Fundamentos

Poesia na Liturgia

5-Mourão-Nome e a forma

  O Nome e a Forma: Poesia Reunida.

José Augusto Mourão, Ed. Pedra Angular, Lisboa 2009, 319 págs.

Esta semana gostaria de propor um livro de um estilo diferente… José Augusto Mourão (1947-2011), presbítero dominicano, foi professor na Universidade Nova de Lisboa, especialista nas áreas de literatura e linguística. Entre o seu ministério, Mourão desenvolveu uma arte infelizmente muito pouco comum em Portugal: a criação de poesia em contexto litúrgico. Explico: para nós a liturgia (sobretudo a celebração da eucaristia) é muitas vezes vista como algo que executamos ou reproduzimos, um esquema pré-definido a que temos de assistir; quando muito, colocamos uns símbolos ou gestos ou cantos extras. Mas José A. Mourão desenvolveu um corpo de poemas para rezar e/ou cantar em momentos litúrgicos, numa riqueza criativa ao mesmo tempo sóbria, bem formada e profunda, como o explica José T. Mendonça no prefácio ao livro: «José Augusto Mourão foi durante anos escrevendo textos litúrgicos ou nessa atmosfera, que hoje constituem «um corpo, um tom, um ritmo, uma singularidade enunciativa».

No centro deste «corpo» poético está a difícil experiência de tratar a Deus por Tu – uma experiência que podemos testemunhar neste conjunto de poemas. Partilho dois poemas, de um livro que me tem acompanhado, pessoalmente, neste Tempo Pascal, na difícil tarefa cristã da oração – de tratar a Deus por Tu.

a vida é mais do que a vida

a vida é mais do que a vida | cinzenta, crua, vingativa | a vida é mais do que a vida | se testemunha da Fonte de onde corre | e do júbilo de existir

a vida fala do que a transporta | da fé a que todo o Amor se arrima | a vida fala do que a transmuda | e do devir que não nos prende à prisão do tempo

por isso nos reunimos | navegando nos olhos uns dos outros | para olhar através da janela de cada casa | e cada rosto | o Aberto, a paz-desejo

cure-nos a água da tua misericórdia | da cegueira do suficiente e do proselitismo | rompa o teu Sopro as cortinas | da casa murada e defendida | do medo que nos tolhe e até a alegria rouba

e que a Palavra nos aproxime | daquilo que do bem e da beleza nos afasta

páscoa de páscoas

I.  Deus, Páscoa de páscoas, | Deus da nossa noite do coração, | do deserto que nos paralisa, sem visões de água | ou rumores de gente ou história, | dá-nos a coragem de avançarmos pela água dentro | porque vais à frente do nosso medo | e a profecia que visa a justiça nos precede

transforma a parte do nosso dia a dia | feito de medo e de cansaço e de impiedade, | transforma a nossa fuga em festa iluminada!

venha a tua Páscoa e realizem-se as figuras | por que visivelmente te dizemos, | sem a arrogância sabática dos apocalípticos

que a tua Palavra nos intime e mova | a nascer de ti cada dia, | Deus que vens do futuro e passaste a morte glorioso

é a ti que cantamos, | na comunhão do Espírito criador, | e é a tua bênção que invocamos, | Pai, Filho e Espírito Santo

II.  Deus, tu que nos conheces | dos nossos murmúrios, | dos nossos silêncios usados, | das lágrimas | e desencorajamentos,

desperta-nos, | nós que avançamos para a fonte da tua Cruz, | a fim de que possamos glorificar-te na alegria | e servir-te na esperança | hoje e sempre

@wpshower

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