Fundamentos

Um Autor: Dietrich Bonhoeffer

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Há livros e autores que me fazem duvidar muito sinceramente sobre qual a natureza da livraria Fundamentos – a maior parte das pessoas costuma chamar-lhe de ‘livraria religiosa’, mas há livros que, sem deixarem de ser escritos por autores cristãos, escapam muito à noção que normalmente temos de ‘religião’. Porque reduzimos o termo ‘religião’ a um conjunto de sentimentos que cada um de nós tem, com uma realidade muito ‘aérea’ a que muitas vezes damos o nome de Deus, associada a um conjunto mais ou menos definido de normas morais e algumas práticas ocasionais ou regulares – sejam de culto, de voluntariado, etc. Mas há livros e autores que – permitam-me – ‘partem ao meio’ esta noção.

Bom, penso por exemplo em autores como Dietrich Bonhoeffer. Alemão, viveu entre 1906 e 1945 – 39 anos chegaram. Pastor e teólogo da Igreja Luterana, passou por Barcelona e Nova Iorque para a sua formação teológica – estava-lhe reservado uma função como professor universitário, dadas as suas capacidades. Mas aqui entram, quer os acontecimentos que não prevemos, quer a nossa liberdade: no dia 30 de Janeiro de 1933 Hitler presta juramento como chanceler da Alemanha, numas eleições – democráticas – em que obtém a vitória. Este é o Acontecimento. No dia 1 de Fevereiro de 1933, dois dias após o juramento, um programa de rádio em directo é interrompido; nele, Bonhoeffer pronunciava-se contra os regimes totalitários. Esta é a Liberdade.

A Liberdade continua: em protesto contra a Igreja Luterana que cede e colabora com o regime nazi, Bonhoeffer e cerca de um terço do clero luterano formam, em 1934, a Igreja Confessante. Bonhoeffer coloca-se do lado da oposição ao regime, e fá-lo publicamente em encontros com membros do clero e estudantes. Começa a ser progressivamente proibido de ensinar, na Universidade de Berlim e no Seminário. Por diversas vezes, em 1939, 1941 e 1942, viaja para fora da Alemanha, passando por Inglaterra, EUA, Suiça ou Suécia – mas opta sempre por regressar à Alemanha, apesar de já se encontrar sob suspeita e vigilancia por parte da Gestapo, a polícia nazi. Escreve: «Não terei o direito de participar na reconstrução da vida cristã na Alemanha depois da guerra, se não viver com o meu povo as provações do tempo presente».

Finalmente, em 1943, 3 meses depois de se tornar noivo de Maria von Wedemayer, é detido e encarcerado em Berlim. É acusado de participar na oposição a Hitler e de pertencer a círculos de conspiração que procuram eliminar o ditador. Apesar das suas solicitações, nunca chega sequer a receber um julgamento – e é transferido várias vezes de prisão. Os seus irmãos também serão detidos e serão, também, assassinados em 1945. A vez de Bonhoeffer será a 9 de Abril de 1945 (Hitler cometerá suicídio a 30 de Abril).

Conhecer um pouco do autor é fundamental para entender melhor a única publicação – que eu saiba – editada em Portugal, «Ética», pela Assírio & Alvim, que apresentaremos um pouco na próxima quinta-feira. Aliás, a obra vem muito bem acompanhada de uma introdução elaborada pelo seu tradutor, Artur Morão. Morão refere como o próprio pensamento de Bonhoeffer terá conhecido uma mudança pela ascensão de Hitler ao poder: Bonhoeffer, tal como a grande maioria dos cristãos, protestantes e católicos, seria favorável a uma colaboração com o regime, baseando-se, entre outros elementos, na separação entre o âmbito do político e do religioso, do público e do privado, da ordem pública e das opiniões pessoais. Contudo, algo na consciência de Bonhoeffer terá mudado, e o livro «Ética» será disso reflexo. Porque para nós, hoje, é fácil condenar aquele regime, à luz da história: mas no próprio contexto e no seu presente, não seria assim tão fácil, tal como para os cristãos de hoje será tão difícil serem críticos diantes das dimensões de desumanização – sem comparações, claro! – que os regimes actuais possuem.

Infelizmente, em Portugal apenas temos editada a obra «Ética», que apresentaremos na próxima quinta. Já de Espanha, das Edições Sígueme, temos disponíveis as obras «Resistencia y Sumisión» (a compilação das suas cartas e escritos da prisão), «El Precio de la Gracia. El Seguimiento», escrito em 1937, e «Vida en Comunidad», em 1938. Também foi publicada pela Sígueme a principal biografia de Bonhoeffer escrita pelo seu contemporâneo Renate Bethge. Está disponível uma edição publicada pelas Edições Loyola com alguns excertos de comentários bíblicos escritos por Bonhoeffer, «A Resposta às nossas perguntas».

«Do ponto de vista cristão, um Natal passado numa cela de uma prisão não levanta nenhum problema em especial. Nesta casa haverá possivelmente muitos que celebram o Natal de um modo mais razoável e pleno de sentido do que noutros lugares onde ainda se conserva o nome da festa. É que a miséria, o sofrimento, a pobreza, a solidão, o desamparo e a culpa têm um significado muito diferente diante dos olhos de Deus do que diante do juízo dos homens; é que o próprio Deus dirige-se precisamente para o lugar onde se costuma afastar o homem; é que o próprio Cristo nasceu num estábulo, porque não houve lugar para ele na hospedaria. Tudo isto um preso compreende muito melhor que qualquer outra pessoa e significa para ele uma autêntica Boa-Notícia». («Resistencia y Sumisión», Salamanca 2008, pág. 68)

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