Numa conferência pronunciada em 1965, no encerramento do Concílio Vaticano II, o teólogo alemão Karl Rahner lançou a pergunta: o que aconteceu, onde estamos, o que será o futuro? E passados quase 50 anos?

Em Janeiro deste ano (foi a primeira novidade do ano na Fundamentos), a Editorial Franciscana publicou em formato de livro de bolso uma conferência pronunciada pelo teólogo alemão Karl Rahner a 12 de Dezembro de 1965 em Munique, quatro dias depois do encerramento do Concílio Vaticano II, com o título «O Concílio, começar de novo». O influente teólogo católico inicia a conferência com a pergunta: «O que aconteceu, onde estamos, o que será o futuro?», para reflectir, junto do seu auditório, sobre o significado do Concílio para a Igreja Católica.
À pergunta «o que aconteceu?», Rahner responde com o «Concílio da Liberdade». Foi verdadeiramente a expressão da Liberdade da e na Igreja, da Colegialidade dos Bispos, do encontro com as realidades contemporâneas, na re-descoberta do Evangelho. Descreve o autor: «Foi um Concílio: uma assembleia autónoma com iniciativa própria, plural, espontânea e livre, que, no entendimento da fé católica, colabora com a sua cabeça, o Primaz da Igreja, que exerceu e respeitou essa liberdade, não permitindo que a comunidade dos seus irmãos bispos descesse ao nível de uma assembleia de améns e de aplausos acríticos. A cooperação entre o Papa e o Concílio, segundo o entendimento católico, não se pode reduzir a uma instituição de procedimentos jurídicos». E o teólogo deixa uma advertência para o futuro: «A instituição do Sínodo dos Bispos, caso não se torne um órgão meramente consultivo, poderá considerar-se na sua essência teológica um Concílio, realizado com mais frequência».
À pergunta «onde estamos?», Rahner responde com um «ponto de partida»: torna-se necessária a aplicação concreta, na vida da Igreja, das decisões conciliares. Tornam-se proféticas as suas palavras lidas quase 50 anos depois: «Vai durar muito tempo até que a Igreja, que foi agraciada por Deus com o Concílio Vaticano II, se torne a Igreja do Vaticano II». O Concílio é um «começar de novo»: «O de fazer o que dissemos, de sermos o que nos comprometemos perante o mundo: de passar das palavras aos atos, das leis ao espírito, das formas litúrgicas à verdadeira oração, das ideias à realidade»
«O que será o futuro?» À pergunta, responde o teólogo: «O Concílio e todo o imenso e necessário trabalho de reformas é só um serviço e uma preparação. Este serviço não tem como objectivo a afirmação da Igreja no futuro, mas a verdadeira grandeza do homem e sobretudo a proximidade do Reino de Deus, como um simples serviço à fé, à esperança e à caridade». A realização do Concílio significa, paradoxalmente, a relativização da Igreja ao serviço de Deus e da Humanidade: as realidades maiores de sentido. Aquele que foi designado como o «Concílio da Igreja» tem, no seu sentido último, a dinâmica de tornar a Igreja cada vez mais o «grão de mostarda» do Evangelho na realidade diária de cada cristão e comunidade. Conclui o autor: «seria necessário um concílio para este objectivo? Também era necessário um concílio».
50 anos depois, a mesma pergunta: «O que aconteceu, onde estamos, o que será o futuro?»
Karl Rahner, «O Concílio, começar de novo». Ed. Franciscana, Braga 2013, 61 págs.
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