Fundamentos

Ética

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Ética.

Dietrich Bonhoeffer, Ed. Assírio&Alvim 2007, 382 págs

Um livro que, ao ser lido, se descobre como escrevê-lo terá sido para Bonhoeffer uma urgência, uma necessidade. Segundo a introdução de Artur Morão, foi no período entre o Verão de 1940 e Abril de 1943 (mês em que foi detido e enviado para a prisão de Tegel) que Bonhoeffer a redigiu, por pedido da Igreja Luterana/Confessante à qual pertenceu.  A foto é uma das que lhe terá sido tirada na prisão, no Verão de 1944. Percebo agora porque, num outro livro que não recordo qual, se dizia que “se todos os alemães tivessem lido ‘O Processo’ de Franz Kafka e ‘Ética’ de Bonhoeffer, provavelmente Hitler nunca teria ficado tanto tempo no poder”.

É incrível como neste livro se desfere com uma lucidez incrível o carácter demoníaco do regime nazi – recorde-se que em 1940 a Alemanha derrotou militarmente a França e, ainda que não existam dados estatísticos, a verdade é que a maioria da população alemã terá apoiado entusiasticamente Hitler. Neste período escreve Bonhoeffer: «Que o mal apareça na figura da luz, da acção boa, da confiança, da renovação, sob a forma do historicamente necessário e do socialmente justo, é, para o simples e mero cognoscente, uma clara confirmação da sua maldade abissal.» (pág. 48). E continua:

«Em face de ameaças e possibilidades insuspeitadas, o medo, a avidez, a dependência e a brutalidade revelam-se como os móbiles do seu agir. Em tais momentos, o tirânico desprezador do homem aproveita-se facilmente da baixeza do coração humano, alimentando-a e dando-lhe outro nome: ao medo chama responsabilidade, à avidez chama ambição, a dependência transforma-se em solidariedade, a brutalidade transmuta-se em dominação. Assim, no trato amistoso com as fraquezas do homem, gera-se e intensifica-se continuamente a sua baixeza. Sob os protestos mais sagrados de amor ao próximo, o desprezo mais baixo pelo homem leva a cabo o seu trabalho obscuro. Quanto mais baixa se torna a baixeza, tanto mais é, nas mãos do tirano, um instrumento dócil e flexível. O pequeno número de pessoas rectas é tratado com desprezo. A sua coragem chama-se revolta, a sua disciplína farisaísmo, a sua autonomia arbitrariedade e a sua dominação (no sentido talvez de auto-domínio) soberba. Para o tirânico desprezador do homem, a popularidade surge como o sinal do supremo amor pelo homem; esconde a sua secreta e profunda desconfiança de todos os homens por trás das palavras sonegadas de verdadeira comunhão. Enquanto diante da multidão se confessa como um dos seus, gaba-se a si mesmo com vaidade repugnante e despreza o direito de cada indivíduo. Tem os homens por estúpidos e eles tornam-se estúpidos, tem-nos por fracos e eles tornam-se fracos, tem-nos por desprezíveis e eles tornam-se desprezíveis. Mas quanto mais, no profundo desprezo pelo homem, busca o favor daqueles que despreza, tanto mais certamente desperta na multidão o culto divino da sua pessoa. Desprezo e idolatria dos homens estão intimamente associados.» (pág. 55)

O livro é escrito também como uma crítica das atitudes de conformismo que a maioria dos cristãos, protestantes e católicos, tomaram em relação ao regime de Hitler. Esta crítica surge no perfil do ‘homem do dever’: «O caminho do dever parece ser o mais seguro para se eximir à mole desorientadora das decisões possíveis. Aqui, o que foi ordenado apreende-se como o mais certo; a responsabilidade pela ordem recai sobre aquele que a profere, não sobre aquele que a executa. Mas quem se restringe à medida do dever nunca chega à ousadia da acção livre, que acontece por responsabilidade própria, a única acção que consegue atingir o mal no centro e vencê-lo. O homem do dever acabará por cumprir ainda o seu dever, mesmo diante do diabo» (pág. 49).

Mas em Ética não encontramos apenas uma denúncia do regime que viria a condenar Bonhoeffer à morte; nele está presente um verdadeiro tratado sobre a Igreja, a sua natureza, a sua missão no mundo. A Igreja é sinal da nova condição da Humanidade inaugurada em Cristo. Eis como numa passagem belíssima Bonhoeffer apresenta esta Nova Humanidade: «O Cristo Ressuscitado traz em si a Nova Humanidade, o derradeiro e glorioso sim de Deus ao Homem Novo. A Humanidade, sem dúvida, vive ainda no que é velho, mas já se encontra para lá dele; vive ainda certamente num mundo da morte, mas já se encontra para lá da morte; vive por enquanto num mundo de pecado, mas já se situa para lá do pecado. A noite ainda não acabou, mas já se anuncia o dia.» (pág. 62)

E sobre o próprio Jesus de Nazaré? Uma das mais belas apresentações de Jesus que me recordo entre as (poucas) leituras que já fiz:

«Cristo não é um princípio segundo o qual o mundo inteiro se deveria configurar. Cristo não é o anunciador de um sistema daquilo que seria bom hoje, aqui e para todos os tempos. Cristo não ensina nenhum ética abstracta que, custe o que custar, se deveria levar a cabo. Cristo não foi essencialmente um prelector, um legislador, mas um homem, um homem real como nós. Por isso, também não quer que sejamos, antes de mais, alunos, representantes e partidários de uma determinada doutrina, mas homens, homens reais diante de Deus. Cristo não prezou, como um especialista em ética, uma doutrina sobre o bem, mas amou os homens reais. Não tinha, como um filósofo, interesse no ‘universalmente válido’, mas naquilo que serve os homens concretos e reais. A sua preocupação não foi se era possível transformar ‘as máximas de uma acção em princípio de uma legislação universal’ (a citação é de Kant), mas se o meu agir, agora, ajudava o próximo a ser um homem diante de Deus. Não quer isto dizer que Deus se converteu numa ideia, num princípio, num programa, numa validade universal, numa lei, mas que Deus se fez homem. Significa isto que a figura de Cristo, tão certo como ela é e permanece uma e a mesma, quer ganhar forma em homens reais, e decerto de modo inteiramente diverso» (pág. 68).

E Bonhoeffer une a natureza da Igreja à própria pessoa de Jesus, e a toda a Humanidade: «’Configuração’ significa, em primeiro lugar, o facto de Jesus Cristo obter forma na sua Igreja. É a figura do próprio Jesus Cristo que aqui ganha feição. Numa profunda e clara indicação da própria coisa, o Novo Testamento chama à Igreja o Corpo de Cristo (1Cor 12,27). O Corpo é a figura. Por isso, a Igreja não é uma comunidade religiosa de adoradores de Cristo, mas o Cristo que se tornou figura no meio dos homens. A Igreja pode chamar-se Corpo de Cristo porque, no Corpo de Cristo, o homem e, portanto, todos os homens, foram efectivamente aceites. A Igreja reveste então a figura que, na verdade, vale para toda a Humanidade. A imagem segundo a qual ela é configurada é a imagem da Humanidade» (pág. 66).

E muito mais fica ainda por dizer deste livro. A forma como, muitas vezes, se apresenta uma moral cristã ‘duplicada’ entre o seu comportamento no seio da comunidade cristã e o seu comportamento no mundo. As respostas que a Igreja não tem, à luz de Cristo, para todos os problemas e questões, mas o Espírito e os critérios evangélicos de que dispõe para procurar essas respostas e ler a realidade. E como, diante da «divinização do irracional, do sangue, do instinto, do animal predatório que há no homem» (pág. 299), se poderiam aliar crentes e não-crentes na justa defesa das dignidades humanas. Fiquemo-nos, apenas, por uma fortíssima reflexão sobre as bem-aventuranças – e quem o escreve, escreveu-o na sua vida: [Dietrich Bonhoeffer, «Ética». ed. Assírio&Alvim, Lisboa 2006, 382 págs. Para conhecer melhor o autor, ver aqui.]

«Bem-aventurados os que forem perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos Céus (Mt 5,10). Não se fala aqui da justiça de Deus nem, por conseguinte, da perseguição por causa de Jesus Cristo, mas são objecto de bem-aventurança os que são perseguidos por causa de uma causa justa (cf. 1Pe 3,14 e 2,20) – e, poderíamos acrescentar, verdadeira, boa, humana. A falsa angústia dos cristãos que evitam todo o sofrimento por uma causa justa, boa e verdadeira, porque, supostamente, só poderiam ter uma boa consciência no caso de um sofrimento em virtude de uma expressa profissão de fé em Cristo, portanto a estreiteza de coração que suspeita de todo sofrimento por uma causa justa se distancia é, com força, desmentida por esta bem-aventurança. Jesus toma a seu cuidado aqueles que sofrem por uma justa causa, mesmo quando se não trata justamente da confissão do seu nome, toma-os sob a sua protecção, na sua responsabilidade, reivindica-os como seus» (pág. 304).

Sobre o autor, Dietrich Bonhoeffer

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