.»
«A busca como doutrina e como prática da mais eficiente instituição que na Igreja fez Cristãos foi escola de Santos, treinou os Mártires, formou os Doutores, deu à Igreja os seus mais famosos Bispos e, mais tarde, aos Monges, forneceu o quadro vivo da Reconversão, donde partiram, como matriz, e se desenvolveram as escolas da Atividade Teologal. Catecumenato de que a Igreja nunca perdeu o rasto, ainda que lhe tenha perdido a forma sob a avalanche da conversão maciça de povos e nações inteiras. Catecumenato agora necessariamente exigido no crepúsculo da Cristandade e por força das disposições preliminares do Novo Ordo quanto à Iniciação Cristã dos adultos.»
«Os que procuram o Batismo vêm cheios de confusões que arrastaram durante anos, entre as quais a maior é julgarem que a regra é o batismo das Crianças, e que eles já chegam tarde. Caem das nuvens quando lhes dizemos e explicamos que a regra é o batismo dos Adultos e que o batismo das Crianças é a exceção, feliz exceção quando acontece num país como o nosso em que a regra numérica são as crianças… para quem muitas vezes os pais pedem o Batismo por razões de costume familiar e social, nem sempre por razões da Fé. O batismo de uma Criança justifica-se quando os seus Pais são realmente Cristãos, razão por que muitas vezes a Catequese é, como disse Karl Rahner, o grande doutor da Igreja, ‘pura perda de tempo’. Com a Catequese entre nós, um grande número de Pais comete o mesmo erro que com a Escola, onde reina o insucesso escolar, pois em suas casas não há os mesmos interesses culturais intelectuais da Escola. Com a Catequese geralmente acontece o mesmo: falta em casa a Catequese de toda a hora que os meninos batizados tinham o direito e a necessidade de encontrar nos Pais ou, melhor, no Casal…»
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed
Foi com mágoa que tomei conhecimento, aqui em Angola, do passamento do Rev. Padre Leonel, pessoa que admirei em extremo pela profundidade do seu humanismo, pela frontalidade da abordagem que sempre assumiu do papel social da Igreja e pelo muito que fez pelas comunidades menos protegidas do Porto. Não era um homem de esquerda, como soe dizer-se e como outros pretenderam ser, era um Homem de Deus, interventor, incisivo e profundamente compassivo.
Recordo-o como um autêntico Doutor da Igreja, um Homem que sendo muito modesto consigo próprio, trazia o encanto da palavra fácil, lúcida, esclarecida e generosa. Era um verdadeiro Bispo, na acepção completa da palavra, um Pastor do seu rebanho. Foi injustamente punido pelo famoso Bispo do Porto D.António F. Gomes, por ter tido a coragem de por em causa a pastoral que o Bispo quis impor como indiscutível e penou 5 anos em retiro espiritual. Paz à sua alma, ficámos todos mais sozinhos.
Obrigado pela sua partilha Amândio. O site da comunidade da Serra do Pilar está a publicar, regularmente, homilias do pe. Leonel, em forma de memória. Convido-o a visitar: http://www.serradopilar.com. Os melhores cumprimentos
[…] Rahner | Leonardo Boff | Leonel Oliveira | Luciano Manicardi | Luis G. […]