Fundamentos

Os Padres do Deserto

Há palavras que, hoje, nos amedrontam. Palavras como solidão, silêncio, tentação, deserto, demónios, humildade. Pertencemos à geração da comunicação, das redes sociais. Como refere o filósofo norte-americano George Steiner, vivemos com mais intensidade o pôr-do-sol, os ritmos noturnos e as luzes das cidades, do que o nascer-do-sol; e, por isso, somos uma geração cansada.

Será por isso que as longínquas figuras das Madres e Padres do Deserto nos permaneçam tão desconhecidos quanto a sua linguagem nos assusta. Tão depressa o seu movimento se multiplicou como, três séculos depois, praticamente desapareceu; e era precisamente isso que eles desejavam e procuravam: desaparecer. Nas suas almas estava impresso o bilhete de identidade de Jesus, traduzido por Paulo:

«Ele, que é de condição divina,
não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
no entanto, esvaziou-se a si mesmo,
tomando a condição de servo.
Tornando-se semelhante aos homens
e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem,
rebaixou-se a si mesmo,
tornando-se obediente até à morte» (Fil 2, 6-8).

Convém-nos uma pequena apresentação histórica: quem foram os Padres do Deserto?
Ano de 313 d. C.: o édito de Milão restabelece o direito de cidadania e de culto aos cristãos no império romano. De perseguidos e marginalizados (sempre em graus variáveis, dependendo das províncias e das épocas), o cristianismo passará, no espaço de um século, a constituir a religião oficial do império. Imperadores convertem-se, os episkopos recebem funções de governo civil, os templos e escolas pagãos são progressivamente encerrados, e os pedidos de batismo multiplicam-se na mesma medida em que diminui a exigência de preparação e conversão.

O que à maioria pareceu uma vitória do Reino dos Céus na história, a uma pequena minoria representou um perigo mortal. Ao mesmo tempo que as catedrais das grandes cidades de então (Alexandria, Cesareia, Antioquia) se enchem de batizados, um pequeno e persistente movimento parte em direção aos desertos do Egito e Médio Oriente. Na sua viagem transportam o desejo de uma radicalidade na vivência do Evangelho que as cidades, na sua opinião, já não permitem. Para que os cristãos continuem a ser o sal e o fermento, e não uma massa amorfa.

Foram milhares os que viveram sós, em pequenas comunidades, com a única tarefa de, tão somente, se enfrentarem aos demónios que, segundo eles, todos levamos dentro – a rejeição de todas as formas de distração conduz a este realismo psicológico: hoje falamos de feridas, traumas, defesas, pulsões, medos…

«O deserto é fértil», exprimiu um dia o bispo brasileiro Pedro Casaldáliga. Nas periferias do Nilo, do Mar Morto ou do Sinai, milhares de mulheres e homens dedicam-se ao trabalho manual, aos salmos e à busca incessante da oração silenciosa – aquela que se purificou, quer das nossas palavras e pensamentos, quer das palavras e ideias que atribuímos a Deus ou sobre Deus. Uma radicalidade sem precedentes, sem regras, sem tradições que a enquadrem num equilíbrio humano e social: tal viria séculos mais tarde com as ordens monásticas no ocidente e no oriente cristãos, encarregues de preservar este património transmitido pelos Pais no seio de lutas tremendas.

O deserto não é um lugar de retiro, de reflexão espiritual ou de bonitos pensamentos e decisões: o deserto é lugar de nudez e de verdade. Nas mentes destas mulheres e destes homens – muitos deles analfabetos, quase todos leigos – seguiam os relatos de João Batista, que no deserto atraía as multidões em busca da verdade de Deus, mas também de Jesus, que nele viveu quarenta dias, «conduzido pelo Espírito Santo». Hoje gostamos de dizer (e de nos confortar) que Jesus não se afastou do mundo, que foi ao encontro das pessoas a anunciar o Reino de Deus; esquecemo-nos de que grande parte das páginas dos Evangelhos são percorridas por lutas, por curas e exorcismos, e por parábolas pequenas e incisivas: no fundo, pela verdade do que somos.

Desta fulgurante experiência – no século VIII já havia, tão somente, vestígios – ficaram-nos Ditos e Feitos, transmitidos por tradição oral ou manuscrita, de pequenas histórias, sentenças e mensagens, pérolas de sabedoria limadas pela cruel experiência do silêncio. No seu centro está a busca de uma oração silenciosa – não somos nós que andamos em busca de tradições orientais para aprendermos a silenciar a nossa mente? Uma oração constante, na sua simplicidade mais crua, balbuciada com as pequenas vogais e suspiros de uma criança. No fundo, uma oração liberta das imagens, desejos e projetos com que preenchemos a nossa experiência de Deus e do nosso ego.

«Não é preciso falar muito durante a oração,
mas devemos estender com frequência as mãos e dizer:
‘Senhor, tem piedade de nós,
como tu quiseres e souberes’.
Quando a tua alma estiver angustiada, diz: ‘Ajuda-me’.
E Deus far-te-á misericórdia,
Porque Ele sabe o que nos convém». (Macário do Egipto)

Conhecer-se em verdade a si mesmo, na crueza da sua alma, significa baixar todas as pedras de arremesso – como podemos encontrar no relato de João 8, 1-11. Paradoxalmente, a difícil linguagem dos Padres do Deserto convida-nos a uma constante desistência de todos os juízos e condenações, precisamente por apontarem a radicalidade à sua própria vida – uma radicalidade que apenas conduz a conhecer melhor ainda as nossas fraquezas e debilidades. Os Padres representam autênticos mestres de misericórdia, porque, no final, dá-se sempre a plena experiência da misericórdia de Deus – revelada, quanto mais não seja, no dom da vida, e na graça de seguir os passos do Evangelho. Talvez a diária contemplação do céu estrelado no seio do deserto permitisse a estas mulheres e a estes homens terem uma imagem da imensidão do Cosmos e do mistério divino diante das nossas pequenas ambições, querelas e máscaras.

«Disse o pai Isaac: ‘Do mesmo modo que um grão de areia não pesa tanto como uma grande quantidade de ouro, assim também em Deus a exigência de um justo juízo não pesa tanto como a sua compaixão. Como um punhado de areia no imenso mar, assim são as culpas da humanidade face à providência e misericórdia de Deus. Da mesma forma que uma sobreabundante nascente não pode ser tapada por um punhado de pó, também a compaixão do Criador não pode ser vencida pelo pecado da criatura’».

Se te aproximares destas vidas e dos seus Ditos e Feitos, facilmente te encontrarás com uma linguagem difícil, recheada de termos que te ferem os ouvidos e a mente. Não te afastes à primeira tentativa. Reconhece que se trata de um outro tempo e espaço, de uma linguagem feita de síntese, de brevidade, de urgência, como que transmitida no corpo de batalha da oração quando face-a-face com tudo o que nos habita: no fundo, algo de parecido ao que acontece no encontro com os Evangelhos, naquelas passagens difíceis em que Jesus parece não querer facilitar o nosso cristianismo fácil e burguês. Numa leitura imediata tudo te parecerá estranho e difícil; depois, à medida que mergulhares, começarás a reconhecer-te nestas batalhas, lutas e exigências. Finalmente, terás a tua sede atenuada – mas nunca completamente saciada, graças a Deus! É por ela que não deixas de buscar… – atenuada por pequenas e saborosas pérolas de sabedoria, lucidez e esperança, aqui e ali dispersas no seio do texto.

«Deixa-te perseguir, mas tu não persigas;
deixa-te crucificar, mas tu não crucifiques;
deixa-te ultrajar, mas tu não ultrajes;
deixa-te caluniar, mas tu não calunies.
Sê alegre com os que se alegram;
chora com os que choram.
Tal é o sinal da verdadeira pureza.
Sofre com os que sofrem;
compadece-te dos pecadores;
e alegra-te com os que se arrependem.
Sê amigo de todos…
Estende o teu manto sobre aqueles que vês cair em pecado e cobre-os;
e se não podes carregar sobre ti o seu erro,
e receber em sua vez a punição,
não os oprimas mais» (Isaac de Nínive).

Para aprofundar, aqui fica o convite:
• «Ditos e Feitos dos Padres do Deserto», org. Cristina Campo e Piero Draghi, trad. Armando S. Carvalho. Assírio&Alvim 2003, 264 págs.
• «A Via da Misericórdia na Sabedoria dos Padres do Deserto», org. Isidro Lamelas. Universidade Católica Editora 2016, 127 págs.

Texto publicado aqui: http://www.imissio.net/artigos/59/541/magazine-imissio-n-3-do-tempo-livre-a-libertacao-do-tempo/

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