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Um não sei quê

"In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

“In principio – A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David” | Documenta

No seu Cântico Espiritual, concluído em torno do ano de 1568, João da Cruz deixa-nos esta estrofe, ao mesmo tempo bela e enigmática:

Ai, quem virá curar-me?
Vem entregar-te já, pois a ti espero;
não queiras enviar-me
mais nenhum mensageiro,
porque dizer não sabem o que eu quero.

O Cântico Espiritual é uma variação do poema bíblico do Cântico dos Cânticos, retratando um diálogo de amor entre a Esposa e o Esposo; no seguimento de uma larga e rica tradição que remonta aos primeiros séculos da experiência cristã e que percorre toda a Idade Média, João da Cruz apresenta a Esposa como a alma do crente, e o Esposo como o Verbo.

A estrofe é comentada pelo próprio João da Cruz, que de uma maneira curiosa ofereceu tanto o Cântico como a sua explicação, estrofe por estrofe. Na explicação, João da Cruz diz este paradoxo extremo: «cresceu na alma o amor e, por conseguinte, a dor da ausência. Quanto mais a alma conhece a Deus tanto mais lhe cresce o desejo e a dor de o ver».

Amor e dor crescem lado a lado, duas faces do rosto da vida humana. Parecem-se com os pólos de uma energia que alimenta qualquer relação de profunda comunhão, como um casamento, uma paternidade ou uma amizade de irmãos: a dor provocada pelos limites, pelas tensões de posse e domínio e pelo medo tornam-se o risco maior de um amor que se faz história, e pedem a aprendizagem do perdão e da confiança.

De Deus não vem a experiência do medo, do domínio ou da confiança traída: mas vem, sim, a experiência da ausência. Tal é, para João da Cruz, vivida de maneira mais intensa quanto mais se escreve uma história de espera e confiança filiais. Os mensageiros são indispensáveis para traçar a memória do rosto e dos traços de Deus na nossa história; mas, por outro lado, fazem aumentar a consciência de que nada pode fazer revelar o mistério pleno de Deus. «Por um lado, avivam a chaga com a notícia que trazem; por outro lado, parecem retardar a tua vinda».

E continua o poema:

E todos quantos vagam
de ti me vão mil graças relatando,
e todos mais me chagam
e mais me vai matando
um não sei quê que ficam balbuciando.

Esta expressão, um não sei quê, fica no ouvido de quem recita o poema. Um não sei quê. «É uma coisa que se sente ficar por dizer, mas que não se esqueceu de dizer; é um alto rasto de Deus que se revela à alma e fica por rastrear; é um profundíssimo saber de Deus que não se sabe dizer. Por isso lhe chama um não sei quê, porque, se aquilo que entendo me chaga e fere de amor, isto que não acabo de entender e sinto profundamente, mata-me».

É também o que podemos experimentar numa história de amizade ou de aliança: a pessoa a quem amamos surge-nos, dia após dia, como um mistério crescente, que pede o nosso respeito e a nossa admiração. Noutra palavra, pede a nossa contemplação. A experiência cristã surge assim, de um modo maravilhosamente belo, como a experiência de uma crescente contemplação. «Os que melhor o conhecem entendem mais claramente o muitíssimo que lhes fica ainda por entender».

Aos mensageiros, fica a consciência necessária de que, avivando uma memória fulcral, necessitam também de respeitar o espaço aberto da experiência pessoal de cada crente. Relatando as graças, mil de tantas, precisam também de aprender a dizer um não sei quê. E tal só se diz – conclui de modo esplêndido João da Cruz – quando se aprende a balbuciar, que é modo de falar das crianças, «as quais não acertam em dizer e dar a entender o que há para dizer». Porque, como nos recorda uma palavra antiga e sempre nova, «delas é o Reino dos Céus».

As citações do Cântico Espiritual são retiradas da edição das Obras Completas de João da Cruz publicadas pela editorial Carmelo em 2005.

 

One Comment

  1. Maria
    Março 26, 2017

    Tantas vezes já te vi a contemplar a criança a quem amas! “É um não sei quê” entre o balbuciar o “aiá”, o “eu qué”, “pa-pa”, “ma-ma”, os pulinhos que dá pela casa fora e o riso e as gargalhadinhas mais melodiosas que já ouvimos, o olhar maroto mais terno que já vimos…
    Maria, a que, a teu lado contempla

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