Fundamentos

José Frazão Correia sj, novo provincial dos jesuítas em Portugal

Acaba de ser nomeado: alegria pela certeza de que será uma bela missão, tristeza por se perder para Braga um teólogo e evangelizador. Partilho a entrevista concedida em Junho. Pe. Frazão,um abraço e boa missão!

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Fizemos o convite da Fundamentos e, por incrível que pareça, foi aceite: hoje, uma breve entrevista ao pe. José Frazão Correia sj, autor de «A Fé vive de Afeto» recentemente publicado. Jesuita, natural de Alqueidão da Serra, é actualmente superior da comunidade de formação Pedro Arrupe, em Braga, e professor na Faculdade de Teologia. O que segue é seu:

«A Fé vive de Afeto». Porquê Afeto?

Tal como no livro, evoco o nascimento, por ser tão luminoso. Neste lugar humano, já vejo desenhado o que assumirá forma explícita na fé religiosa. Bastaria recordar o modo como uma mãe acaricia o seu bebé, como lhe canta uma canção de embalar e lhe sorri, para nos apercebermos que é pelo afeto que está a ser trazido à vida. Ainda não sabe dizer uma única palavra, mas já aprende quase tudo sobre a vida e sobre o seu mistério. Este é um pré-sentimento religioso. O calor do toque, a ressonância da voz, a expressão alegre do sorriso enraízam-no afetivamente na confiança e iniciam-no à necessidade de se confiar. O afeto é o sentimento forte e persistente que liga pela confiança reconhecida e retribuída. Creio que a fé no Deus de Jesus de Nazaré não se compreende sem este húmus vital que nos acomuna a todos.

Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano alemão assassinado pela sua oposição a Hitler, cunhou a expressão «o preço da Graça». A Graça é exigente, como o é a própria vida e história humanas?

Bonhoeffer conheceu bem o peso da graça. Pagou esse preço com a própria vida. Este é um gesto que nos comove e enche de gratidão, porque é esta fidelidade ao Evangelho de Jesus que, verdadeiramente, sustenta a vida do mundo. Pressionados de muitos lados e, talvez, confusos, correremos, hoje, o risco de apresentar uma fé demasiado fácil, que promete quase tudo e não custa quase nada. Mas é falso. A graça da fé custa a vida. Atravessa radicalmente as alturas e os abismos da nossa existência, elevando o melhor e contestando o pior. Implica corpo e sentidos, inteligência e afeto, imaginação e ação. Se a graça implicasse menos do que a vida, onde se inscreveria? E o que salvaria? «Onde estás?», é a primeira pergunta da Escritura. Quem poderá responder, em verdade, sem se implicar?

«Colher o timbre e a modelação da voz de Jesus como lugar de revelação da verdade de Deus e da nossa própria existência». Teremos receio de nos aproximar da humanidade (e afetividade) de Jesus?

É possível que tenhamos receio. Compreensivelmente, diria, porque esta é uma sarça que queima. Depois, custa-nos muito aceitar que Deus queira dizer quem é a partir do que somos. E nós resistimos a expor o que somos ao amor que Deus é. A encarnação é o mais desconcertante dos mistérios. Tenho aprendido a apreciar, diria, com afeto, a força reveladora dos encontros de Jesus. Amo muito Zaqueu e o seu sicómoro; a mulher pecadora e os seus gestos excessivos, em casa do cinzento Simão; a mulher adúltera, exposta na impúdica praça da acusação; a mulher das hemorragias que ousa tocar o sagrado, tido como intocável. Tanta vida nesta gente que vive na margem das praças públicas e dos adros religiosos. Tanta vida que Jesus encontra e que se encontra com Jesus. E tanta fé. É Jesus quem o reconhece. «Vai, a tua fé te salvou». Os gestos bem feitos de Jesus e as suas palavras bem ditas revelam a Vida na vida real daqueles que encontra no seu caminho, como graça que os salva-guarda.

A fé como dom frágil, na relação de duas Liberdades… Que imagem de Deus está em causa?

Um Deus que é, Ele próprio, relação, não um Deus que subsiste autossuficiente e sozinho, apático e desligado. A unidade de Deus é relação entre diferentes. Deus é, desde sempre, o Pai que gera o Filho. É, desde sempre, o Filho gerado pelo Pai. É, desde, sempre o Espírito de vida que circula entre o Pai e o Filho. Nenhum é sem o outro. Nenhum se anula no outro. Um misto de brio (está bem consigo mesmo) e de despreendimento (está bem sendo para outro). Deus é para outro, deixando espaço para que cada um seja o que é. O ser é amor. E o amor vive exposto ao reconhecimento e à resposta livre daquele a quem se dá. Aí está a sua grandeza. E a sua fragilidade. A cruz de Jesus é o lugar que, permanentemente, se nos expõe na sua grandeza desarmante e na sua fragilidade promissora.

«Fratura entre a fé cristã e os lugares e ritmos da existência humana quotidiana e elementar». Como vê o catolicismo português? E a teologia em Portugal?

Como, em geral, na Europa, temos uma fratura a atravessar, aquela que se instaurou entre os mistérios cristãos e a vida quotidiana das pessoas. A correia de transmissão deixou de funcionar. Não sabemos bem como trazer os mistérios da fé para a vida, nem como viver a vida com o sal e a luz da fé. Talvez nos falte linguagem, formas de vida e de arte, também teologia. Hoje, seremos presença qualificadora, também social e culturalmente, se formos presença qualificada, humana e espiritualmente. Esta presença não poderá depender, unicamente, da adesão individual. Precisamos, por isso, de práticas comunitárias que realizem visivelmente o Evangelho de Jesus. A teologia fala, hoje, em estilo crente, de modos de habitar o mundo a partir do Evangelho. O estilo não se pensa, realiza-se, fruto do discernimento e das práticas que gera. Este será um tempo de graça se atravessarmos comunitariamente esta fratura, deixando-nos atravessar por ela. A terra prometida está do outro lado do deserto que nos atravessar. E empobrecer, porque a pobreza é condição para outros ganhos. Quem quiser ganhar, há-de perder. É verdade, é uma estranha forma de vida. Ou não tanto.

Jesuíta, professor de teologia, superior de uma comunidade de formação: são desafios, também de relações vitais…

São lugares que procuro habitar, acolhendo a sua graça e atravessando o seu custo. A Companhia de Jesus é a minha casa, o ambiente vital de ondo parto e ao qual regresso.  Amar Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus, é a mística que desejo, o motivo da ascese que consigo pôr em prática. A missão trouxe-me à teologia. Não a procurei, pelo menos como atividade académica. Tem sido ela a procurar-me. Por vezes resisto, com alguma ansiedade. Outras, sinto-me agradavelmente surpreendido. Pela inteligência da fé procuro, sobretudo, a sabedoria que ensine acerca da vida e que faça viver. Vejo-me na teologia, algures, entre a academia e as comunidades cristãs, como um barqueiro que faz travessias entre as margens. Sei que há riscos. Mas é neste lugar de passagem que me revejo mais espontaneamente. Neste momento sou, também, superior de uma comunidade de formação. Assistir ao caminho de vida e de fé de alguém é, ao mesmo tempo, “assistir” como quem entre-vê a terra prometida, sem nunca entrar plenamente nela, e “assistir” como quem presta assistência nas várias necessidades do caminho. E o caminho de cada um tem tantos ritmos! E a Companhia, justamente, espera tanto de cada jesuíta, em “virtudes e letras”, para que o Reino de Deus se vá realizando!

Veja também:

José Frazão Correia, «A Fé Vive de Afeto», Lisboa 2013

5 Comments

  1. […] Entrevista com o Padre José Frazão Correia na apresentação do livro “A Fé Vive de Afecto”: http://www.fundamentos.pt/entrevista-jose-frazao-correia-sj/ […]

  2. […] Entrevista com o Padre José Frazão Correia na apresentação do livro “A Fé Vive de Afecto”: http://www.fundamentos.pt/entrevista-jose-frazao-correia-sj/ […]

  3. joana dias
    Junho 14, 2013

    «O dom que funda a justa relação entre Deus e o crente vive sempre no risco de uma interrupção.»

    «… na montanha a que se subir ou na caverna a que se descer, no deserto que se atravessar ou no jardim que se cultivar, à pergunta vital «onde estás?», é-nos dado responder, humanamente inteiros, frágeis e grandes, «eis-me aqui»».
    José Frazão Correia, in A fé vive de afeto, Paulinas Editora (maio 2013)

  4. alice matos
    Junho 14, 2013

    «…custa-nos muito aceitar que Deus queira dizer quem é a partir do que somos.» Mas é aí que o encontro acontece e Ele nos dirá: a tua fé te salvou!

    Entrevista muito bela e muito convidativa à re-leitura do livro. Parabéns ao padre José Frazão Correia sj, e à Fundamentos.

  5. delfina
    Junho 14, 2013

    Obrigada, cada expressão esta cheia de fé e de vida: só assim os discípulos de Jesus hoje podem ser verdadeiros e tronar-se credíveis… não é grátis, bem diz o salmo: a tua graça vale mais que a vida!

@wpshower

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