«Depois dele ninguém é residente, mas todos são refugiados à espera de um visto. Somos nós, bem nutridos do ocidente, a coluna de estrangeiros em fila para lá do último guichet.» por Erri de Luca…

Brian Kershisnik, Nativity (2006 – via www.patiodosgentios.com)
Assim nasceu e permaneceu vivo graças ao único prodígio de que não foi autor. Por toda a vida, pouca, procurou acertar a conta daquela injustiça até se fazer suspender sobre um obsceno patíbulo romano que expunha a morte no alto, à vista, manifesta. Nunca teriam podido imaginar, aqueles conquistadores, que espécie de ícone estavam a montar sobre o Gólgota.
Teriam pedido o exclusivo dos direitos de reprodução.
Durante toda a vida, pouca, foi habitado por uma multidão de meninos que não o chegaram a ser, e pela dor das suas mães. Assim pôde suportar a da sua mãe aos pés da cruz. Muitos dos seus prodígios eram brincadeiras de crianças que brincavam aos doutores, a salvar a natureza curando de repente lepra e estropiamentos. Eram milagres, mas não colossais, não impediu o movimento da máquina do céu como Josué, que parou o sol em Gabaòn e a lua sobre o vale de Aialòn.
Não abriu as águas como Moisés, mas sobre estas caminhou sem se molhar.
Não criou o fruto da videira, mas soube, numa festa, vindimar vinho da água.
Não criou o sol, o fogo, nem a lua, nem estrelas já criadas, mas deu a vista aos cegos, e este é um modo de inventar a luz.
Não teve filhos, não procurou descendência, mas litigou com a sua irmã morte e arrancou-lhe da mão um corpo já no sepulcro, fazendo-o voltar atrás para reviver, sim, mas também para voltar a morrer. Foi baptizado em água doce, amou a pesca, andou com pescadores, encheu-lhes as redes, aplacou as ondas de uma tempestade no lago de Tiberíades, que os seus chamavam Mar de Cetra. Das sagradas escrituras preferiu Isaías; de David gostou mais dos salmos que das façanhas. Era seu descendente, porque assim o quer a lei do Messias. Na sua linha de antepassados aparecia uma mulher cananeia, Tamàr, e uma moabita, Rut, porque o Messias é mestiço, não é um puro-sangue.
Pediu ao ofendido que oferecesse a outra face, colocando o ofensor em risco de ridículo, mas ao mesmo tempo estabeleceu um limite para a prova: duas, e não mais, são as faces. Não escreveu, não ditou, as suas palavras faziam a viagem das abelhas sobre as pétalas abertas das orelhas. Salvou uma mulher condenada à lapidação pedindo aos seus acusadores que o primeiro dentre eles, desde que puro de pecados, se chegasse à frente com a primeira pedra. Sabia que os homens atiram com prazer as segundas. Diversas mulheres o seguiram de lugar em lugar juntamente com os apóstolos. Não pediu abstinência, o celibato veio depois, feito pelas igrejas.
Suou sangue, morreu com todo o corpo resistindo à morte com nervos, sopro, febre, chagas e moscas circundando a agonia. Ressuscitou por inteiro, carne, osso e promessa de ser o primeiro dos que estão destinados à ressurreição.
Nascesse hoje, e seria num barco de imigrados, atirado ao mar juntamente com a mãe à vista da costa de Puglia ou da Calábria.
Talvez continue a nascer assim, sem sobreviver, e o vinte e cinco de Dezembro seja apenas o mais célebre dos seus aniversários. Depois dele o tempo reduziu-se a um entretanto, a um parêntesis de vigília entre a sua morte e a sua nova vinda. Depois dele ninguém é residente, mas todos são refugiados à espera de um visto. Somos nós, bem nutridos do ocidente, a coluna de estrangeiros em fila para lá do último guichet.
in Erri de Luca, Caroço de Azeitona, Lisboa 2009

O ano em que a sua mãe o deu à luz não era santo. Os seus, os hebreus, tinham como lei consagrar um ano em cada sete deixando em descanso o solo. O seu ano de nascimento não pertencia ao ciclo dos sabáticos, ao ritual imposto pelo verbo shabbàt, suspender.
Não nasceu num momento de alegria, mas durante uma viagem, uma deslocação forçada. O seu povo amava as peregrinações e colocava-se de boa vontade a caminho para honrar uma qualquer festividade, Páscoa ou outras, em Jerusalém. Mas ele não nasceu numa peregrinação. Os seus deslocavam-se por um dever triste e insidioso: obedecer a um recenseamento.
Hoje estamos habituados a ser contados, inscritos e arrolados em elencos, a arrumar em muitas distinções numéricas. Alguns de nós estimamos como justo, como por escrúpulo de consciência, tirar as impressões digitais de mulheres e homens chegados até nós de fugas sem fim. Por isso, como modernos, não podemos entender o medo dos hebreus de então, a ruína que já tinham experimentado quando um dos seus reis tinha ousado contar o povo junto do qual Deus tinha plantado primeiramente uma tenda, e depois um templo. Aquele rei obteve números errados e sofreu o castigo de uma epidemia. Os hebreus estavam assim já de pé atrás contra a arrogância de dar um número aos seres humanos.
Quando nasceu, o seu povo era súbdito da potência militar romana e devia, como tal, submeter-se à contagem imposta pelos conquistadores, como cabeças de gado. Não eram marcados, isso não, mas como ferrete bastava a águia romana cravada sobre os seus lugares sagrados.
Os seus pais estavam em viagens em direcção ao sul, andavam pela Judeia numa etapa forçada. Não eram admitidas excepções, e mesmo uma mulher em estado tão avançado de gravidez devia chegar ao seu lugar de contagem, enfileirada com todos os outros. Assim partiram de Nazaré dois e em Belém tornaram-se três. Nasceu. A sua mãe tinha tido as contracções ali mesmo, os seus músculos expulsores obedeceram a um lugar predisposto e prescrito: em Belém de Judá deve nascer o Messias, o mais esperado intruso do mundo. Não era sabático aquele ano, nem de peregrinação era a viagem dos seus pais.
Nasceu sob a cauda e auspício de um cometa, que não era sinal de boa sorte, segundo as crenças e superstições antigas. Hoje em dia, sobre os presépios coloca-se a estrelinha com a cauda em ouro para conforto da noite, mas então o cometa foi um cruel holofote que denunciava lugar e acontecimento. Escreve Mateus que três estrangeiros vieram de um outro Oriente para registar o prodígio já anunciado pelos seus cálculos, trazendo ofertas solenes dignas do nascimento de um rei.
O rei em exercício, Herodes, ressentiu-se, e teve medo de uma usurpação. Ordenou uma matança de crianças, entre os zero e os dois anos, em Belém e em todo o território circunstante. Foi uma medida extrema e ineficaz: já se tinha demonstrado, desde Moisés, que escapa sempre alguém, o justo, que é a síntese de todos os que foram mortos. Quem se torna o restante de inumeráveis ausentes assume e contém as energias daquelas vidas impedidas. Fazer milagres é então só um pequeno ressarcimento.
Em sonhos, um anjo avisou seu pai da insídia, e assim fugiram de noite sem esperar a alba, o que explica o motivo pelo qual José não avisou ninguém do sonho e do perigo. Não explica por que razão o anjo não visitou também qualquer dos outros pais: tinha autonomia de voo para somente um sonho? E porquê um anjo só?
É vão procurar explicações, se estas não foram escritas. Devia acontecer um dos muitos massacres de crianças. Ainda hoje estes acontecem, entre os meninos da rua na América do Sul, entre os recém-nascidos das campanhas chinesas, entre os miúdos raptados por ogros e cirurgiões clandestinos que retiram e transplantam órgãos. Hoje estamos mais tranquilos: sabemos porque acontecem. Mas na narração de Mateus agita-se no leitor uma dúvida sobre a omnipotência de quem não mandou salvar nenhum menino, a não ser o seu Messias.
(continua…)
in Erri de Luca, Caroço de Azeitona, Lisboa 2009
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