No Mistério Pascal (Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, e a nossa vida nesse Mistério), somos levados a uma necessidade de apelar mais à linguagem simbólica e dramática do que à linguagem racional e discursiva – embora esta seja também necessária; caso contrário, este texto não existiria. E o simbólico nada tem de contrário à Verdade – não a esgota. Por exemplo, quando pensamos nos Evangelhos, se calhar temos dificuldades em exprimir o que entendemos pelo Perdão de Deus – mas todos temos na memória a chamada parábola do Filho Pródigo de Lc 15. Aliás, bem aprofundada, com tempo e calma, não só temos esta parábola na memória como nos estremecemos quando escutamos passagens como «quando ainda estava longe, o Pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos». Não se pode falar melhor do Perdão – a não ser com experiências que nós próprios tenhamos na nossa história pessoal.
É neste sentido que encontramos o drama litúrgico «O Ladrão e o Querubim». Este texto vem muito bem acompanhado por uma introdução de Carlos Nuno Vaz e por um posfácio de Joaquim Félix de Carvalho, que foi também quem realizou a tradução. Carlos Nuno Vaz introduz o leitor na origem do texto, na sua natureza literária, na sua mensagem, e acompanha-o com referências a diversos autores da actualidade. Já Joaquim Félix de Carvalho apresenta, na inspiração que o texto «O Ladrão e o Querubim» nos proporciona, a Capela Árvore da Vida, do Seminário Conciliar de Braga, os seus elementos simbólicos e litúrgicos. E, entre os dois textos, somos conduzidos a percorrer a Boa-Nova da Páscoa de Jesus, uma Notícia Boa, Bela de um Mistério Bom e Belo como este Texto/Drama e a Capela Árvore da Vida nos aproximam.
«O Ladrão e o Querubim» é um Texto da Igreja siro-oriental ou caldaica, unida a Roma, de origem apostólica (portanto, com vinte séculos de história, com uma tradição e um rito bem diferentes do rito romano a que estamos habituados), hoje presente sobretudo nos actuais Iraque e Médio Oriente (embora com presença por todo o mundo fruto dos movimentos migratórios, como por exemplo nos EUA e Canadá). O texto é provavalmente do século V. É um texto proclamado normalmente no Domingo de Páscoa ou na Segunda-Feira seguinte, na celebração litúrgica antes da leitura do Evangelho, e é proclamado/representado por dois Diáconos, com o apoio do Coro.
É um Diálogo entre um Querubim e um Ladrão, inspirando-se sobretudo em dois textos bíblicos: o de Gén 3,24 «Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, os querubins com a espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da Vida»; e o de Lc 23,42-43, entre Jesus e um dos malfeitores crucificados juntamente com Ele: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino. Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.» Um dos diáconos coloca-se à entrada do santuário com uma espada, e o outro na nave com uma pequena cruz de madeira escondida na manga. Dá-se o diálogo entre os dois – diálogo que é na verdade uma disputa, entre o ‘Querubim’ que guarda o Jardim, e o ‘Ladrão’ que nele quer entrar. No meio do diálogo, temos uma mistagogia do Mistério Pascal de Cristo e da Humanidade. Nos próximos dias continuaremos a saborear este Texto/Drama e a apresentá-lo por aqui.
«O Querubim: Desde o dia em que Adão saiu / entrar aqui ninguém vi. / A tua estirpe foi expulsa do Jardim. / Tu não entras. Não contestes!
O Ladrão: Desde o tempo em que Adão pecou / contra a nossa raça se irou o teu Senhor, / mas reconciliou-se e abriu a porta. / Que tu permaneças aqui é (agora) supérfluo.» (n.16-17)
«O Querubim: Hoje qualquer coisa de novo vi, / uma procissão que entra no Jardim. / Eis que vi os passos de Adão / que (precisamente) daqui saiu e não mais voltou.
O Ladrão: Jesus, o teu Senhor, fez novidade, / pois libertou Adão que estava preso, / e reergueu os defuntos dos infernos / e enviou-me a precedê-los e a abrir-lhes.» (n.26-27)
Todo o Drama de «O Ladrão e o Querubim» é uma troca de argumentos entre o Querubim que Deus colocou a guardar o caminho da Árvore da Vida (Gen 3,24), e o Ladrão ou Malfeitor a quem Jesus prometeu estar no Paraíso (Lc 23,42-43). Mais uma vez, estamos a lidar com uma linguagem litúrgica, de natureza simbólica, sobre um Mistério de Vida e de Sentido que nos ultrapassa (e que uma notícia de jornal não consegue transmitir-nos). No meio deste diálogo, desta disputa, está o Mistério Pascal de Jesus e, em Jesus, de toda a Humanidade.
A. Gesché, teólogo belga, chamou a atenção para a “sombra” negativa que, por vezes, a mensagem cristã transmitiu sobre a Humanidade – como se uma maldição tivesse recaído sobre esta, como se a Humanidade estivesse irremediavelmente condenada, e apenas por um milagre, pudesse ser salva. Esta compreensão partiu de uma certa leitura dos textos do Génesis, como se o mundo ideal estivesse no princípio, um paraíso terrestre, mas, por uma “queda”, toda a Humanidade ficasse condenada. Erradamente transmite-se esta compreensão à noção tradicional de Pecado Original.
Esta visão é muito comum em diversas religiões e mitologias, mas não é uma visão cristã, ou bíblica. Para a Bíblia, o mundo perfeito está no fim, no cumprimento da história, e não no princípio. Os textos do Génesis não são relatos históricos, mas – outra vez – simbólicos, pretendem ler a realidade presente transportando-a para um relato dos primórdios. E o presente é simples: apesar de o Projecto de Deus ser de uma Criação Boa, Harmoniosa, a verdade é que esta Criação vive marcada pelo pecado – Caím assassina Abel. E não é preciso ser pessimista para ver este facto – assim como não se é optimista negando-o.
Mesmo assim, Deus não desiste da Humanidade, e essa é a grande Boa-Nova bíblica e evangélica. Não porque a Humanidade esteja condenada ou amaldiçoada, mas porque Deus está envolvido na sua reconciliação – na reconciliação da própria Humanidade onde Caím assassina Abel, e onde o Justo é Crucificado, e onde não há outra solução para o Ladrão senão a sua crucifixão. A Humanidade, basta vê-lo, é capaz disto. Mas isso não quer dizer o próprio Deus seja capaz “apenas” disto.
A Ressurreição é toda uma outra realidade, e o diálogo entre o Ladrão e o Querubim está aí para o mostrar. A Ressurreição é o emergir, já na história e para além dela, deste “Jardim” que mais não é do que a Humanidade Fraterna, o Reino de Deus, um Reino e uma Humanidade que vencem a morte. Um Reino e uma Humanidade novos onde o primeiro lugar pertence ao Ladrão. Porque quem se considera sem pecado é o primeiro a lançar a pedra com que mata o irmão (Jo 8,7),e é incapaz de dizer a única oração que nos justifica: «Senhor, tem piedade de mim» (Lc 18,13-14).
«O Querubim: Ó sicário, afinal quem és tu? / Ó assassino, quem te mandou? / A espada flameja contra ti / e uma lança de fogo te vigia.
O Ladrão: Não temas, ó servidor do rei! / Dissolveu-se o teu poder que o Senhor estabeleceu. / Trouxe-te a cruz como sinal. / Observa se é genuíno. Não contestes!
O Querubim: A Cruz de Jesus que me trouxeste, / não me atrevo sequer a vê-la. / Ela é verdadeira e terrível. Não (mais) serás impedido. / Vem e entra no Éden porque Ele assim quis.
O Ladrão: «A Cruz do Filho rompeu a barreira / que ele levantou entre nós e vós. Passou a ira e fez-se a paz / e o caminho do Éden (já) não está interrompido.» (n. 40-43)
Outra das críticas comuns ao cristianismo é a sua visão dolorista, que atribuiria valor ao sofrimento e à morte. Como se o sofrimento e a morte fossem bons em si mesmo… Deste modo estaria justificado o sofrimento das vítimas da história, sofrimento na maioria das vezes fruto da injustiça e da mentira. Porque quando contemplamos a Paixão de Jesus, é a injustiça e a mentira que marcam presença – embora, a suprema Liberdade do Filho seja dar a vida pelo Reino que anunciou. Mais grave seria considerar todo este processo vontade do Pai, como se Pilatos e Herodes fossem mediação de Deus…
Nos primeiros séculos, a Cruz constituía um escandâlo para os cristãos – que tendiam a representar a Jesus de outros modos, como o Bom Pastor ou o Mestre da (nova) Lei. Isto apesar da pregação de Paulo, que fala do escândalo da Cruz (1Cor 11,23) – mas não no sentido de elogio ao sofrimento em si, senão como resposta a todos os messianismos triunfalistas. O “elogio” da Cruz é o elogio ao Filho que, diante da ameaça de morte, não deixa de subir resolutamente a Jerusalém (Lc 9,51). O elogio da Cruz é o elogio da Páscoa que nela tem lugar, da entrega do Espírito (Jo 19,30). O elogio da Cruz é o elogio do Projecto Salvador de Deus que nela encontra o seu Cume, um Projecto de Vida que vence todas as mortes, e sobretudo as mortes de cruz, as de ontem e as de hoje.
E por isso, todos podemos, hoje, apresentar uma pequena cruz de madeira. Uma cruz que dissipa, que transforma em nevoeiro todas as imagens e experiências de um deus violento, de um deus dos violentos, de um deus com espadas de fogo e veredictos de condenação. «Despontou-se a tua espada e perdeu calor», diz o Ladrão ao Querubim (n. 31). Um deus de sistemas que crucificam a ladrões e crucificam a justos – porque a Cruz é a de um Deus que não crucifica a ninguém, ladrões e justos, mas um Deus que está presente nos crucificados. E quando se revela como Juíz, dá o seu veredicto: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso».
Não é o lugar para entrar em estudos de Escatologia, sobre o Tempo de Salvação, o Juízo, os Novíssimos, etc. Nem o Drama de «O Ladrão e o Querubim» tem esse objectivo, como os autores da introdução e do posfácio bem o realçam. É um texto de Contemplação e de Alegria. Porque, ao acompanharmos o diálogo, vamo-nos descobrindo numa Presença, que o Evangelho de João apresenta com o nome grego de Paráclito, e que se traduz por Advogado, Consolador. O Paráclito é aquele que se levanta e se coloca ao lado de um arguido num processo. E poderemos proclamar com Paulo: «Portanto, agora não há mais condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus. É que a lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte» (Rom 8,1-2).
«O Ladrão e o Querubim – Drama litúrgico cristão oriental». Introdução de Carlos Nuno Vaz, Tradução e posfácio de Joaquim Félix de Carvalho. Ed. Pedra Angular, Lisboa 2012, 112 págs.
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