Fundamentos

Sobre as lágrimas de José

Chorar de alegria, chorar diante de um gesto de reconciliação (…) significa dar um lugar ao sofrimento, deixar de proteger-se dele, seja odiando-o ou negando-o.

Joseph_Sold_by_his_Brothers_by_Francesco_Maffei,_San_Diego_Museum_of_Art

As lágrimas de José (Génesis 37-50), desde o seio da passividade mais passiva que a passividade da matéria da qual emanam, mostram que qualquer emoção excede as palavras. E esta emoção – diante dos seus irmãos e logo diante do seu pai – mistura indissociavelmente a alegria e a dor: José chora a sua dor durante muito tempo mantida em segredo, em primeiro lugar para si mesmo, no instante em que a sua ferida recebe um bálsamo que a torna finalmente suportável; chora também de alegria, pois acaba de ocorrer o inesperado (a força do amor superou nele a tentação da vingança e do ódio).

Como sublinha o midrash, no final dos tempos, quando Israel voltar a encontrar-se com Deus, com as lágrimas de alegria se misturará a memória dos sofrimentos suportados nas terras do exílio. “Voltarão em choros, os trarei com suspiros” (Jer 31,9). No entanto, no caso presente o sofrimento ligado à memória da terrível inveja ou do ódio dos irmãos não faz José chorar senão no momento em que a felicidade lhe permite não ser destruído por tal sofrimento.

Chorar de alegria, chorar diante de um gesto de reconciliação, diante da elevada nobreza, por exemplo, daquele que “se transcende e se eleva por cima da sua prudência e das suas precauções” (E. Levinas, sobre a visita do presidente egípcio Sadat a Jerusalém), arriscando a sua vida, para actuar a favor da paz, significa dar um lugar ao sofrimento, deixar de proteger-se dele, seja odiando-o ou negando-o.

A derrota do ódio nunca faz chorar àqueles que se acostumam a ele, a tal ponto de sucumbirem aos seus atractivos e deixarem de acreditar que alguma verdade possa revestir as cores da esperança. Mas faz chorar de alegria os olhos daqueles que, sem ignorar as façanhas vertiginosas do mal de que os homens são capazes, se deixam no entanto surpreender pela fragilidade do bem, que por vezes   acaba por, quase sempre de forma inesperada, iluminar as vidas.

Catherine Chalier, Tratado de las Lágrimas, Salamanca 2007 (na imagem: José vendido pelos irmãos, Francesco Maffei – séc. XVII)

One Comment

  1. candida batista
    Abril 11, 2015

    Algo de belo mesmo, me emocionou , bastante

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed