Fundamentos

O Peregrino Querúbico

A nossa escrita sente-se presa quando nela o tema é Deus. Experimentamos como que um pudor, um gosto pelo formal, a preocupação pela opinião correta (de onde deriva ortodoxia, do grego orto – correta, e doxa – opinião). Receamos o impacto que as nossas palavras possam ter na pessoa que nos escuta ou lê, indagamos sobre as possíveis conclusões ou consequências. Que oportunidades concedemos a nós mesmos para escrever – ou recitar, ou traçar, ou desenhar – o Divino, sem outra intenção senão a de fazer percorrer diante de nós as palavras, os gestos, os sinais?

Não sabemos muito sobre este escritor de nome Angelus Silesius (1624-1677), cujo nome de batismo era Johannes Scheffler. Nasceu e viver na região alemã da Silésia, atualmente território polaco. Formado em medicina, converteu-se ao catolicismo (a sua família era luterana), e trabalhou na corte do imperador Fernando III. Renunciando ao seu rico património familiar, foi ordenado presbítero em 1661, e iniciou um fecundo percurso como escritor espiritual. O Peregrino Querúbico é o seu escrito imortal.

Trata-se na verdade de seis livros, que Silesius escreveu de um modo intervalado no tempo. Cada livro é formado por um conjunto de breves sentenças que procuram induzir no leitor, sem necessidade de explicações ou comentários, um breve gosto do Divino. Trata-se de breves pensamentos de fulgor, muito marcados pela experiência da Graça, nos quais este alemão do período conturbado da pós-Reforma convida os discípulos a perderem os medos e pudores que os impedem de se lançar num caminho espiritual. Por isso estas sentenças possuem uma forte marca paradoxal: os cumes mais arrojados da revelação bíblica encontram no Peregrino um enorme património de ecos, significados, pronúncios, a começar pelo próprio ser de Deus…

“Sou tão grande como Deus. Ele é tão pequeno como eu.
Ele não pode estar sobre mim, nem eu sob Ele” (I.10).

“Deus é a realidade mais pobre: é completamente só e livre.
Por isso digo em verdade que a pobreza é divina” (I.65).

“O amor é senhor de tudo. Inclusive a Trindade
Lhe foi submetida desde toda a eternidade” (V,241).

“O próprio Deus está sedento. Tu O fazes sofrer
E não o sacias, como o fez a Samaritana” (I.160).

Pode a nossa linguagem sobre o rosto de Deus formar-se também da indigência? Será que a indigência, a pobreza, a pequenez ou a impotência pertencem ao ser divino? Será que foi d’Ele que as recebemos, não sendo afinal uma marca da nossa experiência humana? Será que o próprio Deus pede de beber, submetido ao ser de Amor? Que rosto, que experiência transportamos do divino em nós? Não apenas nas nossas palavras, atividades ou serviços, mas nos juízos que criamos, nas seguranças que estabelecemos, nas comparações com que nos ocupamos.

“Deus dá-se sem medida. Quanto mais O desejarmos,
Mais Ele se oferece e se entrega” (III.70).

“Quem diz que Deus se afasta do pecador
Manifesta claramente que ainda não conhece a Deus” (V,94).

“Deus, cujo gozo é, oh homem!, estar contigo,
Prefere entrar em tua casa quando tu não estás” (V,33).

A literatura espiritual alemã viveu do excesso. Já os escritores medievais (Eckhart, Tauler, as Beguínas, Hildegarda) gostavam de superar as fronteiras do correto na hora de expressar os dons de Deus. A sua preocupação foi sempre a de fazer sair de si mesmos àqueles que os escutavam, de superar o âmbito de um cristianismo medíocre, rotineiro, satisfeito de si mesmo e autojustificado. Ser cristão não é o último passo, as virtudes são um caminho útil mas não suficiente, a correta conduta moral não conduz à beleza da vida, do cosmos e da história: “falta-te uma só coisa: vai, vende tudo o que tens, e segue-me”…

“Se eu pudesse receber o mesmo que Cristo,
Ele me permitiria que o conseguisse de imediato” (I.128).

“Não invoques a Deus! O manancial está em ti.
Se não obstruíres a saída, brotará sem cessar” (I.55).

“A palavra que Deus te escuta com mais agrado
É quando dizes com todo o coração: que se faça a tua vontade!” (I.232).

O excesso habita, assim, a linguagem, como habita também a liturgia, o testemunho, o amor. Ao contemplar, em Jesus, o excesso maior da Encarnação, da kenosis, da Páscoa e das bem-aventuranças, percebemos claramente como o nosso discurso se torna repetitivo, moderado, centrado em preocupações que não são nem centrais, nem vitais, nem fecundas. Preocupamo-nos mais com a lógica do princípio, meio e fim do que com as questões abertas, a fecundidade do diverso, a força das imagens e das parábolas.

Nas sentenças, quadras e símbolos do Peregrino Querúbico somos conduzidos num caminho de descoberta enamorada e apaixonada de um Deus que não conhece as reservas, os limites, as defesas e os motivos que norteiam o nosso agir. Percorrer as páginas bíblicas da revelação do Divino é encontrar uma história de salvação que nos envolve, nos abraça e nos eleva sem outra justificação que a do seu Amor. Por isso a nossa vocação se encontra no renascer batismal, nas águas fecundas e primordiais que conseguem, apenas elas, renovar e recriar o Homem Novo. E no seu coração encontra-se o mistério de uma Graça, de uma presença divina que é feminina e maternal, a única que não justifica nem compreende as inumeráveis guerras religiosas que marcaram a história alemã dos séculos XVI e XVII e que continuam a marcar a nossa história.

“Oh doce banquete! O próprio Deus será o vinho,
O manjar, a mesa, a música e o criado” (I.207).

“A rosa é sem porquê. Floresce porque floresce.
Não presta atenção a si mesma. Não pergunta se para ela olhamos” (I.289).

“Deus pronuncia uma só palavra, a mim e a todos:
Ama! Se o fizermos por sua mediação, ser-lhe-emos agradáveis” (II.228).

“Deus nasce de Deus. Se há-de gerar-te,
Deves primeiro ceder-Lhe a tua vontade” (VI, 129).

Não encontramos no Peregrino um compendio de verdades, um catecismo bem articulado, um manual de vida cristã que define os nossos dias e horas. A sua linguagem é a da pura gratuidade. A leitura que nos pede é algo de ativo: ler bem não é repetir ou memorizar, como não é esquecer ou examinar; ler, aqui, é permitir que uma Palavra nova e eterna encontre eco e espaço, corpo e caminho no nosso respirar.

“Amigo, basta! Se quiseres ler mais,
Vai, e converte-te tu mesmo em escritura e em essência” (VI,263).

 


(…)
Para aprofundar:
” Não existe, infelizmente, uma edição completa do Peregrino Querúbico disponível em português. É possível ler uma breve antologia desta obra em Angelus Silesius, A Rosa é sem porquê (org. José A. Mourão), Lisboa, ed. Vega 1991.

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