No início de um novo ano, não nos faltam os propósitos e objectivos. Neste sentido, o jesuíta Franz Jalics apresenta-nos uma releitura da parábola da Videira e dos Ramos, do rendimento e das preocupações.
Franz Jalics é um jesuíta húngaro, que nos acompanhará regularmente nos próximos tempos. Nascido em 1927, e radicado na Argentina, tem dedicado a sua longa vida à orientação de exercícios espirituais, numa linha de aprendizagem da oração através do Nome de Jesus. Pelo meio foi um dos jesuítas presos durante a ditadura militar que governou a Argentina na década de 70.
O excerto que se segue é retirado do seu livro «Ejercícios de Contemplación», editado em Espanha em 1998 e já na sua 3ª edição. Boas leituras!
Muitas vezes esquecemo-nos de nos centrarmos em Deus devido à pressão que exerce sobre nós o afã pelo rendimento. No evangelho, Jesus descreve a sua relação com os Apóstolos através da metáfora da videira (cf. Jo 15,1-8). Ele representa a videira e os apóstolos os sarmentos. Os que dão fruto são purificados pelo agricultor, quer dizer, pelo Pai. Os que não dão fruto são podados. O núcleo da metáfora alude à necessidade de se orientar para Jesus.
Qual é a função do sarmento? Deve produzir uvas, o que significa que toda a sua força será conduzida nesta direcção. O sarmento teme não dar frutos suficientes no devido tempo; preocupa-se com a sua sobrevivência. Perante este temor, o sarmento lança-se na producção de uvas, o que implica uma forte pressão para render cada vez mais. Submetido a essa pressão, nada mais faz do que ocupar-se dia e noite em produzir frutos.
No inverno, quando ainda não chegou o momento de o fazer, o sarmento encontra-se absorvido na planificação da produção das suas uvas. Imagina mil e uma vezes como as uvas deverão ser, como poderão crescer melhor e com maior rapidez e como conseguirão um sumo mais doce. E quando se vão formando os primeiros frutos, o sarmento trata de induzir mais seiva neles.
Compara as suas uvas com as dos outros sarmentos e convence-se de que as dos outros são maiores. Lamenta-se de que, pela falta de chuva, não poderá obter uvas mais saborosas. Volta a compará-las com as do vizinho e queixa-se, pois parece-lhe que o sol brilha sobre aquelas mais do que sobre as suas. Quanto mais teme pelos seus frutos, quanto mais ronda à volta dos seus problemas, mais se esforça por aumentar a sua seiva, e tanto menor é a força vital que penetra nas pequenas uvas.
Jesus também afirma a necessidade de que as uvas cresçam, mas vê como os sarmentos se submetem à pressão, cheios de inquietude, temores e problemas, e se atormentam por avançar numa direcção equivocada. O sentido da parábola consiste em dizer aos ramos:
«Basta! Não é assim! Tendes de dar uma volta de 180 graus. Em vez de vos concentrardes nas uvas, comunicai-vos com a videira. Assim a força desta correrá através de vós e podereis dar bom fruto. Sereis libertados da pressão por render cada vez mais e de comparar-se com os demais, e as tensões cederão. Tudo o que fazeis é ocupar-vos de vós mesmos, das vossas penas e dos vossos êxitos. Voltai atrás, comunicai com a videira!
Mantende-vos unidos a ela com todos os sentidos e todas as forças. Ela se ocupará de que possais dar bom fruto. Estando tão absorvidos nas vossas coisas, não vos dais conta de que há muito tempo se cortou a comunicação com a videira e já não flui a força vital dentro de vós. Voltai-vos para a fonte e tudo vos será dado. Recebereis sol, chuva, força de vida e uma colheita abundante sem necessidade de dar algo em troca.
Estais enganados se pensais que as uvas crescem pela eficácia dos vossos próprios esforços. É a força da videira que actua através de vós. Basta a estreita união com ela. Afastai a vossa atenção das uvas e dirigi-a para a videira.»
Nós somos os sarmentos. Por detrás do afã de rendimento, dos nossos desvelos e temores, dos nossos pensamentos em torno a nós mesmos e das nossas pressões internas por tudo obter, esconde-se uma atitude essencialmente errada. Pensamos que devemos estar na origem de tudo. Mas é Deus que está na origem de tudo. Os lírios não sofrem desvelos. Deus os veste esplendorosamente. O nosso único desvelo deveria consistir em estar sempre junto d’Ele.
Em vez de nos preocupar-nos com nós próprios, o nosso rendimento, a nossa sobrevivência, devemos antes orar: «Senhor, ocupo-me de ti. Tu ocupa-te dos meus problemas. Coloco-me inteiramente nas tuas mãos. Que a tua força actue dentro de mim». É assim que as mesmas actividades se poderão realizar sem preocupações, sendo necessário apenas examinar com quem estabelecemos contacto visual: se connosco próprios, ou se com Deus.
Não devemos tornar-nos perfeitos, mas sim comunicar-nos com o Perfeito. Através desta comunicação Deus poderá actuar em nós. Ele transforma-nos se fixarmos nele a nossa atenção.
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Este livro está traduzido em português ?
De momento não está editado em Portugal. Os melhores cumprimentos