Uma Carta curiosa e, sobretudo, belissima, num livro belíssimo: de Rafael Ansón, Presidente da Academia Espanhola de Gastronomia. Em «50 Cartas a Dios», ed. PPC, Madrid 2007 (5ª edição), pág. 20.
«Escrevo-te, Senhor, estas linhas que só te distrairão uns minutos do teu precioso tempo. Dirijo-me a ti como presidente da Academia Espanhola de Gastronomia, pois as cozinhas das comarcas e das Comunidades Autónomas de Espanha têm muitíssimos motivos para mostrar-te o seu agradecimento. Quero prestar-te tributo, meu Deus (‘invisível evidente’, como te chamou Víctor Hugo), autor de todos os milagres. Actuo em representação do mundo da cozinha espanhola, desses homens e mulheres que lutam diariamente para reivindicar uma variada, colorida e muito rica dispensa.
Sob a tua mão protectora, o Mediterrâneo, o Cantábrico e o oceano Atlântico são cada vez mais pródigos e generosos. As suas fecundas águas oferecem-nos tesouros magníficos que não só chegam aos quatro confins do mundo, como também contribuem para o prestígio e a boa imagem de Espanha em todo o planeta. O mesmo pode dizer-se da abundância das nossas hortas, na minha opinião o mais parecido que existem com a mítica Jauja, das quais procedem legumes, verduras e frutas de qualidade inquestionável (…) Agradeço-te, Senhor, que, sob a tua supervisão e o teu consentimento, a Natureza nos tenha providenciado com tão imensas possibilidades que contribuíram, a tornar a nossa vida muito mais saudável e agradável.
Não obstante, não quero, Senhor, dar-te a impressão de que vivemos no melhor mundo dos possíveis, pois não é assim. Consta-me que são muitas as desigualdades que suscitam a tua preocupação, e inclusive geram a tua fúria. Que este país (e o mundo inteiro) continuam a ser cenário de injustiças, de miséria e de falta de equidade, cuja eliminação se encontra escrita a vermelho, como prioridade absoluta, na tua agenda diária. Porque sei que és solidário com todos, especialmente com as pessoas que padecem fome e para quem prestar atenção à gastronomia torna-se pouco menos que insultuoso. Tu, Senhor, sempre estiveste do seu lado e condenaste a conducta de quem rejeitou sempre qualquer convite a partilhar. Porque os tesouros da Terra são de todos e a todos devem beneficiar.
Por isso peço a tua bênção para os esforços que estamos a realizar para melhorar a alimentação das pessoas, para que haja acesso universal aos melhores produtos, com a máxima garantia de qualidade. Não te pedimos que repitas agora, Senhor, o maravilhoso milagre dos pães e peixes (umas das obras mais perfeitas do teu Filho, Jesus Cristo, e fonte de inspiração e objectivo último de todos os cozinheiros que existiram no mundo ao longo dos séculos), mas sim peço-te que nos ajudes no nosso trabalho para que possamos desfrutar não apenas do direito inalienável à alimentação, como também do imenso bem que é a boa mesa como lugar de intercâmbio e encontro, como sempre foi, consta-me, a tua máxima aspiração para o género humano. Peço-te, Senhor, a tua intercessão na nossa muitas vezes difícil tarefa.»
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed