
«O Ladrão e o Querubim: Drama Litúrgico Cristão Oriental»: Introdução de Carlos Nuno Vaz, tradução e posfácio de Joaquim Félix de Carvalho. Ed. Pedra Angular, Lisboa 2012, 112 págs. PVP: 11,00 euros.
«O Ladrão e o Querubim foi traduzido para português porque existe a capela Árvore da Vida. Desde 11 de Setembro de 2011, ficámos mais ricos com a boa notícia da «Capela encantada de Braga», assim intitulada pelo jornalista António Marujo. Ocorria o décimo aniversário dos atentados contra as Twin Towers do World Trade Center, em Nova Iorque. Reviam-se, sem conta, as imagens do horror. Homenagens e leituras políticas colhiam o interesse universal. Quem esperaria o anúncio da edificação de uma capela, na outra margem do Atlântico, em Braga, Portugal? Talvez um resto, animado pela esperança vigilante do profeta Jeremias, que, antes de fixar os olhos «n’uma panela a ferver» — as ameaças campeiam por todo o lado —, vislumbra «um ramo de amendoeira». Deus disse-lhe: «Viste bem.» Porque viu a ‘Primavera’, embora fosse ainda ‘Inverno’.» Joaquim Félix de Carvalho
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No Mistério Pascal (Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, e a nossa vida nesse Mistério), somos levados a uma necessidade de apelar mais à linguagem simbólica e dramática do que à linguagem racional e discursiva – embora esta seja também necessária; caso contrário, este texto não existiria. E o simbólico nada tem de contrário à Verdade – não a esgota. Por exemplo, quando pensamos nos Evangelhos, se calhar temos dificuldades em exprimir o que entendemos pelo Perdão de Deus – mas todos temos na memória a chamada parábola do Filho Pródigo de Lc 15. Aliás, bem aprofundada, com tempo e calma, não só temos esta parábola na memória como nos estremecemos quando escutamos passagens como «quando ainda estava longe, o Pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos». Não se pode falar melhor do Perdão – a não ser com experiências que nós próprios tenhamos na nossa história pessoal.
É neste sentido que encontramos o drama litúrgico «O Ladrão e o Querubim». Este texto vem muito bem acompanhado por uma introdução de Carlos Nuno Vaz e por um posfácio de Joaquim Félix de Carvalho, que foi também quem realizou a tradução. Carlos Nuno Vaz introduz o leitor na origem do texto, na sua natureza literária, na sua mensagem, e acompanha-o com referências a diversos autores da actualidade. Já Joaquim Félix de Carvalho apresenta, na inspiração que o texto «O Ladrão e o Querubim» nos proporciona, a Capela Árvore da Vida, do Seminário Conciliar de Braga, os seus elementos simbólicos e litúrgicos. E, entre os dois textos, somos conduzidos a percorrer a Boa-Nova da Páscoa de Jesus, uma Notícia Boa, Bela de um Mistério Bom e Belo como este Texto/Drama e a Capela Árvore da Vida nos aproximam.
«O Ladrão e o Querubim» é um Texto da Igreja siro-oriental ou caldaica, unida a Roma, de origem apostólica (portanto, com vinte séculos de história, com uma tradição e um rito bem diferentes do rito romano a que estamos habituados), hoje presente sobretudo nos actuais Iraque e Médio Oriente (embora com presença por todo o mundo fruto dos movimentos migratórios, como por exemplo nos EUA e Canadá). O texto é provavalmente do século V. É um texto proclamado normalmente no Domingo de Páscoa ou na Segunda-Feira seguinte, na celebração litúrgica antes da leitura do Evangelho, e é proclamado/representado por dois Diáconos, com o apoio do Coro.
É um Diálogo entre um Querubim e um Ladrão, inspirando-se sobretudo em dois textos bíblicos: o de Gén 3,24 «Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, os querubins com a espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da Vida»; e o de Lc 23,42-43, entre Jesus e um dos malfeitores crucificados juntamente com Ele: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino. Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.» Um dos diáconos coloca-se à entrada do santuário com uma espada, e o outro na nave com uma pequena cruz de madeira escondida na manga. Dá-se o diálogo entre os dois – diálogo que é na verdade uma disputa, entre o ‘Querubim’ que guarda o Jardim, e o ‘Ladrão’ que nele quer entrar. No meio do diálogo, temos uma mistagogia do Mistério Pascal de Cristo e da Humanidade. Nos próximos dias continuaremos a saborear este Texto/Drama e a apresentá-lo por aqui.
«O Querubim: Desde o dia em que Adão saiu / entrar aqui ninguém vi. / A tua estirpe foi expulsa do Jardim. / Tu não entras. Não contestes!
O Ladrão: Desde o tempo em que Adão pecou / contra a nossa raça se irou o teu Senhor, / mas reconciliou-se e abriu a porta. / Que tu permaneças aqui é (agora) supérfluo.» (n.16-17)
«O Querubim: Hoje qualquer coisa de novo vi, / uma procissão que entra no Jardim. / Eis que vi os passos de Adão / que (precisamente) daqui saiu e não mais voltou.
O Ladrão: Jesus, o teu Senhor, fez novidade, / pois libertou Adão que estava preso, / e reergueu os defuntos dos infernos / e enviou-me a precedê-los e a abrir-lhes.» (n.26-27)
Todo o Drama de «O Ladrão e o Querubim» é uma troca de argumentos entre o Querubim que Deus colocou a guardar o caminho da Árvore da Vida (Gen 3,24), e o Ladrão ou Malfeitor a quem Jesus prometeu estar no Paraíso (Lc 23,42-43). Mais uma vez, estamos a lidar com uma linguagem litúrgica, de natureza simbólica, sobre um Mistério de Vida e de Sentido que nos ultrapassa (e que uma notícia de jornal não consegue transmitir-nos). No meio deste diálogo, desta disputa, está o Mistério Pascal de Jesus e, em Jesus, de toda a Humanidade.
A. Gesché, teólogo belga, chamou a atenção para a “sombra” negativa que, por vezes, a mensagem cristã transmitiu sobre a Humanidade – como se uma maldição tivesse recaído sobre esta, como se a Humanidade estivesse irremediavelmente condenada, e apenas por um milagre, pudesse ser salva. Esta compreensão partiu de uma certa leitura dos textos do Génesis, como se o mundo ideal estivesse no princípio, um paraíso terrestre, mas, por uma “queda”, toda a Humanidade ficasse condenada. Erradamente transmite-se esta compreensão à noção tradicional de Pecado Original.
Esta visão é muito comum em diversas religiões e mitologias, mas não é uma visão cristã, ou bíblica. Para a Bíblia, o mundo perfeito está no fim, no cumprimento da história, e não no princípio. Os textos do Génesis não são relatos históricos, mas – outra vez – simbólicos, pretendem ler a realidade presente transportando-a para um relato dos primórdios. E o presente é simples: apesar de o Projecto de Deus ser de uma Criação Boa, Harmoniosa, a verdade é que esta Criação vive marcada pelo pecado – Caím assassina Abel. E não é preciso ser pessimista para ver este facto – assim como não se é optimista negando-o.
Mesmo assim, Deus não desiste da Humanidade, e essa é a grande Boa-Nova bíblica e evangélica. Não porque a Humanidade esteja condenada ou amaldiçoada, mas porque Deus está envolvido na sua reconciliação – na reconciliação da própria Humanidade onde Caím assassina Abel, e onde o Justo é Crucificado, e onde não há outra solução para o Ladrão senão a sua crucifixão. A Humanidade, basta vê-lo, é capaz disto. Mas isso não quer dizer o próprio Deus seja capaz “apenas” disto.
A Ressurreição é toda uma outra realidade, e o diálogo entre o Ladrão e o Querubim está aí para o mostrar. A Ressurreição é o emergir, já na história e para além dela, deste “Jardim” que mais não é do que a Humanidade Fraterna, o Reino de Deus, um Reino e uma Humanidade que vencem a morte. Um Reino e uma Humanidade novos onde o primeiro lugar pertence ao Ladrão. Porque quem se considera sem pecado é o primeiro a lançar a pedra com que mata o irmão (Jo 8,7),e é incapaz de dizer a única oração que nos justifica: «Senhor, tem piedade de mim» (Lc 18,13-14).
«O Querubim: Ó sicário, afinal quem és tu? / Ó assassino, quem te mandou? / A espada flameja contra ti / e uma lança de fogo te vigia.
O Ladrão: Não temas, ó servidor do rei! / Dissolveu-se o teu poder que o Senhor estabeleceu. / Trouxe-te a cruz como sinal. / Observa se é genuíno. Não contestes!
O Querubim: A Cruz de Jesus que me trouxeste, / não me atrevo sequer a vê-la. / Ela é verdadeira e terrível. Não (mais) serás impedido. / Vem e entra no Éden porque Ele assim quis.
O Ladrão: «A Cruz do Filho rompeu a barreira / que ele levantou entre nós e vós. Passou a ira e fez-se a paz / e o caminho do Éden (já) não está interrompido.» (n. 40-43)
Outra das críticas comuns ao cristianismo é a sua visão dolorista, que atribuiria valor ao sofrimento e à morte. Como se o sofrimento e a morte fossem bons em si mesmo… Deste modo estaria justificado o sofrimento das vítimas da história, sofrimento na maioria das vezes fruto da injustiça e da mentira. Porque quando contemplamos a Paixão de Jesus, é a injustiça e a mentira que marcam presença – embora, a suprema Liberdade do Filho seja dar a vida pelo Reino que anunciou. Mais grave seria considerar todo este processo vontade do Pai, como se Pilatos e Herodes fossem mediação de Deus…
Nos primeiros séculos, a Cruz constituía um escandâlo para os cristãos – que tendiam a representar a Jesus de outros modos, como o Bom Pastor ou o Mestre da (nova) Lei. Isto apesar da pregação de Paulo, que fala do escândalo da Cruz (1Cor 11,23) – mas não no sentido de elogio ao sofrimento em si, senão como resposta a todos os messianismos triunfalistas. O “elogio” da Cruz é o elogio ao Filho que, diante da ameaça de morte, não deixa de subir resolutamente a Jerusalém (Lc 9,51). O elogio da Cruz é o elogio da Páscoa que nela tem lugar, da entrega do Espírito (Jo 19,30). O elogio da Cruz é o elogio do Projecto Salvador de Deus que nela encontra o seu Cume, um Projecto de Vida que vence todas as mortes, e sobretudo as mortes de cruz, as de ontem e as de hoje.
E por isso, todos podemos, hoje, apresentar uma pequena cruz de madeira. Uma cruz que dissipa, que transforma em nevoeiro todas as imagens e experiências de um deus violento, de um deus dos violentos, de um deus com espadas de fogo e veredictos de condenação. «Despontou-se a tua espada e perdeu calor», diz o Ladrão ao Querubim (n. 31). Um deus de sistemas que crucificam a ladrões e crucificam a justos – porque a Cruz é a de um Deus que não crucifica a ninguém, ladrões e justos, mas um Deus que está presente nos crucificados. E quando se revela como Juíz, dá o seu veredicto: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso».
Não é o lugar para entrar em estudos de Escatologia, sobre o Tempo de Salvação, o Juízo, os Novíssimos, etc. Nem o Drama de «O Ladrão e o Querubim» tem esse objectivo, como os autores da introdução e do posfácio bem o realçam. É um texto de Contemplação e de Alegria. Porque, ao acompanharmos o diálogo, vamo-nos descobrindo numa Presença, que o Evangelho de João apresenta com o nome grego de Paráclito, e que se traduz por Advogado, Consolador. O Paráclito é aquele que se levanta e se coloca ao lado de um arguido num processo. E poderemos proclamar com Paulo: «Portanto, agora não há mais condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus. É que a lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte» (Rom 8,1-2).
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