E hoje a Fundamentos está de portas abertas, de novo… Para celebrar a festa da Imaculada Conceição de Maria, um texto do redentorista Calmeiro Matias, de quem gosto muito. Bom fim-de-semana!
Maria não é resultado mágico de uma operação de Deus. Como sabemos, cada pessoa é única, original, irrepetível, livre, consciente e responsável. Isto realiza-se de modo gradual e progressivo. A pessoa humana surge na vida com uma vocação fundamental: realizar-se segundo os melhores talentos que constituem o seu leque fundamental.
Ninguém é herói por receber cinco talentos. Ninguém é culpado de ter recebido um. A heroicidade está na resposta dada a esses talentos. A resposta está acabada no fim da vida de cada pessoa. A pessoa humana é um ser em realização histórica. A diversidade dos talentos não pressupõe arbitrariedade por parte de Deus. Pelo contrário, pressupõe que Deus nos aceita tal como surgimos no concreto da história. Além disso, é no concreto da nossa história pessoal que Deus nos encontra e confia missões, as quais implicam muitas vezes um carácter de excepção.
Foi o que aconteceu com Maria. Ser mãe do Messias é uma excepção. Só uma mulher podia realizar esta missão. Deus consagrou e chamou Maria para realizar esta missão. Como ternura maternal de Deus, o Espírito Santo optimizou a ternura maternal de Maria, a fim de ela amar o Filho de Deus ao jeito do próprio Deus.
A maneira tradicional de falar de Imaculada Conceição fazia de Maria um ser sem mérito próprio. Foi modificada por Deus no momento da Sua concepção sem ter qualquer mérito neste facto. A ideia de Imaculada Conceição de Maria deve ser associada à sua missão de mãe de Jesus.
Maria surge num contexto sócio-histórico concreto. Pertence ao resto fiel de Yahvé. Foi possibilitada no sentido de poder receber a optimização do Espírito Santo e realizar de modo perfeito a sua missão de mãe do Messias. Não é por isto, no entanto, que Maria é heróica. A sua heroicidade radica no facto de ter respondido fielmente aos Seus talentos.
Por ser judia e mulher, Maria recebeu uma série de possibilidades relacionadas com a missão de mãe do Messias: Fé na fidelidade de Deus; Fé na promessa davídica do Messias; Esperança de que ele iria chegar; Simplicidade e abertura à acção de Deus. Era uma mulher do povo, emergiu de gente simples; Por isso não tinha muitos esquemas dogmáticos os quais tentam impor a Deus os esquemas dos homens. Como sabemos, os caminhos do Senhor não correspondem aos dos homens: “Os meus planos não são os vossos planos. Os vossos caminhos não são os meus caminhos, diz o Senhor. Quanto os céus estão elevados acima da terra, assim os meus caminhos estão elevados acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos” (Is 55, 8-9).
As classes dominantes do judaísmo contemporâneo de Jesus opunham uma resistência total ao plano de Deus tal como este estava a ser realizado por Jesus. Pretendiam saber exactamente os caminhos e os planos de Deus. Como a realidade de Deus não correspondia aos esquemas que Lhe queriam impor, excluíram-se do dom de Deus.
Não foi assim que Maria marcou a personalidade de Jesus. Sensibilizou-o para a bondade de coração e a atenção ao sofrimento dos outros. É este o testemunho que João nos dá de Maria (Jo 2, 3-4). Maria também foi condicionada, pois todos nós somos condicionados. No entanto, isto não é pecado. Foi vítima das recusas de amor dos outros. Também isto não é pecado. O pecado consiste em dizer não ao melhor das possibilidades e das propostas de amor que nos surgem no dia a dia da vida.
Os fariseus, os sacerdotes e os doutores da Lei não aceitaram o dom de Deus realizado em Cristo. Resistiram ao dom revelacional do Espírito Santo feito após a Páscoa. Maria, pelo contrário, estava lá com o resto dos fiéis (Act 1, 13-14). É neste sentido que Maria é mediação de evangelho para nós.
Quando Pio IX, em 1854, define o dogma da Imaculada Conceição fá-lo dentro de uma óptica diferente desta. A linguagem utilizada demonstra o universo cultural em que se movia o papa. Eis as palavras da definição: “No primeiro instante da sua concepção, pela graça e privilégio de Deus Todo-Poderoso e em consideração aos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a Virgem Maria foi preservada e isenta de toda a mancha de pecado original” (Denz. 2803).
Vimos já como é importante distinguir aquisição teológica e condicionamento cultural. A aquisição teológica ficou feita com a definição do dogma. Os condicionamentos culturais não foram criados pelo papa, pois faziam parte do contexto cultural vigente. A aquisição teológica radica essencialmente na proclamação da fidelidade de Maria ao plano salvador de Deus. Após a Páscoa, Maria aparece entre o resto dos fiéis de Yahvé. Pertence à comunidade dos santos. Aceita e responde fielmente aos dons de Deus. É mediação de fé para os demais crentes. Faz a transição da antiga para a Nova aliança, coisa que não aconteceu com João Baptista. Coopera com o Espírito Santo para a superação do pecado de Adão, tanto em relação a si como aos que aceitam Jesus Cristo. Não permanece vítima das distorções relacionais do homem velho.
Maria é um modelo fundamental para todos nós. Paulo diz, a propósito da recusa dos judeus, que Deus realiza o seu plano de Salvação universal com o pequeno resto dos que permanecem fiéis (Rum 9, 28-29). Maria pertence a este resto através do qual Deus realiza o seu projecto de salvação universal.
Face ao pecado, o homem pode situar-se como vítima ou como culpado. Segundo a perspectiva bíblica do pecado de Adão, o homem pode situar-se face ao mistério do mal apenas como vítima. Segundo o dogma do pecado original, todos nós fomos vítimas do pecado ainda antes de sermos pecadores. Isto, no entanto, não deve ser entendido em termos de uma mancha na alma, igual para todos. Trata-se de condicionamentos recebidos. Com efeito, os outros condicionam-nos e também nos condicionam.
Não se trata, portanto, de algo que se transmite de modo genético, mas sim de modo relacional. Depende do contexto social, histórico e cultural em que a pessoa nasce e cresce. A pessoa é culpada quando é a autora de uma recusa de amor. Pecar é recusar-se a ser mais humano segundo o melhor das possibilidades recebidas dos demais. Só há recusa quando é possível e nos recusamos. Por vezes, as pessoas são de tal modo condicionadas, que ficam incapazes de realizar, de modo adequado, a missão de homens e mulheres. Neste caso são vítimas. Ao mesmo tempo, são mediações de ritmos negativos para os outros, embora não tenham culpa disso.
Maria surgiu na história dentro de um contexto que a possibilitou para ser uma boa mãe. O Espírito Santo, com seu jeito maternal, capacitou-a para ser uma boa mãe para o Messias. A certeza disto radica no facto de ter acontecido. Com efeito, Jesus foi o Messias generoso que se deu totalmente até à morte. É verdade que a missão messiânica de Jesus não é obra de Maria, mas a personalidade humana de Jesus foi em grande parte modelada pela maternidade de Maria.
Neste sentido, Maria é um apelo para todos os homens. Com efeito, sempre que uma pessoa procura ser fiel aos talentos recebidos, está a ser fiel aos dons recebidos dos demais, está a humaniza-se a si e cooperar com o Espírito Santo para a edificação de uma Humanidade melhor.
Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias www.calmeiro-matias.blogspot.com
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