Fundamentos

«O que devo fazer por Cristo?»

A partilha de hoje pretende apenas ser isso:uma partilha.Trata-se de uma «Carta a um bom cristão sobre a crise económica» de José I. Faus sj, que traduzi para português.Aqui fica,para quem for útil.

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Os livros (como tudo o resto) poderão exercer, no meio desta situação, duas funções: o de estupefaciente, no sentido de distrair, de passar o tempo, de alhear da realidade; e o de formar consciências, de ver melhor a realidade, de procurar pistas para o caminho…

É neste último sentido que vejo o recente livro do jesuíta catalão José Ignacio G. Faus: já octogenário, com um percurso notável na teologia, Ignacio Faus dedica agora o seu ministério ao centro de estudos Cristianisme i Justicia com um campo de acção e reflexão sobre a Ética Social e a resposta cristã à Crise. Neste sentido o livro (que reúne uma série de artigos, conferências e textos inéditos) é de um tom crítico tremendo, quase “caústico” em relação à desinformação no que toca às causas da crise e às suas “soluções” (li-o numa viagem de comboio, e fez-me cair mal o pequeno-almoço…).

No meio do livro vem esta «Carta a um bom cristão sobre a crise económica». A princípio não pensei em partilhá-la, por se tratar de algo exigente que, à partida, devemos preocupar-nos mais em aplicar na nossa própria vida. Mas depois de no passado domingo ter visto sair de uma celebração da Eucaristia (em que eu próprio estive) a um cristão, membro do grupo Justiça e Paz da comunidade, a conduzir um novíssimo e comprido mercedes com matrícula de Fevereiro deste ano (e não se tratava de um taxista!), pensei que talvez a tradução da carta pudesse ser útil… Aqui fica.

Carta a um bom cristão sobre a crise económica

Querido José Luís:

Nos últimos exercícios que fizeste comigo disseste publicamente na Eucaristia do último dia como te tinham impressionado as clássicas perguntas que S. Inácio propõe: o que fiz por Cristo? O que faço por Cristo? O que devo fazer por Cristo? Não tive tempo para falar mas, agora que me recordas o que aconteceu pedindo-me uma reacção, gostaria de sublinhar-te que «fazer por Cristo», tomado a sério, não é fazer algo pela Igreja ou pelo Papa (ainda que seja bom), ou rezar mais: porque quando rezamos, na realidade, fazemos «por nós próprios» já que a oração alimenta-nos, e a Deus nada mais podemos oferecer do que o nosso abandono confiado e o amor com que Ele nos ama.

«Fazer por Cristo» é fazer algo pelos pobres, pelos sofredores, pelas vítimas e, para concretizar, digamos que é fazer algo pelos que estão a pagar a crise económica. Acredita que eles são os verdadeiros «rostos de Cristo» (como disse a Assembleia Episcopal de Puebla em 1979) ou os autênticos «vicários de Cristo», muito mais do que os Papas.

A pergunta então torna-se tão séria que não basta procurar um propósito ou uma acção concreta das que cumprimos para tranquilizar a consciência. Trata-se antes de procurar uma «mudança de mentalidade» (que seria a melhor maneira de traduzir a palavra bíblica «conversão»). Procurar aquilo que pedia S. Paulo: «Tende os mesmos sentimentos (ou a mesma mentalidade) que encontrais em Cristo Jesus». Mais à frente falaremos disso. Mas agora vamos por partes.

O que fiz por Cristo?

Muitos cristãos rezam pela crise. Deixa-me dizer-te que isso não serve para nada: aqui continua em vigor o clássico refrão «a Deus rogando e com o bastão dando». E ainda que eu não subscreva tudo o que diz Torres Queiruga sobre a oração de petição, sim acredito que tem toda a razão quando escreve com ironia que as petições das nossas missas deveriam formular-se assim: «Ainda que não sirva para nada, peçamos pelos desempregados, etc.» Pedir a Deus uma coisa não é pedir-lhe que trate Ele disso, é pedir-lhe que nos faça a nós tratarmos disso dando-nos luz, calor e força para isso. Se não, não serve para nada. E torna-se irónico que depois de tanto nos terem insistido quando éramos crianças que às vezes não pedimos «como convém», e por isso não sermos escutados, agora seja a própria Igreja a que nos faz orar como não convém. Aqui não se cumpre aquela coincidência tão antiga entre a lei de orar e a lei de crer.

Muitos cristãos responderão também a esta pergunta com esmolas ou donativos à Cáritas. É correcto. E é muito bonito ver como a solidariedade dos cristãos com esta instituição benemérita cresceu durante a actual crise. Não obstante devemos perguntar-nos se fizemos tudo o que devíamos. (Redigidas estas páginas, surge agora com grandes títulos na imprensa que Amancio Ortega acaba de doar 20 milhões à Cáritas. Seja bem-vindo o dinheiro e tenho a certeza de que a Cáritas fará o melhor uso possível dele. No entanto devemos recordar o seguinte: primeiro, a cena evangélica na que Jesus, vendo os ricos a deitar sonoras moedas no tempo e a seguir uma pobre viúva que dava apenas duas moedas, afirma que esta deu mais porque os outros deram do que lhes sobrava e ela deu do que precisava para ela. Pois bem, Amancio Ortega tem uma fortuna avaliada em 36 mil milhões de euros (a terceira do mundo, dizem): em relação a este valor, 20 milhões não chega nem à milésima parte. Segundo, podemos recordar aquele velho refrão do nosso Renascimento: «O senhor dom Juan de Porres / de caridade sem igual / por amor para os pobres / construiu-lhes um hospital / mas antes… tornou-os pobres».

O que faço por Cristo?

Aqui creio que seria bom reformular a pergunta deste modo: que mentalidade tenho diante da crise, ou se temos diante da crise económica os mesmos sentimentos que Cristo. Eu temo não os ter e tento deixar-me questionar por essa pergunta.

Para compreender melhor esta pergunta (e antes de concretizar), gostaria que te desses conta da frequência com que a linguagem bíblica une a inteligência e o coração na hora de denunciar ou pedir algo: não se trata de erramos num nível tendo correcto o outro (por exemplo, por incoerência ou por ignorância…), mas de uma dupla falha na que um elemento potencia as falhas de outro; não é que sejamos débeis e não façamos o que sabemos que deveríamos fazer; antes, trata-se de, não fazendo o que deveríamos, o justificamos como sendo o que é necessário fazer. «Ficou enevoado o seu coração insensato», diz Paulo dos pagãos no começo da sua carta mais famosa. Também na Carta aos Efésios, capítulo 4, encontrarás uma descrição da antiga vida pagã dos novos conversos ao cristianismo que o autor qualifica como «mente seca» e «coração endurecido»: quando o coração se nos seca, é quando a mente fica necrosa, por assim dizer. E eu penso que isto hoje valeria para uma infinidade de cristãos. Primeiro, vale para todos os responsáveis últimos da nossa crise: a sua sensibilidade, o seu coração está obscurecido, e por isso é um coração «insensato».

Gostaria que, a partir desta unidade, a pergunta sobre o que fizeste até agora pelas vítimas desta crise se converta numa pergunta prévia: com que mentalidade a estamos a enfrentar, e se algo deve mudar nessa mentalidade. As perguntas que agora te sugiro pretendem ajudar a essa mudança de mentalidade, se é que necessitas de o fazer.

1. Pessoalmente, esta crise afectou-me ou sei apenas que existe pelas notícias que se ouvem? Se não estás a sofrer a crise na tua própria carne, pergunta-te: já parei para pensar a que se deve a minha situação privilegiada? Deve-se a viver numa situação injusta de privilégio, na qual tive sorte, por mérito próprio…? Mas, depois, diante de Deus, como se estivesses a confessar-te, examina: Considero sincera essa resposta que costumo dar a mim próprio, ou esconde algo que não quero reconhecer? Já parei para pensar sobre o que se diz acerca das causas desta crise? Acredito tranquilamente que todos foram igualmente culpados pelo afã de viver acima das nossas possibilidades? Dedico o mesmo tempo a informar-me sobre as causas crise como dedico às partidas de futebol de domingo?

Seja qual for a resposta anterior, creio que a posição afortunada na qual me encontro me impõe alguma obrigação? Qual ou quais? Diria que a resposta que dei a esta segunda pergunta é suficientemente generosa? Posso fazer algo mais por Cristo?

2. Na segunda hipótese, quer dizer, se a crise me afectou, examina o como: tocou a minha vida pessoal ou a de algum dos meus seres queridos (filhos, irmãs, amigos…)? Se é o primeiro caso (chegou à minha vida pessoal), qual foi a minha reacção global? Procurei maneiras escapar aos cortes e demais cargas impostas pelas políticas contra a crise? A quem deito a culpa? Que parte poderei eu próprio ter por ela?

Se é o segundo caso (vivi a crise em pessoas queridas), mudei alguns juízos ou pontos de vista anteriores? Quais? Procurei ajudar os demais a carregar as suas cargas? Procurei (como dizia Etty Hillesum no campo de concentração) «ser bálsamo para tantas feridas»? Como?

3. E se este tipo de perguntas te ajuda a pôr a nu a tua mentalidade e ver se é conforme à de Cristo ou não, então será o momento de passar à última questão.

O que devo fazer por Cristo?

Sei que isso não deverei ser eu a ditar-to porque só terá valor o que brotar em ti a partir de uma liberdade libertada e porque não conheço plenamente todos os detalhes da tua situação e, além disso, gostaria que esta resposta tenha valor para mais pessoas além de ti. Apenas te pediria que não te limites a vislumbrar acções pessoais tuas, mas que penses também em actos com repercussão estrutural. Nestes momentos os cristãos, pelo menos o que querem sê-lo e não apenas chamar-se, estamos obrigados a procurar acções colectivas, globais, ou pelo menos comunitárias. Porque o bem (como dizia S. Inácio) quanto mais universal é mais divino se torna. E porque actuando conjuntamente podemos ter muito mais força diante do pecado estrutural na nossa sociedade.

Por exemplo, imagina que um grupo de cristãos que o pode fazer se associa para fundar algum tipo de empresa cuja única finalidade seja criar postos de trabalho, sem qualquer beneficio além do necessário para que a empresa subsista. Isso seria aquilo que o Evangelho chama de «vender o que tens e dar aos pobres). Mais ou menos assim foram nascendo as famosas cooperativas de Mondragón, prescindindo do juízo que poderão merecer hoje. (Há uns dez anos, o Uruguai vivia uma profunda crise económica com uma taxa de desemprego de 17%; um grupo de comunidades cristãs uniu-se para pôr em marcha uma pequena empresa de microcréditos, na linha de Yunus, o Prémio Nobel do Bangladesh. Em pouco tempo a taxa de desemprego baixou para os 5% e o Governo acabou por assumiu aquela iniciativa. Um bom exemplo de como podería actuar a Igreja num estado laico).

Ou imagina que outros cristãos e pessoas de boa vontade se reúnem para conhecer e difundir opiniões e informações alternativas contra todo o sensacionalismo tão «politicamente correcto» dos nossos media, e contra toda essa mentalidade de «machismo económico» que culpa por toda a crise o consumo irresponsável dos cidadãos, sem reconhecer quanto eles fizeram e enganaram para potenciar esse consumo que era a fonte da sua riqueza. Chamo a isso machismo porque me recorda essa mentalidade tão comum de que, quando há uma mulher violada, a culpa foi, à partida, dela.

Em qualquer hipótese, terás de examinar também o teu nível de vida. E recordo-te duas coisas: o ensino da Igreja antiga que costumo formular com duas palavras: jejuar para ajudar. E depois a decisão de Simone Weil durante a última guerra mundial (e antes, quando foi professor numa localidade em França onde se produziu uma greve de operários) de não comer mais do que ela imaginava que comeriam os soldados na frente ou os operários na greve. Não direi que isso seja uma lei, mas poderá bem ser um ponto de referência.

Bom, José Luis, tenho de ir mas já vês por onde poderão ir as tuas reflexões. Hoje discute-se muito sobre a eficácia da oração de petição, mas posso assegurar-te que se, com sinceridade, pedires todos os dias ao Espírito para fazer por Cristo tudo o que te for possível neste campo, acabarás por encontrar caminhos.

Um abraço

José Ignacio González Faus sj

 

in José I. G. Faus, «Amor en tiempos de cólera… económica». ed. Khaf, Madrid 2013, págs. 169-175

 

One Comment

  1. Filomena Tristão
    Julho 3, 2013

    O que devo fazer por Cristo.Adorei o artigo .Agradeço que mo enviem,por e-mail
    Obrigada

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