Fundamentos

Suspenso da Interrogação

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«Eram peças abruptas de teologia literária, em torrentes metafóricas, pouco adequadas às exigências da oralidade, mas que ressuscitavam com uma força enorme quando saboreadas na leitura» Foi deste modo que Frei Bento Domingues recordou, no Público de 7 de Dezembro de 2014, as homilias de José A. Mourão. À minha geração só nos chegou a força destas homilias através da leitura. Hoje, uma parte de uma destas homilias, a partir de Lucas 15.

(…)

«O amor e as tristezas não se explicam: tocam-nos por dentro, aquecem-nos, gelam-nos, movem-nos, paralisam-nos. Porque o amor move. O amor acredita na sensualidade do invisível: é essa certeza invencível que faz com que seja impossível duvidar do amor ou do prazer (…) A regra de ouro da vida não são nem as regras nem as ritualidades mas o dom e o abandono. Porque a vida é distribuição de energias, feita de afinidades electivas, de entregas e cuidados.

“O teu irmão voltou”. O irmão mais velho encoleriza-se e recusa-se a entrar na alegria do festim. É a obediência ao pai que tem valor a seu olhos. Afinal, a sua relação com o pai não era de filialidade mas de servidão. O filho mais novo rompeu com o pai mas o mais velho nunca foi filho no seu coração. Que faz o pai? Vai ao encontro de um e de outro. O pai é inalterável, nada o pode impedir que ame, que faça viver e ressuscite os seus filhos. Os fariseus (e o filho mais velho) dizem ser herdeiros da promessa mas são conservadores da herança. São os censores da transgressão da lei. Julgam saber e ser os únicos a saber e por isso exprimem-se segundo o modo do murmúrio (…)

Os escribas podiam dizer de Jesus: “Tu és como esse vagabundo”, um “filho pródigo”. Aos olhos da Lei, Jesus é como o filho errante, perdido. Aos olhos de Deus é o Filho Amado, o que desceu às mesmas águas que os pecadores. Eles puseram a Lei no lugar do Pai. Eles desprezam o mais novo, que se identifica com os pecadores. O filho mais novo anunciava a Páscoa. O Calvário vai ficar no cruzamento de todos os caminhos de perdição, de morte. Jesus será crucificado ao lado dos sem lei. Não ouvis um eco de Páscoa no júbilo de festa do Pai: “O meu filho estava morto e agora vive”? No Calvário, ele é um e outro destes filhos da parábola.

É para lá que vamos, passando este deserto e este calvário. Nós somos simultaneamente o filho mais novo e o filho mais velho. Sabemos que os afectos geram afectos e que os afectos geram precipícios e dificuldades. Nenhuma fidelidade à herança salva. Só o amor resiste à patina das alianças e à morte. Há muito de “perdido” na aventura humana, muito de que nos desapegámos.

Quando se vive da experiência e da vibração, então não se pode estagnar, está-se sempre suspenso da interrogação. Quando não há codificação do ser e da experiência, ainda não há pecado original. Só se muda de percepção quando se começam a criar outras relações no próprio estado. Viver no mundo habitual não permite mudar de percepção: é quase um milagre mudar de percepção. Essa é a dificuldade maior do filho mais velho. Entrar no espaço aberto, vazio e pleno da liberdade é um movimento que nenhum zelota se atreverá a fazer. Por isso, é zelota e não fiel de amor.

Nós somos a parte perdida de Deus. Por isso Deus vem ao nosso encontro. A festa, a alegria são aqui a parte perdida, a parte dada por morte, esquecida: pôr-se a caminho é o regresso à vida dessa parte de nós amortalhada, à espera da Páscoa. A vida é curta. Deixemos vestígios. Eu acredito na invisibilidade que opera. “Desperta, abre os olhos e vê a que madrugas” (Vieira). Madruga, Irmã, para o louvor. Que o desejo em ti nunca adormeça porque quem ama não dorme.»

José A. Mourão, «Quem Vigia o Vento não Semeia», Lisboa 2011

 

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