É o título de um artigo de Marie Dominique Chenu, perito no Vaticano II, e publicado em Portugal em 1969 no livro «Sessenta problemas de Fé e Moral».Vale a pena ler,quase 45 anos depois

As encíclias sociais dos Papas dos últimos oitenta anos, desde Leão XIII a Paulo VI, nunca foram bem recebidas por certos ambientes, cujo conservantismo económico e mental não aprovava – quer por uma inércia inconsciente, quer por uma oposição consciente e propositada – o movimento proposto pelos Papas. Assim, já Leão XIII tinha sido acusado de ter feito concessões ao socialismo.
O que a dúvida diz é, porém, verdade: a oposição à «Populorum Progressio» (de Paulo VI) foi mais vasta e mais viva, enquanto que contemporaneamente outros, chamados socialistas, se felicitavam pelo empenho e determinação mostrada pelo Papa na luta pela justiça, pela paz e fraternidade, num mundo que, por um lado, se vai unificando por meio da técnica e, por outro, se vai separando em dois blocos, um constituído pelos países cada vez mais ricos e o outro pelos países cada vez mais pobres. Tal situação é um escândalo intolerável para um cristão e isto explica o vigor dos protestos contra Paulo VI.
«Marxismo ardente», definiu-o grosseiramente um grande jornal financeiro de Nova Iorque, Wall Street Journal: «O que é triste é atribuir um carácter religioso a este marxismo ardente e que tem poucas perspectivas de se traduzir nalgum auxílio para a maior parte das nações pobres».
E o conhecido semanário Time declarava que «certas passagens da encíclica adoptam o tom acre da polémica marxista do princípio do século (contra o direito de propriedade)». Com um pouco mais de deferência os fautores da economia liberal, por sua vez, rejeitaram tanto a inspiração como as afirmações e a competência do Papa neste campo.
Quais são os motivos desta oposição? Esclarecendo-os e analisando-os, vemos melhor o sentido e o alcance da encíclica, que vai mais longe do que os documentos anteriores.
Em primeiro lugar, notemos que é a primeira vez que um documento pontifício entra deliberadamente no campo económico falando do desenvolvimento. É verdade que o desenvolvimento interessa a todo o homem, compreendidos os seus valores supremos culturais e espirituais, mas, a não ser que se torne uma mistificação, é, antes de mais, uma realidade económica: alimentar os homens, vesti-los, ter cuidado deles e dar-lhes alimentação.
Ora, até aos nossos dias, os documentos pontifícios tinham em vista o campo social e, por isso, eram denominados encíclicas sociais. A sua doutrina é certamente válida; porem se nos limitamos a isso, corre-se o perigo de não ter na devida consideração as causas económicas subjacentes em tais fenómenos sociais.
As soluções sociais apresentam-se então como remédios para uma realidade cujas estruturas não são tomadas em consideração. Daqui um reformismo de vistas curtas, deixando intactas as estruturas malsãs da produção e da distribuição dos bens. Aqui estão os limites de um certo «cristianismo social» e a razão da sua ineficácia, no seu moralismo abstracto. O documento de Paulo VI apresenta, ao contrário, uma índole inteiramente diferente com o seu realismo humano.
Por conseguinte, a encíclica dirige o seu diagnóstico e a sua crítica às próprias estruturas da economia actual. Denuncia duramente o “sistema” e não só os seus excessos e os seus erros.
«Sobre estas novas condições da sociedade, instaurou-se infelizmente um sistema que considerava o lucro como motor essencial do progresso económico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos meios de produção como direito absoluto” (n.º 26).
Foi esta crítica severa que provocou a reacção daqueles que organizam e dirigem precisamente este regime: lucro, troca livre, apropriação dos bens de produção. Reflectindo bem, não é uma reacção que surpreende.
Marie Dominique Chenu
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