Fundamentos

D. Bonhoeffer, Resistencia y Sumisión

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Resistencia y Sumisión: Cartas y Apuntes desde el Cautiverio

Dietrich Bonhoeffer, Sígueme 2008

«Creio que Deus pode e quer fazer surgir o bem de TUDO, inclusive do péssimo. (…) Com uma fé assim teríamos que superar todo o medo do futuro. Creio que nem as nossas faltas e erros são em vão, e que para Deus será mais fácil contar connosco neles do que com as nossas supostas boas ações.

Havemos de falar de Deus nas coisas que conhecemos, e não nas que ignoramos. Deus quer ser compreendido por nós nas questões resolvidas e não nas que estão ainda por resolver. (…) Hoje chegamos ao ponto em que, para algumas questões, existem respostas humanas que podem prescindir de Deus por completo. Realmente – e assim foi em todas as épocas -, o homem chega a resolver estas questões sem Deus e é pura mentira o pretender que somente o cristianismo ofereça uma solução para elas. (…) Deus não é um tapa-buracos! Deus há-de ser reconhecido no núcleo da nossa vida, e não só nos limites das nossas possibilidades. Deus quer ser reconhecido na vida e não só na morte; na saúde e na força, e não somente no sofrimento; na ação, e não só no pecado. A razão disso encontra-se na revelação de Deus em Jesus Cristo. Ele é o centro da nossa existência, e não “veio” de modo algum para nos resolver questões ainda sem solução. (…) Em Cristo não existem problemas cristãos.

O que pretendo, portanto, é que Deus não seja introduzido como um contrabando em qualquer lugar secreto, no mais recôndito, mas que se reconheça simplesmente no caráter adulto do mundo e das pessoas; que não se “desacredite” o ser humano pela sua mundanidade [enquanto alguém que vive no mundo e é do mundo], mas que se confronte com Deus pelo seu lado mais forte. »

Memória

«Existe algo, tanto em mim como nos outros, que vejo como enigmático. Trata-se da facilidade para esquecer as impressões de uma noite de bombardeios. Apenas passaram uns poucos minutos e já quase tudo o que pensávamos parece que foi levado pelo vento. (…) Nada se mantém firme, nada está seguro. Tudo é a breve prazo e de curto alcance. E sem dúvida, os bens da justiça, da verdade, da beleza e de todas as grandes realizações, requerem tempo, perseverança e “memória”, e sem eles degeneram. Quem não tem a intenção de responsabilizar-se por um passado e de construir um futuro acaba “esquecido”. E não sei como se pode abordar tal pessoa, colocar-lhe questões, fazê-la pensar. Pois toda a palavra, ainda que de momento o impressione, cai logo a seguir no esquecimento. Que se pode fazer? Aqui está um grande problema da pastoral cristã.»

Coragem e ousadia

«O pensamento de que poderíamos evitar muitas dificuldades se tivéssemos vivido enfrentando as coisas com menos coragem, é demasiado suave para que nem por um momento o tomemos a sério.(…) Sem dúvida não é cristão nem tampouco humano renunciar às autênticas alegrias e aos valores da vida para evitar as dores.»

Resistir

«Começaria a contar-te, por exemplo, que, apesar de tudo quanto vos escrevi, do que aqui é horrível; que algumas espantosas impressões perseguem-me constantemente até altas horas da madrugada; que só consigo desfazer-me delas depois de recitar inúmeras estrofes de cânticos; e que pela manhã desperto então com um suspiro, em vez de um louvor a Deus. Acostumamo-nos às privações físicas, vivemos durante largos meses como se não tivéssemos corpo, – por assim dizê-lo; mas não nos acostumaremos jamais às cargas psíquicas, muito pelo contrário… Tenho a sensação de que o que vejo e oiço envelhece-me anos inteiros, e o mundo por vezes produz-me aversão, além de ser uma carga.

Sem dúvida já sabes que estas últimas noites têm sido terríveis, especialmente a de 30 de Janeiro. Pela manhã, os reclusos evacuados das celas afetas pelas bombas vieram ver-me para que os consolasse um pouco. Mas creio que sou um mau consolador. Sei escutar, mas quase nunca consigo dizer nada. Contudo, a maneira de perguntar por certas coisas e passar silêncio noutras, quem sabe já seja, de certo modo, uma referência ao essencial. Além do mais, parece-me mais importante viver realmente uns determinados momentos de angústia, do que ignorá-los ou retocá-los nalguma medida. Só me mostro inflexível perante algumas falsas interpretações da desgraça, que pretendem ser um consolo, e são na realidade um alívio equivocado. Assim pois deixo de interpretar a desgraça e creio que semelhante atitude é já um começo, mais além do qual muito raras vezes passo. Às vezes penso que o verdadeiro consolo há-de brotar tanto de improviso, como a desgraça. Mas admito que isso pode ser um subterfúgio.»

 (tradução dos excertos do castelhano: Gustavo Cabral)

D. Bonhoeffer, Resistência y Sumisión: Cartas y Apuntes desde el Cautiverio. Ed. Sígueme, Salamanca 2008, 255 págs. PVP: 18,00 euros.

Sobre D. Bonhoeffer: Ver aqui

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