Fundamentos

Nascer e Morrer à míngua de alto

«O amor maior,sem estratégia,é aquele que dá a vida àquele que ama.O que seduz no cristianismo é esta economia do dom sem medida que o Filho encarna e que a Eucaristia torna presente»(José A. Mourão)

José Augusto Mourão_1

Aquilo que deseja o homem não pode ser trocado contra nenhum dos valores objectivos que é possível adquirir gerindo as suas pulsões. O Outro do desejo não tem preço, não é da ordem do representável, mensurável, comparável, nem da ordem do ter, é da ordem do ser e da falta de ser. Essa alteridade não tem valor mercantil – tem o rosto do Amor. Há em nós um desejo de ser ou de viver que nenhum alimento do mundo pode saciar. O que é desejado em nós não são tanto os objectos de que parecia termos necessidade mas aquilo que subjaz ao fundo de que vivemos, o dom da vida. Este dom não o podemos transformar em valor. É um dom que, sob um fundo de vazio, apela ao dom da presença. É neste presente que nos reconhecemos, feito da paciência ou da alegria dos encontros (…)

Tudo se compra ou vende – é o que se chama satisfação das necessidades mais elementares ou mais dispendiosas e fúteis. Estar satisfeito é ter obtido prazer – a satisfação é a marca de que alguma coisa funcionou bem, a marca de um sucesso. A publicidade faz da satisfação do cliente a finalidade do comércio que gloria: “Se não ficar satisfeito, reembolsamos!” É preciso distinguir a pulsão (ser satisfeito mais ou menos por um objecto de consumo) do desejo (que abre ao encontro entre dois sujeitos que se reconhecem a partir de uma mesma origem).

Bem sabia João Crisóstomo: “os ricos nunca põem termo à paixão da riqueza; os pobres esforçam-se por alcançá-los e assim um frenesim incurável os agrilhoa a todos – até a amizade e o parentesco deixam de contar”. Quaisquer que sejam os valores que adquiramos pelas nossas próprias forças, nenhum valor acrescentado apaziguará a nossa fome ou sede de ser. Ser desalterado não depende do que podemos ter, pensar ou fazer porque a vida recebe-se gratuitamente. (…)

Amar é receber a vida como um dom e não encarniçar-se para conservar o que, inevitavelmente, se perde. A gestão preocupante do futuro é um modo de investimento que faz com que o fim seja aumentar o capital para assegurar o futuro. O que acaba de acontecer é que ao presente do amor se substitui a preocupação obsessiva do futuro. É assim que deixamos de perceber que o presente em que estamos tem o gosto da salvação. O sistema bancário não é a nossa salvação. O Filho do Homem é o corpo de carne atravessado pela Palavra que dá vida desde a origem. Que o Ressuscitado nos dê o gosto da salvação no presente. O amor maior, sem estratégia, é aquele que dá a vida àquele que ama. O que seduz no cristianismo é esta economia do dom sem medida que o Filho encarna e que a Eucaristia torna presente.

José Augusto Mourão, “Quem Vigia o Vento não Semeia”, Lisboa 2012

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